Surdolimpíada 2017: sonho, oportunidade e visibilidade

Soraya Silva, Suzana Alves, Diana Sazano, Pedro Morais, Deborah Dias, Sabrina Santana e Pamela Araújo são surdoatletas. Crédito: Clara Sasse.
“Quero fazer com que o Brasil veja que o surdo tem capacidade, que não seja visto com olhar de pena, mas como atleta”, jogadora de handebol Deborah Dias.

Aexpectativa de Deborah é a mesma de sete surdoatletas brasilienses. Com dificuldade para encontrar palavras que expressem tal sentimento de esperança, os possíveis representantes do Brasil em uma competição esportiva de alcance internacional sonham com medalhas e com o reconhecimento dos brasileiros. Soraya Silva, Suzana Alves, Diana Sazano, Pedro Morais, Deborah Dias, Sabrina Santana e Pamela Araújo fazem parte do grupo de 14 atletas da capital federal que podem participar da Surdolimpíada 2017, na Turquia.

Apesar de toda a euforia para chegar ao topo, dois atletas do futebol masculino ainda vão participar de uma seletiva este ano, na Venezuela. No total, os brasilienses representam o Brasil em seis modalidades: o badminton, a natação, o futebol feminino e masculino, o handebol feminino e o vôlei feminino. Nos esportes individuais, como a natação, o atleta pode se inscrever para o campeonato e ir por conta própria, sem passar pela seletiva.

“É a realização do meu sonho, é muito importante representar o Brasil e mostrar que nós surdos temos condições de participar do esporte”, jogador de futebol Pedro Morais, de 30 anos.

Pedro Morais vai à Venezuela neste ano para ajudar a Seleção Brasileira a conquistar uma das duas vagas que restam no futebol masculino para 2017. Por outro lado, o futebol feminino teve apenas três inscrições, assim, não precisará de seletiva. Os três países — Brasil, Estados Unidos e Venezuela — vão participar.

MEMÓRIA

A primeira Surdolimpíada aconteceu em 1924, em Paris, motivada por ações das federações esportivas de surdos espalhadas pelo mundo. Já a Paralimpíada teve a primeira edição em 1960, em Roma. Na época, houve a possibilidade de juntar os dois eventos. Porém, os surdoatletas podem competir também em modalidades olímpicas que não estão ao alcance dos paratletas, devido ao tipo de deficiência que possuem. O Comitê da Surdolimpíada determinou, então, que eles continuassem com competições separadas.

A jogadora Deborah Dias, que também é a presidente da Confederação Brasileira de Desportos dos Surdos (CBDS), explica que, para os surdos, essa separação entre as esferas é melhor. “A gente teria que abrir mão de muitos esportes porque a Paralimpíada tem menos modalidades, com diferentes categorias de acordo com a deficiência do atleta. Então, os surdos, muitas vezes, não têm as características necessárias para essas modalidades”.

Para poder participar dessa competição, o atleta precisa ter perda auditiva bilateral (dos dois ouvidos) de, pelo menos, 55 decibéis (dB). Os dB medem a perda de intensidade auditiva do atleta, e os 55 dB classificam a deficiência de moderada a severa.

A 33ª edição dos Jogos dos deficientes auditivos acontece em 2017, e terá a participação dos brasileiros pela sétima vez. No total, o Brasil conquistou cinco medalhas, sendo uma de prata (natação) e quatro de bronze (uma no karatê, duas na natação e uma no judô). Como a Olimpíada e a Paralimpíada, não disputam o karatê, o bronze conquistado na Surdolimpíada foi a primeira medalha brasileira nessa modalidade.

CONQUISTA

Ora estudante, ora analista de sistemas, ora surdoatletas, mas todos eles têm algo em comum: o sonho de representar a seleção brasileira.

“Quero mostrar para os jovens e as crianças que eles são capazes, que eles não precisam se envolver com drogas, que eles podem participar de esportes, independente de qual for”, disse a jogadora de badminton Pamela Araújo, de 31 anos.

