Fracassei

Não entendo qual é a tal missão que tenho no mundo, não entendo o porquê de todos insistirem em dizer que isso tudo valerá a pena. Eu não consigo acreditar em eternidade, não consigo acreditar em nada além dessa carne que sangra e pesa, não consigo não sofrer pela feliz brevidade de tudo e isso costumava me trazer alívio, mas agora não sei mais, eu não consigo não desejar um encontro póstumo para abraços e consolos, mas não espero um pote de ouro no fim do arco-íris (quando eu pensei ter avistado algum arco-íris, o céu se desfez em pranto). Sinto muito forte que estou fraca, como a luz da antiga sala do piano, fraca mas ainda acesa, falhando e falhando e sumindo e sumindo.

Eu disse outro dia que estava aprendendo que o segredo dessa existência era ser feliz como e onde fosse possível, não deixando as toneladas de todo o resto me soterrarem, mas olha pra mim, eu não consigo nem sorrir sem me sentir mal antes mesmo que acabe, eu sorrio e logo estou amargurada pensando que aquela coisinha boa é tão efêmera que mais parece que nunca existiu e então, quase que instantaneamente, deixa de existir. A vida escorre em minhas mãos, porque sempre me ocorre que eu perdi o que fixava minha raiz e então, gota a gota, eu me desfaço em pensar e sentir por essas coisas sem solução.

Uma vez eu pensei ter um tesouro, pequenino e tão, tão precioso que só eu podia guardar – aquela imensidão – e apreciar e desfrutar de toda aquela coisa aconchegante que ele proporcionava, mas veja só, de repente eu abri as mãos, com cuidado, abri porque não soube segurar de outra forma e, minhas mãos desajeitadas deixaram meu tesouro cair e eu vi, em câmera lenta, a queda, eu assisti a queda e não pude conter, eu não pude salvar, não pude consertar, não pude adiar aquele fim, a coisa mais preciosa que eu tinha – e que já tive – estava, diante de mim, escorregando entre meus dedos e indo ao chão, eu assisti aquela catástrofe e fiquei paralisada, eu não consegui, eu não consegui, eu queria, mas eu não pude, eu quis por tudo no mundo ser capaz de salvar a minha coisa mais importante, mas perdi ali, em mil pedaços inconsertáveis no chão, todo o meu sorriso, o brilho dos meus olhos; tudo se desfez bem ali diante de mim e eu não pude fazer nada. Então ajoelhei sobre os destroços e chorei.

Choro porque fui incapaz. Choro porque fui e sou incapaz. Choro porque não volta e dói e porque, se eu pudesse escolher, jamais teria aberto as mãos, mas eu não poderia porque eu só sei ser essa coisa que não sabe ser boa. Dói porque se eu tivesse um segunda e terceira e milésima chance, ainda não poderia dar um final feliz a essa história, eu queria, mas sou pequena demais e minhas mãos tendem a despedaçar tudo.

Acabou, como tudo acaba.

Talvez não fosse nada disso que eu realmente pretendia dizer. Eu não consigo mais comportar tamanha impotência. Não consigo calar minha dor. Meu sangue não estanca. Nada volta. Não tem conserto, não tem vida, não tem remédio e não tem o que faça essa falta cessar.

Não me dê tarefa nenhuma, tenho esperado e temido o tal interruptor que me dará o escuro da lâmpada que se queima e jamais torna a acender-se.

Meu destino é arder até queimar.

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