Para Ler Escritoras

Conheça o projeto que divulga escritoras por meio de newsletters gratuitas semanais

(Gabriela Ribeiro, do Para Ler Escritoras)

O REFLETE conversou com a Gabriela Ribeiro, uma das curadoras do Para Ler Escritoras, que já conta com 8.000 assinantes e tem como um dos objetivos divulgar escritoras de todo o Brasil. O bate-papo você confere aqui.

Conta mais sobre você e sobre o projeto em si: quando apareceu, com que objetivo, quais foram as inspirações e motivações?
Eu sou formada em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná. Escrevo desde criança e sempre me imaginei escritora, então acho que as coisas estão bem conectadas, sabe? O projeto, aquilo que eu coloco no papel. Em 2017, ganhei o primeiro lugar num concurso de contos que era voltado para escritoras e com o prêmio (R$ 1.000), comprei apenas livros escritos por mulheres. Foi basicamente o que li no último ano. Desde então, venho pensando em maneiras de divulgar a literatura produzida por elas, seja participando do #leiamulheres, seja trazendo escritoras pra Curitiba, que é onde eu moro e onde coordeno uma Escola de Criação Ficcional, a Escrevo. É o dinheiro que vem da escola que proporciona esse tipo de iniciativa, como a da newsletter (parece não ter custo, mas um disparador de e-mails custa uma boa centena de dólares por mês). Por mais que a maior parte da população do Brasil ainda não tenha acesso diário à internet, foi uma alternativa que me surgiu e que está distante do mercado editorial, que não precisa de “autorização” para existir.

Hoje, possibilitar que mais mulheres possam ter voz para narrar as suas histórias, sejam ficcionais ou não ficcionais, é quase uma tentativa de compensar séculos do apagamento e da inferiorização que sofremos. Iniciativas como o Leia Mulheres, como a Revista AzMina, como o Mulheres que Escrevem e como o Mulherio das Letras são todas tentativas de diminuir distâncias e de pluralizar os diálogos, que é objetivo tanto da Escola quanto do Para Ler Escritoras.

Quantas escritoras já foram divulgadas?
O projeto é recente, foram apenas 11! Natalia Borges Polesso, Moema Vilela, Sheyla Smanioto, Diamela Eltit, Paulliny Tort, Luisa Geisler, Aline Bei, Jarid Arraes, Adelaide Ivánova, Giovana Madalosso e Carol Rodrigues.

Como é feita a seleção de mulheres?
Por enquanto, somos três na curadoria: eu, a Natalia Borges Polesso e a Nanni Rios. Todas nós lemos muitas mulheres, então, escolher um texto só, por domingo, está se mostrando uma dificuldade, principalmente na hora de definir os critérios: gênero do texto? Nacionalidade da autora? Repercussão ou não que ela já tem no mercado editorial? — Essas são as primeiras perguntas que estamos nos fazendo. A Natalia deu a ideia de convidarmos outras mulheres para indicarem um texto por mês, escritoras mais conhecidas, pesquisadoras. Já enviamos alguns convites (a Regina Dalcastágne é uma das que vai participar) e parece que vai dar certo. Como eu disse, o projeto ainda é recente, então, precisamos de mais um tempinho pra estruturar tudo, fazer mais planos. A ideia principal, no momento, é divulgar textos de autoras de todas as regiões do Brasil e traduzir as que não têm publicações no Brasil.

Os textos são enviados para cadastrados, certo? Quantos já recebem a news do PLE? Como o PLE foi divulgado até então?
Isso, os texto são enviados para quem está cadastrado. Já são mais de 8.000 pessoas recebendo os texto semanalmente. Toda a divulgação do projeto é feita através da página da Escrevo no Facebook e no Instagram.

escrevoetc — trecho de #umamulhersingular, manifesto feminista escrito por uma mulher que não precisa ser identificada porque fala por todas nós. Como seria a sua mulher singular?

Quais são os próximos passos do PLE? Existe a vontade de transformá-lo em um impresso? Quais são os planos para 2018?
Existe essa vontade sim, mas acredito que para um prazo mais longo. Outras ideais devem ganhar mais força logo, no entanto. A gente está recebendo muitos, MUITOS textos de escritoras. Depois de uma curadoria e seleção, taí algo que tem um potencial grande. Vamos ver no que vai dar (também não quero estragar surpresas! hahah).

