Paulo Freire: não é doutrinação, é emancipação

Campo Grande, MS, 22 de março de 2016

A obra teórica de Paulo Freire (1921–1997), amplamente reconhecida em escala planetária, exerce enorme influência também sobre os processos de formação e desenvolvimento dos trabalhadores da saúde, no Brasil e em vários países. Quando Secretário Municipal da Educação de São Paulo, na gestão de Luiza Erundina (1989–1992), ele criou, com o então secretário de Saúde Eduardo Jorge, o Centro de Formação dos Trabalhadores da Saúde (CEFOR).

A relevância de sua obra deriva do inequívoco compromisso com a autonomia dos sujeitos e, mais amplamente, com a emancipação humana. Com efeito, a obra freireana ocupa, ao lado da produção teórica de outros educadores e educadoras igualmente notáveis, lugar de destaque no referencial pedagógico adotado pelas Escolas de Saúde Pública que integram a Rede Brasileira de Escolas de Saúde Pública (REDESCOLA).

Ao se reunir em Campo Grande, MS, em 22/3/2016, durante o 12º Congresso Internacional da Rede Unida, o Grupo de Condução da REDESCOLA analisou as implicações do contexto político-institucional brasileiro para o desenvolvimento das atividades das Escolas de Saúde Pública em todo o País, considerando a situação atual e as perspectivas imediatas.

Reafirmando seu compromisso com as diretrizes e plano de trabalho que vem marcando a presente etapa de atuação da REDESCOLA, o Grupo de Condução registrou sua preocupação com as manifestações de ódio e intolerância que têm origem em segmentos autoritários e antidemocráticos ainda presentes com força política em nossa sociedade. Fato especialmente marcante, ocorrido em algumas dessas manifestações e denotando algum grau de articulação, foi a hostilidade explícita à obra e à memória de Paulo Freire, uma vez que os agressores exibiam faixas que, em praça pública, pediam: “Chega de doutrinação marxista. Basta de Paulo Freire”; ou ainda, paradoxalmente, “Menos Paulo Freire, mais liberdade”.

Mais do que nos deixar perplexos, tais manifestações obscurantistas nos atingem, pois se constituem em grave ameaça ao trabalho que realizamos. Por isso as rejeitamos, bem como o culto à violência que as acompanham. Reiteramos, nesta manifestação, nosso mais profundo respeito à memória de Paulo Freire, cuja obra, por sua qualidade e compromisso com o interesse público, motivo da nossa admiração e apreço, certamente seguirá influenciando o nosso trabalho e o de futuras gerações, fonte que é de sabedoria e inspiração.

Paulo Capel Narvai - Dentista/Sanitarista