A presidente da Federação Brasiliense Desportiva de Surdos, Sabrina Santana, é também jogadora de futebol e assistente na Associação de Poupança e Empréstimo (POUPEX). Apesar da falta de tempo, ela não reclama. “Eu consigo administrar as três atividades e temos uma reunião por mês com a Confederação Brasileira para discutir assuntos dos atletas”.

Para a jogadora de futebol Soraya Silva, de 25 anos, a Surdolimpíada é a chance de provar a habilidade e a capacidade do atleta surdo. “O esporte foi muito importante para eu mostrar para a minha família e para o meu trabalho que eu me sinto orgulhosa de ter essa capacidade porque eu sou surda, então, eu mostro a capacidade que o surdo tem.”

“Só de estar na tentativa de ir para Turquia já mostra a minha garra, sabe?”, declarou a jogadora Soraya Silva.
A jogadora Suzana Alves ajudou a seleção a conquistar a prata no Mundial de 2015. Crédito: divulgação/FBDS.

Em novembro de 2015, a Seleção Brasileira Feminina de Futebol e Futsal de Surdos superou as expectativas e conquistou a medalha de prata no Mundial de Futsal Feminino. Elas ficaram em último lugar no Mundial anterior.

“Tenho até dificuldade em encontrar palavras para explicar como foi incrível. Foi uma forma de eu mostrar para os atletas que o esporte aqui no Brasil pode se desenvolver”, afirma a jovem estudante Suzana Alves, de 17 anos.

PREPARAÇÃO

Com dificuldades financeiras e por falta de estrutura, os surdoatletas brasilienses não possuem uma rotina de treinamento. Os treinos são coordenados de acordo com a proximidade de uma competição. Além disso, a maioria deles possui um segundo (ou primeiro) emprego para se sustentar. Mesmo com o apoio da Secretaria Adjunta de Esporte e Lazer do Distrito Federal, os Centros Olímpicos de Samambaia e São Sebastião são os únicos espaços disponíveis.

O jogador Pedro Morais aponta a distância como obstáculo. “Eu preferia se fosse em Brasília, algum lugar mais central. O estádio, por exemplo, não é usado, a gente poderia usar para treinar. É um lugar mais perto e mais fácil de chegar de ônibus”.

O Centro Olímpico é liberado para eles apenas na parte da tarde, e todos trabalham ou estudam nesse período. A presidente voluntária da Federação Brasiliense Desportiva dos Surdos (FBDS), Sabrina Santana, de 33 anos, conta que busca incentivar e garantir que os brasilienses surdos recebam os mesmos benefícios de qualquer outro atleta. “Se o local de treinamento fosse em Brasília seria muito melhor, nós teríamos mais tempo para participar. Tem gente que mora muito longe de São Sebastião, por exemplo. ”

A equipe do Jornal Esquina entrou em contato com a Secretaria Adjunta de Esporte e Lazer do Distrito Federal para questionar os locais de treinamento, mas não recebemos retorno até a data de publicação desta edição.

A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a forma que esses atletas têm de se comunicar. Por isso, encontrar um técnico voluntário com experiência e que saiba Libras não é uma tarefa fácil. “Não tem uma escolha do técnico, a gente procura algum para ser voluntário, a gente fica perguntando quem tem experiência para aceitar ser técnico”, afirmou Deborah, presidente da CBDS.

O técnico da Seleção Brasileira Feminina de Futebol de Surdos desde 2012, William Pires Bitencourt, explica que é necessário criar mecanismos de comunicação. “No futsal a gente desenvolveu uma técnica, todos batem o pé na quadra para a jogadora de linha sentir a vibração. Mas, no futebol de campo isso não é possível”.

“A gente usa papéis como recado para se comunicar, nós anotamos e entregamos para a atleta”, técnico William Pires Bitencourt.

O técnico da seleção brasileira de voleibol masculino dos surdos, Mario Xandó, conta que a maior dificuldade é a falta de reflexo auditivo. “Com a perda desse reflexo você tem menos velocidade em algumas situações e a gente não consegue ter esse retorno como os atletas ouvintes têm”.

