Koruyucu
O guardião dos sonhos #04

Eu fui me enfrentar. Eu era a única que poderia colocar ela de volta no lugar dela. E dessa vez, com o Koruyucu, eu tinha o amor dos meus pais.
De longe ela me viu andando pelos campos dos meus sonhos.
A cada passo que eu dava era como se o mundo dos meus sonhos reconhecesse qual caminho seguir. Que valia a pena lutar pela realização dos sonhos.
O ambiente começou mudar. As cores voltaram para os meus sonhos. Isso porque eu decidi realizá-los.
- Você nunca vai poder me destruir. Eu sou uma parte de você.
- Você pode até ser uma parte de mim. Mas eu decido como vão ser meus sonhos. E este sonho é meu.
Nesse momento todo o meu sonho começou a tremer. O jardim, a ponte, o castelo, o céu e tudo que havia dentro do meu sonho se inclinavam para a prisão daquele meu “eu”.
Eu estava tomando o controle dos meus sonhos e eu iria tirá-los do travesseiro.
- Você pode me prender. Mas você ainda vai ouvir a minha voz em cada sonho seu.
- Eu posso até ouvir, mas eu decido se eu quero escutar ou não. E ainda assim, eu tenho minha família e amigos para me protegerem. Não é, Koruyucu?!
Enquanto tudo se inclinava para a prisão dela o Koruyucu ganhou um poder maior do que todo o meu sonho. É como se o amor dos meus pais estivessem protegendo o meu futuro, os meus sonhos. Ele então avançou naquele meu “eu” e foi levando ela até a prisão.
Naquele dia eu dormi tranquilamente e o meu sonho ficou em festa.
Ela ainda se libertou várias vezes. Como na vez que eu tive a minha primeira paixão de escola. Ou quando eu queria a bolsa da moda. E ainda quando eu sonhava com o meu futuro.
Em cada sonho que eu tinha, eu ouvia a sua voz. Mas importava a mim concretizar os meus sonhos, abolindo aquela voz de perto de mim.
Um dia antes de completar meus 15 anos, na noite da virada eu encontrei o Koruyucu pela ultima vez. Nós passeamos por todo mundo dos sonhos, ele me contava algumas aventuras que eu sabia que eram imaginárias. Mas eu o amava muito para importar com isso.
Faltando poucos minutos para eu acordar eu falei:
- Até amanhã, Koruyucu.
Ele não sorriu da minha forma de falar dessa vez. Ele abaixou a cabeça e me disse:
- Não vai ter um amanhã, minha pequena Mariana.
Eu podia sentir o pesar na voz dele.
- Por que, Koruyucu? — eu me sentia desesperada. Eu iria perder meu melhor amigo.
- Quando uma princesa completa 15 anos a sua festa de aniversário é um ritual de passagem para uma nova fase da vida. E nessa fase você não me encontra. Você se torna protetora dos seus sonhos.
- Mas você não é só meu protetor, você é meu melhor amigo. Não posso proteger meus sonhos sem você.
- É claro que pode, minha linda. Você é uma das maiores guerreiras que eu já conheci.
- O problema é a festa? Eu cancelo. Eu falo com meus pais. Não me abandona, Koruyucu. — algumas lágrimas podiam ser vistas nos meus olhos.
- Eu te amo minha princesa, e seus pais também. Você sempre terá o nosso amor.
E se você acha que eu estou somente nos seus sonhos, você está muito enganada. Eu estou com você sempre. E sempre vou estar.
O meu relógio despertou. Nunca mais vi o meu amigo.
Hoje eu tenho 35 anos. Nesses 20 anos eu não esqueci nenhum dia do meu Kuruyucu.
Batalhei pela conquista dos meus sonhos e para calar a voz do meu outro “eu” que gritava várias vezes na minha cabeça.
Me tornei bailarina. A Ponte dos Desejos estava certa. Meu marido é músico e juntos estamos rodando o mundo levando o amor da arte para cada coração.
Me casei com 26 anos e com 29 me tornei mãe.
Além de mãe me tornei o “Koruyucu” da minha filha. Protegendo sempre seus desejos.
Um dia a minha filha me chamou:
-Mamãe!
- Oi meu amor?
- Tem um monstro na minha cabeça.
Meu primeiro pensamento foi: “Será?”
- Filha. Como é esse monstro?
- Ele é alto, moreno e com os cabelo cinzas. Totalmente estranho. — dizia ela em meio os soluços de choro.
Era ele. Meu protetor seria o protetor da minha filha. Meu coração batia mais forte. Eu sorria e minha filha não entendia.
-Por que a senhora está rindo de mim, mamãe? — dizia ela emburrada e chorando.
- Filha, e se ele for apenas um guardião?
- Um guardião tão feio?
- Sim, meu amor. — nesse momento eu entendi o porque das risadas do Koruyucu — E se ele for apenas um guardião de cada um dos seus sonhos? Já pensou nisso?
- Mas ele é tão feio, mamãe.
- Ele pode até ser, mas o que vale não são as aparências, é o coração.
- Eu tenho que matar ele?
Nesse momento uma lágrima rolou dos meu olhos
- Não. Apenas o ame. Abrace-o. Trate-o como parte da sua família. E fale para que eu mandei um abraço.
- A senhora conhece aquele bicho feio?
- Conheço. E ele quer te conhecer também. Durma bem minha filha. Que meu amor te proteja.
Desliguei a luz.
-Fim