Por um jornalismo feminista

O jornalismo brasileiro não gosta de mulheres. Ou gosta, em situações específicas. Os veículos nos amam na hora de escolher as musas, seja do esporte, da política, da polícia ou qualquer outra categoria, independendo inclusive da idade. Somos notícia instantânea quando, acidental ou propositalmente, deixamos partes do corpo à mostra. Mas, cuidado, se o corpo não estiver “nos conformes“, além da notícia, virá a chacota. As namoradas de homens importantes também estão frequentemente nos holofotes, de preferência em imagens sensuais, mesmo que seus corpos nada tenham a ver com o fato noticiado. No jornalismo esportivo, a falta de cobertura de esportes femininos não parece um problema, se há como explorar a mulher como notícia de outras maneiras. Em alguns tristes casos, a própria violência é banalizada através da sexualização.
Nas notícias consideradas sérias, porém, o protagonismo feminino é bem menor. Apesar de serem maioria nas redações jornalísticas (de acordo com dados de 2013 da Fenaj, 64% dos jornalistas registrados no Brasil são mulheres), a utilização de mulheres como fontes especialistas em reportagens e artigos ainda é escassa, assim como suas posições em lideranças nas empresas jornalísticas. O papel feminino é claro, e reflete a sociedade: vistas, sim. Ouvidas, nem tanto. Mesmo nos momentos em que o protagonismo feminino existe, entrevistas com mulheres de negócio, por exemplo, ou de importância política, o enfoque raramente não é levado para questões tradicionalmente “femininas”, como cuidados com a aparência, com a casa e com a família.
As problemáticas de gênero nas notícias se agravam quando se fala de pessoas trans* (termo guarda-chuva que pode representar diferentes identidades, como transgênero, transexual ou travesti, além de identidades trans* que não se enquadrem no binário masculino-feminino). Desde o desrespeito ao tratamento de gênero correto, como a insistência de utilizar o pronome masculino ao falar de travestis e utilizar a identidade como fonte de comentário humorístico, até as colocações absurdas que afirmam que uma mulher trans*, por exemplo, é menos que uma mulher “normal” (sic), o jornalismo ainda está longe de compreender e incluir da maneira correta as diversas identidades. Faltam aos profissionais noções básicas quanto à orientação sexual, identidade de gênero e responsabilidade social em relação a pessoas que sofrem diversos tipos de discriminação e violência, e, através da cobertura jornalística irresponsável, estão suscetíveis a sofrer mais ainda.
Nesse cenário, fica clara a necessidade urgente das discussões de gênero na formação e atividades jornalísticas. Enquanto na faculdade aprendemos a valorizar o ser humano, e juramos como profissionais denunciar injustiças e desigualdades e zelar pelos direitos e pela informação relevante e bem apurada, na prática seguimos mercantilizando o corpo feminino, desviando a notícia do que é realmente relevante, colocando mulheres como segundo plano das atividades masculinas e corroborando preconceitos.
Originally published at www.publikador.com on April 16, 2014.