O fim é a memória mais franca que nós podemos ter sobre as coisas

Textos cruéis demais (09/04/2017)

observem: quando as coisas terminam [dias, semestres, estações do ano E relacionamentos], você treina seu olhar para perceber a diferença. o entremeio. aquele cisco que existia antes e que não existe mais [ou que não existia e agora existe]

você vai se lembrar de como a primavera de 2015 estava incrível porque as árvores se penduravam umas nas outras. já 2016 não foi bem assim.

você vai se lembrar de que no finalzinho do ontem você estava apático e infeliz e que talvez hoje
bem, hoje cê tá um pouquinho melhor

você vai se lembrar daquele amor da sua vida onde você nutria tanto sentimento que seria capaz de explodir. você se lembra exatamente quando e como terminou: você estava sentada olhando fixamente para ele e falava sem parar coisas como arrependimento perdão irresponsabilidade afetiva emocional como você pôde? eu te amava tanto

você vai se lembrar porque sua memória se apega àquela coisa que tem no fim.
o gosto do fim.
a sensação amarga de de repente se sentir sozinha nas ruas da cidade.

a sensação crua de abandono e do momento exato em que as coisas mudaram.

quando como você coloca um aparelho dentário e no primeiro dia há aquela coisa horrível a que chamamos adaptação. você passa a mastigar diferente, seu maxilar precisa se adequar à forma, os hábitos mudam.

sua memória, tão boa, capta exatamente essa diferença entre o ontem e o hoje
entre você com seu ex-namorado e você hoje, sem ele
você na primavera do ano passado
você na primavera de 2007

"em 2007 eu era tão apaixonada"
"ontem eu estava tão magoada"
"em abril do ano passado, exatamente numa quinta-feira, eu estava terminando com aquele cujo qual eu jurava amor eterno"
e assim por diante
e etc

a memória, parafraseando Belchior, é uma arma quente.

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