Placebo

Este texto é confuso, porque eu também não sei entender.

Carreguei isto dentro de mim, este tempo todo, alimentei algo que não existia. Dizem que crio coisas para que me deem o acalento que nunca tive. Tudo em mim mudou e eu amei uma ilusão. Eu era bem mais nova, vivia em abusos e não me lembrava de onde aquilo poderia ter vindo – é comum que eu não me lembre das coisas; mas eu sabia que estava ali. Não sei escrever sobre isso, porque não sei nem pensar sobre isso. Só sei que em meu ventre habitava uma coisa, que parecia algo melhor que eu, que parecia quentinho e esperançoso, algo que me dava a sensação de que a vida faria sentido, até que abriram minhas entranhas e me provaram que não havia nada ali. Como pode a gente viver e sentir algo que não existe? Como pode algo existir só em mim e pra mim? Como alguém me diz que o que está em mim não existe? Eu ainda sofro.

Sofro e sofro. Sofro por não saber. Sofro por nem saber mais por que sofro. Tudo que eu tive morreu ou – por outro ângulo – não existiu. Quem viveria comigo essa vida, morreu. A vida em mim, também morreu. Sigo sofrendo perdas; a raiz estava presa na terra e foi violentamente arrancada: a terra é inútil, como eu, que sou estéril. Como eu, que nunca vou gerar nada, que nunca darei vida a nada. Eu não consegui e eu choro porque não conto isso. Choro porque é idiota e porque é óbvio que a natureza está certa, é óbvio que eu jamais serviria pra prover nada a ninguém (talvez por isso invente tudo e acredite em minhas mentiras, como inventei que o amor poderia vencer o mal). É óbvio que seria um erro que eu amaldiçoaria todos os dias, como fizeram comigo. É óbvio que eu ia ficar neste estado e assim, prejudicaria não só a mim, como faço. Eu jamais teria condições de dar carinho e cuidado, eu não poderia. Destruiria se estivesse em minhas mãos, como fiz quando senti que a felicidade esteve, por não conseguir ser diferente.

Sinto falta de todos eles. De quem foi e de quem nunca veio. Besteira minha, que agi com tanta imprudência, que fiz tanta merda porque “era o que restava”, besteira minha isso tudo e besteira minha também achar que alguém realmente amaria isso por muito tempo.

Teríamos um filho, Augusto. Talvez dois, Augusto e Cecília. Eu não poderia te dar nenhum e você, que pensava um tratamento, não conseguiu tratar nem a si mesmo.

Todos nós falhamos, nada vingou. E eu, de todos nós mortos, sigo fingindo que estou viva. Está tarde agora. Não posso mais pensar nisso porque jurei estar reabilitada. Jurei que não fico olhando pra essas malditas flores enquanto penso nas luzes e no sangue, jurei que não odeio as cicatrizes, jurei que estou bem e que não preciso mais me encontrar com todas essas pessoas fodidas e coitadas que buscam a melhora. Não quero inventar mais nada, não existe melhora, eu só quero esquecer. Dentro de mim é vazio, como os pequenos túmulos também são, repletos de flores - também mortas - por fora; flores pra ninguém.

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