Arte e ativismo — o chamado profético do artista cristão

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Sep 5, 2018 · 4 min read

No Antigo Testamento, os profetas se levantaram em tempos de heresia e “pecados sociais” (como idolatria e corrupção) para lembrar o povo das palavras de Deus. Quando o rei e os sacerdotes se desviavam dos mandamentos divinos, o profeta erguia a voz em lugares públicos para mostrar os pecados da sociedade, alertá-los das consequências e apontar um caminho de arrependimento. Muitas vezes, foram ignorados pelo povo, porém continuavam seu trabalho pois sabiam que o próprio Deus os havia chamado.

A igreja tem hoje essa função profética na sociedade. Não podemos nos calar diante da injustiça, da miséria e da corrupção. Devemos ser o sal que protege a comida do processo de putrefação.

O testemunho cristão

Stott fala sobre uma Santa Mundanidade, a identidade dupla da igreja. A Igreja é santa pois foi “chamada para sair do mundo a fim de pertencer a Deus” e também é mundana, pois deve “voltar ao mundo, para onde foi enviada a fim de testemunhar e servir.” Nossa fé é demonstrada nas boas obras que praticamos, isto é, em atos de serviço (Tg 2:17,18 e Ef 2:10).

Quando tocamos neste assunto, é comum falarmos em serviço social, os atos de misericórdia que praticamos para dar assistência a pessoas necessitadas. Lembramos da parábola do bom samaritano. Porém, Stott nos apresenta uma diferença entre serviço social e ação social. A ação social é um conjunto de atividades políticas e econômicas que procuram transformar estruturas sociais para a remoção das causas da necessidade humana na busca pela justiça.

“Sempre é bom alimentar os famintos, mas é melhor, se possível, erradicar as causas da fome. Assim, se realmente amamos nossos próximos e queremos servi-los, o serviço pode nos compelir a tomar, ou a solicitar, medidas políticas em favor deles.” — John Stott

Para Stott, há quatro coisas que o cristão deve fazer como parte da sociedade: orar, evangelizar, testemunhar e protestar. Como cristãos, temos a oração como uma parte fundamental de nossas vidas e cremos no poder do Evangelho para salvação de todas as pessoas. Entretanto, Stott nos lembra, temos também um compromisso com a Verdade (seja ela científica, bíblica, teológica ou moral) e devemos defendê-la, conservá-la e debatê-la. Junto com o testemunho a favor da verdade, segue o protesto contra a mentira, o engano e a maldade.

O ativismo na arte

Uma possível definição para o trabalho do ativista, segundo Claire Peeps, é:

“em grande parte, a construção do capital social — as redes de base que permitem que as pessoas transfiram informações e ideias para um público mais amplo e, por fim, façam a mudança acontecer.”

Esse trabalho pode e deve ser feito pelo cristão, contribuindo assim para uma transformação da sociedade. O artista cristão pode fazer este trabalho através das suas obras, levando ao público uma arte com crítica social.

Um bom exemplo de crítica social na arte é o quadro “Guernica”, pintado em 1937 pelo espanhol Pablo Picasso. Após saber que a cidade de Guernica havia sido bombardeada durante duas horas seguidas por forças alemães que apoiavam o general Francisco Franco, Picasso pinta seu quadro como um “manifesto contra a violência”.

“Guernica” de Pablo Picasso. Óleo sobre tela. 350 x 756 cm. 1937.

“Não, a pintura não foi feita para decorar apartamentos. Ela é uma arma de ataque e defesa contra o inimigo.” — Pablo Picasso, sobre Guernica

Como o artista cristão levantará suas armas de ataque e defesa contra a corrupção, o engano, a opressão? Como ele mostrará os pecados da sociedade, alertando das consequências e apontando um caminho de arrependimento? Como testemunhará da verdade e protestará contra o pecado estrutural da sociedade? Não podemos permanecer indiferentes diante do pecado social que afeta milhares de pessoas diariamente.

Um exemplo bíblico

Francis Shaeffer nos lembra do capítulo quatro do livro de Ezequiel, onde vemos o profeta construindo uma instalação com ready-mades* e baixo relevo e performando por um ano diante dela para entregar ao povo a palavra que vinha de Deus. A arte de Ezequiel não buscava entreter o povo ou decorar o ambiente, ela tinha uma mensagem clara, uma mensagem divina. Ela estava ali para causar estranhamento, desconforto e arrependimento.

O artista cristão pode usar sua capacidade criativa para levar a toda sociedade a mensagem de Cristo.

ONG Rio de Paz protesta contra a morte de policiais em serviço no Rio de Janeiro com instalação na orla da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Leia também: A vocação do artista

*Ready-made, ou em francês objet trouvé, é o uso de peças prontas ou manufaturadas para outros fins que não artísticos. Foi uma estratégia marcante do movimento dadaísta, no início do século XX, e é vista ainda hoje na arte contemporânea ocidental.

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Reflexões sobre arte, cultura e teologia. Pensando a prática e a pesquisa em arte dentro de uma cosmovisão cristã.

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