Mario Xandó já treina com os surdoatletas do vôlei há quatro anos, e afirma que a convivência melhora a comunicação. “Eu me comunico pelos gestos do esporte, voleibol é muito gestual. Quando temos que falar algo ligado à parte teórica, eu sempre busco um intérprete. Além disso, eles têm uma leitura labial muito boa, não temos problema por falta de comunicação”, alegou.

BENEFÍCIOS

Os surdoatletas não possuem patrocínio que os leve até a Turquia para a competição no ano que vem. A alternativa é pedir ajuda para o Estado. A presidente da CBDS, Deborah Dias, conta que o ideal seria receber os recursos financeiros do Ministério do Esporte. A Confederação precisa de 1,2 milhão de reais para levar todos os surdoatletas brasilieiros ao evento.

O chamado “plano B” para os atletas seria a ajuda da Secretaria Adjunta de Esporte e Lazer do Distrito Federal. A presidente da Federação Brasiliense Desportiva de Surdos (FBDS), Sabrina Santana, conversou com a secretária de esporte Leila Barros sobre uma possível ajuda financeira.

“A Secretaria de Esportes pode ajudar com a passagem aérea. O limite que me deram foi de dez pessoas. Cada atleta busca ajuda em seu estado e a Confederação leva a comissão técnica”.

Além disso, os brasilienses contam com o programa Compete Brasília, que auxilia apenas na passagem aérea ou terrestre. O Bolsa Atleta também beneficia o esportista de acordo com a posição no ranking da modalidade. Deborah explica que “existe um Conselho Paradesportivo que administra qual atleta que está sendo ajudado, para que todos tenham recursos”.

“A gente tenta conseguir ajuda, mas é difícil achar uma empresa que seja patrocinadora porque nós não temos visibilidade. Na rua, as pessoas não nos veem como deficientes, fisicamente nós somos normais. E quando descobrem que somos surdos, eles têm medo, por não saberem como falar, como se comunicar”, disse Deborah.

A presidente destaca que a Paralimpíada permite ensinar formas de lidar com o cadeirante, com o cego, mas não mostra como lidar com o surdo. Segundo ela, os surdoatletas se sentem esquecidos e apostam na Surdolimpíada para mudar a visão dos brasileiros em relação à deficiência auditiva.

(A intérprete de Libras Érika Mandetta nos auxiliou na entrevista e ajuda os surdoatletas voluntariamente.)


Conheça mais sobre a Surdolimpíada com o vídeo abaixo sobre o campeonato de 2013, em Sofia, na Bulgária. Uma forma de ilustrar o desconhecido e mostrar a comunicação usada durante a competição. Créditos: Divulgação/ICSD Channel (Deaflymics).


Relatos de uma comunicadora com dificuldades de comunicação
Sábado, 10h27. Pauta apurada, dados confirmados, nomes dos atletas anotados, eu estava (ou pensava que estava) preparada para aquela entrevista. Marquei às 10h30 com a presidente da Federação Brasiliense Desportiva de Surdos, Sabrina Santana, em um Instituto de Atendimento aos Surdos, na 714/914, na Asa Sul. Confesso que cheguei a pensar se ela seria deficiente auditiva ou não, mas não tinha como confirmar essa informação. Porém, fui surpreendida por uma deficiência minha. Sabrina chegou com mais uma atleta e as duas são surdas. A intérprete (agradeço mais uma vez a ajuda) chegou oito minutos depois. Esse tempo se resume em — eu olho para o celular, olho para as atletas conversando por meio de Libras, olho para o celular, olho, ansiosamente, para a porta do Instituto pedindo para que a intérprete chegasse logo. Sem esforço, Sabrina tenta se comunicar comigo e tentamos manter um diálogo. Aos poucos os outros atletas chegam e, animados, conversam. Naquele momento, senti o que eles e mais de um milhão de brasileiros sentem todos os dias, a invisibilidade. Eu não tinha como saber o que eles estavam dizendo, como também não conseguia passar nenhuma informação para eles. — Enfim, Érika, a intérprete, chega. Em seguida, a entrevista flui normalmente. Nos despedimos. E eu só conseguia pensar na dificuldade diária de comunicação dessas pessoas.

Por Clara Sasse