Dias e vidas, por dentro e por fora

Detesto pessoas.

Detesto pessoas e, nessa condição, me detesto.

Detesto toda essa merda social imposta, detesto ter que cumprir obrigações de gentileza, detesto dar boa noite e boa tarde. Dizem que tenho que me encaixar, mas eu não posso. Não posso e não quero, não quero porque todos me parecem felizes e sorridentes demais e isso me assusta.

Me sinto alheia a tudo isso que fica na superfície, não sei boiar, afundo porque carrego toneladas penduradas em meus pés, paredes brancas me lembram coisas muito ruins, então fico no escuro, no cantinho, guardada, na gaveta, na tinta da caneta que não pinta papel nenhum.

Nesse monte de todo mundo eu sou só mais uma, estranha, ajeitando o óculos e mostrando os grandes dentes, num quase sorriso cordial de cor nenhuma, porque cresci e tive que aceitar que não posso ser como sou dentro. Eu não posso ser, mas não deixo de ser.

Os dias todos se aglomeraram e nas minhas costas tem cordas que levam a lugar nenhum, sou um boneco que se move sozinho, como o controlador invisível quer, porque é isso ou a aniquilação total ou alguma coisa medíocre entre ser de fato igual a todos e estar fora da margem. Eu sou um monte de nomes que me deram: fulana de tal de tal lugar que faz tal coisa e mora com não sei quem: que decepção e que benção.

Se eu pudesse ser o que sou de ruim e de quase leve...

Eu vivo da minha porta pra dentro. Aqui o clima é agradável e posso me lembrar da receita do bolo da avó que eu não tenho. Posso espalhar elefantinhos e capivaras e borboletas por toda a parte porque me evocam carinho, ternura e alguma coisa quentinha. Posso dobrar barquinhos de papel e me embebedar sem que meçam o quanto minha barriga cresceu. Posso esperar a pizza assar e amar cachorrinhos. Posso até ser terna e dizer que amo. Posso chorar a vida toda no sofá e prestar atenção no silêncio que se faz.

Depois de viver um dia todo sendo o que sou fora do que sou, posso perguntar como foi esse dia e me calar, ou contar tudo que tanto me irrita, ou esquecer.

Depois de viver todo um dia e toda uma vida, posso, enfim, chegar em casa e me ser.

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