Quais são os maiores desafios do projeto?
A divulgação é um dos grandes desafios, acho. Apesar de termos fãs (algumas pessoas respondem e comentam os textos por e-mail toda semana!), precisamos fazer o projeto continuar crescendo para que ele gere impacto, né? Dar conta da seleção também é bem difícil. Escolher uma autora é, toda semana, não escolher todas as outras. A gente tem que usar critérios, é claro, não tem outra maneira de fazer isso, mas tentamos seu justas. A ideia do projeto é justamente criar um espaço para que outras vozes possam surgir. Nem todo mundo consegue ver a longo prazo assim e quer porque quer que a gente envie um texto específico no dia X. É complicado, não dá pra agradar gregas e troianas. Mas, os desafios estão aí pra gente superar.

Que escritoras você gostaria de ver no PLE?
Bom, estamos sempre em busca de novas autoras, mas eu ia gostar muito, MUITO, de publicar textos inéditos de grandes nomes da literatura brasileira, como a Maria Valéria Resende e a Lygia Fagundes Telles. Algumas outras mulheres que tem um escrita fortíssima mas que não estão mais com a gente, como a Elvira Vigna. Conseguindo os direitos, adoraria espalhar as palavras delas por aí.

Como acredito na roda ampliando, com mulheres divulgando mulheres, queria dica de 3 escritoras e livros delas que você acha que são imperdíveis e porquê.
Só três? Aqui você me pega. Bom, por causa do projeto não posso não falar da Natalia. Não só porque ela ganhou o Jabuti de 2016, mas porque, desde que a gente se conheceu, rolou uma misturinha boa que fez com a gente quisesse construir mais coisas juntas (e eu já era 100% apaixonada pelo Amora quando nos conhecemos, hein?). Me inspiro muito nela pra fazer as coisas na vida, sabe? Ela é tipo um norte. Como não podia não falar dela, vou roubar um pouco e falar de mais três.

A primeira que eu vou indicar, sem dúvida, é a Carol Rodrigues. Assim como a Adelaide Ivánova, Conheci ela na FLIP de 2017 e me encantei com a leitura que ela fez na mesa da qual participou. Quando li Sem Vista para o Mar, fiquei umas duas semanas sem encostar em outro livro porque aquilo tinha descido rasgando, sabe? Aí demorei uns dias pra me recuperar. A Carol não tem dó. O último texto que a gente enviou foi dela, um inédito, você pode conferir lá no site (porque a gente tem um arquivo de textos lá no site) e ver se concorda comigo.

Outra autora que eu não posso deixar de indicar aqui é a Luci Collin. Curitibana, nunca vi alguém que conhece tanto da cidade, da história da cidade. Certamente ela é uma das que não ocupa o espaço que merece no âmbito nacional. A Luci é de uma personalidade e de um humor extraordinários, acho que isso acaba passando muito para os livros dela. Escreve prosa, verso, ensaio, é de uma versatilidade e domínio da escrita realmente impressionantes. O que eu indico é um dos mais recentes (nunca dá pra dizer que é último, a Luci publica como quem escreve listas de compras, a mulher é uma máquina!) é o A Peça Intocada que saiu pela Arte & Letra em 2017.

Essa terceira vai ser mais difícil. Pra não ficar só na prosa, vou de poesia. Matilde Campilho é uma daquelas que fica na cabeceira, mas a Ana Martins Marques foi a mulher que me fez voltar pro gênero. Até então, meu poeta preferido era o Bandeira. A Ana tem essa mesma aparente facilidade de lidar com as palavras. Do cotidiano, daquilo que nos é mais comum, cria imagens e faz poemas de deixar qualquer um apaixonado (ou atônito, dependendo do caso). Aprendi com ela a economizar palavras para dizer tudo que se quer. Meu preferido é O Livro das Semelhanças.

Mas minha Nossa Senhoras Guardiã dos Livros, falei um monte aqui, né?

Gabi, foi um prazer! Estamos sempre de páginas abertas.

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