Fim da tarde no ônibus de volta pra casa sentou ao meu lado uma pretinha com seus 4 anos. Sentou assim, né.. Dentro do que suas perninhas curtas possibilitavam. Ela rolou um pouco as próprias costas na ponta do banco até o bumbum encostar onde devia e rapidinho se acomodar próximo ao encosto - eu nunca ajudo as crianças de primeira, sempre dou a chance de conseguirem sozinhas. Seus cabelos eram compridos e encaracolados e emolduravam o rosto ostentador de um sorriso que ia de orelha a orelha:
- Olha, tia, a minha bolsa verde!
- Nossa, é mesmo muito maravilhosa!
- Tem um sapo!
- É verdade, tem um sapo.
- E uma florzinha.. 
Aqui ela falou um pouco mais baixo e devagar, com o dedo na flor e olhando absorta pra novidade que não tinha reparado antes (o sapo era mesmo especial).
- Uhum, e uma abelhinha aqui.
- Uma abelhinha aqui..
A voz baixa e lenta da surpresa descoberta.
- E esse telhado bem grande e cor-de-rosa.
- Um telhado cor-de-rosa.. Tia, olha meu tênis! 
A voz baixinha se transformou num grito meio eufórico. Foi da surpresa recebida a surpresa pra entrega esticando as pernas o máximo que podia pra encostar os pés no banco da frente e exibir os tênis branquinhos.
- Hhhhh! Nossa, que boniiito!
De repente ela escorregou do banco sem se segurar em nenhum canto e instintivamente estendi as duas mãos pra apanha-la antes que caísse com o sacolejo do ônibus. Percebi que era proposital. O que ela queria mesmo era socar com força o pé no chão pra que eu visse a luz que se acendia no solado. Conseguiu! Falou alguma coisa olhado pra baixo e eu não pude entender, e do tênis olhou rapidinho pra cima procurando meus olhos que, claro, estavam achando tudo o máximo junto com ela. Dei mais um suspiro de surpresa e ela voltou ao movimento costas-bumbum pra sentar de novo no banco antes de falar mais uma vez da bolsa de sapo.

O sorrisão lá.

A mãe chegou e meu ponto também. Me levantei e cedi o lugar pra que se sentassem juntas. Ela tinha ido só pagar a passagem.
- Tchau, tia!
- Tchau!

Fiquei na porta do ônibus ainda uns dois minutos esperando pra descer e os olhos que antes estavam marejados começaram a "oceanar".

Eu recebi de tarde a notícia da gravidez interrompida de uma conhecida e vinha no ônibus pensando nisso um tanto emocionada. É que é sempre um baque de novo. No que sinto que devo e posso, oro, falo e compartilho o que aprendi. "Viva a dor do momento", "tome um suco de laranja", "não ligue pra quem diz que vem outro logo mesmo sem saber do futuro e das suas condições"... O tempo passa e fica tudo bem, mas de repente.. De repente eu cheguei em casa e desabei.

E tô agora aqui pensando que é engraçado como a gente tem tanta dor pra sentir e repetir, tanta dor pra antecipar e as danada das criança nem atina pra nada disso... Só pula, pisa forte, acha linda bolsa de sapo, senta do lado e começa a falar.

Pra você ver..

Onde é que vende tênis de luzinha?