Também não sei dessas palavras

“Tem uma coisa que só você preenche, que não tem como suprir de nada, e se você for, vai voltar a ser como se os dias não amanhecessem, porque você é o conforto e a paz da minha noite.”

Olhei pro alto e o dia (ou noite, não se sabe: quando se está morto, a cor do céu pouco importa) estava despencando de seu firmamento. Estou fugindo, mais uma vez, do que é implacável: me ser (porque não consigo ser outra ou carregar outros ombros sobre o tronco; não sei de outras histórias senão essas que me espancam por serem tão minhas e me furam afiadas por estarem sob minha pele).

O céu soa tão alto, mas eu posso tocá-lo a qualquer instante, observando a fumaça vazia do trago amargo que sobe-para-lugar-nenhum e logo some, como a nossa vida, que num piscar de olhos já não é nada em lugar algum. E isso e mais disso vai se passando, na incontável fúria do tempo que nos engole, sem que se possa contê-lo; mais um dia, e o céu ali, o mesmo.

O mesmo? Então se eu estou aqui e você aí (ainda tento acreditar que você está em algum lugar porque está vivo em mim e se está vivo (tão vivo e aceso e forte em mim), existe para mim), estamos olhando o mesmo céu? Não estamos tão distantes se o céu que te cobre é o mesmo que me cerca.

Será que você enxerga esses pontos brilhantes ou será que olha pro teto sentindo-se irritantemente confortável em sua grande banheira - onde a água já se faz fria como de costume, e só enxerga o opaco, na tinta cor-de-nada com a qual se pintam as tristezas mornas, pensando numa guria que você conheceu nos seus sonhos?

(Não preciso saber se de fato você existe ou des-existe no mundo, porque isso nunca te fez existir menos em mim; acredito em você, como acredito nessa droga de céu azul-laranja-esroxeado que em nada precisa da minha crença para estar ali, implacável, chovendo e chovendo.)

Continuo olhando pro alto. Mas esse olhar para o alto não me soa de forma alguma como redenção. Continuo aqui pensando nisso tudo, enquanto a grandeza do mundo (que não me cabe e ao mesmo tempo está inteirinho - todo esse mundo está sim, inteirinho - dentro da tampa do meu peito) ignora minha miséria.

O céu não vai cair.

Não importa o quanto eu reze, ninguém desce da cruz.

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