Sentir o amor e a dor — sobre a perda do Museu Nacional
Esse é o primeiro texto escrito em primeira pessoa por aqui. Não tem como não ser pessoal ao escrever sobre isso.
Comecei minha caminhada acadêmica em pesquisa histórico-documental. Arte brasileira oitocentista. Não dá pra contar quantas tardes passei em museus. Estudando as obras expostas, examinando e transcrevendo documentos raros, pesquisando e escrevendo… Fiz pesquisa em acervo e aprendi a amar os segredos escondidos que os museus querem revelar.
Como pesquisadora, sei bem o valor de um acervo. É um tipo de valor que não dá pra ser calculado, só pode ser sentido. Quantos anos de trabalho foram perdidos? Quantos projetos de pesquisa interrompidos? Quantos sonhos foram destruídos naquele incêndio? Dói em mim pensar nisso.
O Museu Nacional era uma instituição de importância internacional devido à grandiosidade do seu acervo. É triste saber que o governo nunca percebeu isso. Desde 2015, o museu vinha alertando sobre a necessidade de reforma em sua estrutura. Talvez você não se lembre, mas ele chegou a fechar durante um tempo por causa da falta de investimento. Foi preciso uma campanha de financiamento coletivo para trazer o “Dinoprata”, fóssil de um dinossauro brasileiro, de volta à exposição.
Chorei quando vi as fotos das ruínas hoje pela manhã. Passei o dia com um aperto na boca do estomago. É uma perda irreparável para história, antropologia, biologia, paleontologia, pra mim, pra você, pro país, pro futuro…
Há poucos anos, a UFRJ quase perdeu sua Escola de Belas Artes, instituição igualmente bicentenária, num incêndio. Ontem, a universidade perdeu o museu. O que mais vamos perder até não sermos mais capazes de sentir a dor da perda?

