Refúgio Criativo {3}
Vivência: Caminhar / Monte Camapuã — PR
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Um refúgio em movimento.
Existe em nossa natureza humana um desejo de evasão, de peregrinação, quase uma necessidade intrínseca à nossa condição humana, um eco de nosso passado enquanto espécie nesse planeta, que aprendeu a desbravar a imensidão através de seus pequenos passos por milênios.
Assim como no movimento da respiração, lançamos nosso corpo em campo aberto, mas também buscamos refúgio, e é submetendo esse corpo sob as condições do tempo e espaço que conseguimos captar as dimensões físicas e simbólicas desse ato tão importante, que é o caminhar.
O que somos capazes de contemplar?

Partindo dessa reflexão, o Atlas escolheu como abordagem para esta edição do Refúgio Criativo “A Caminhada”, tendo como entorno — e também como nosso desafio — duas montanhas localizadas em Campina Grande do Sul, Paraná: o Camapuã e o Tucum.
A VIVÊNCIA
Durante dois dias, passo a passo, um grupo de 16 peregrinos caminhou rumo a um dos pontos mais alto do sul do Brasil, o monte Camapuã, com 1706m de altitude.
As provocações de Mônica Godoy, preparam o grupo para o momento da experiência coletiva. Como diz o relato de Leonardo Cidral, um dos participantes da vivência:
"Cheguei ali à flor da pele, meu coração parecia uma mão fechada, segurando algo muito precioso com força para não deixar escapar entre os dedos ao mesmo tempo que tinha a consciência de que abrir a mão seria a melhor coisa a se fazer. Uma batalha interna."





Tempo frio, nuvens espessas e desafios inimagináveis fizeram parte do percurso, nos levando a superar todas as dificuldades em grupo, com entrega e generosidade. Este foi o Refúgio da colaboração, da solidarização, das mãos que acolhem e dão força, dos peregrinos guerreiros em busca de equilíbrio entre mente, corpo e espírito.
{ Descubra: DEPOIMENTO DE JAQUELINE SILVA }
"Subir a montanha com o grupo do Atlas me ensinou a ultrapassar minhas montanhas diárias. Foi daqueles momentos em que é preciso testar os limites e ir além. Eu ainda escuto os ventos uivantes, ainda sinto o gélido daquele chão de uma noite em que o sono não venceu. Também ainda permanecem dentro de mim os ecos de pensamentos do eterno percurso.
Ainda cresce no meu coração a força que veio para chegar ao topo e retornar para casa. Ainda persiste a gratidão pelos olhares, conversas, sorrisos, mãos, braços, abraços e silêncios únicos que compartilhei com cada um que estava ali. As paisagens: sonoras, visuais, olfativas, sensitivas, emocionais, mentais e entre outras tantas, foram únicas, inesquecíveis. E no fim eu sei que ainda vai restar, sempre vai restar, a nossa cumplicidade desse encontro."





Construímos diálogos e reflexões baseados nas experiências vivenciadas no trajeto: a capacidade do corpo, a sensibilidade, o desenvolvimento da memória, a observação e a contemplação. Neste processo foi possível ouvir o que a natureza tem a nos dizer e, mais do que isso, observar nossas montanhas e desafios interiores, buscando superação em nosso processo criativo.





CONDUÇÃO
Mônica Godoy, psicanalista, analista ambiental e uma profissional que compreende a amplitude, importância e significado da arte na vida humana. Sempre gostou de ouvir histórias e fez disso a sua profissão. Com 25 anos de experiência na área clínica, trabalha com psicanálise aplicada a áreas como artes plásticas, moda, fotografia, design, cinema e educação ambiental. Propondo um enlace entre todas essas esferas criativas aliadas à cultura e meio ambiente, acredita ser possível a transformação a partir do diálogo de saberes e a construção de novas formas de viver. Mônica também aventurou-se por caminhadas como o caminho de Santiago de Compostela, Torres del Paine na Patagônia e o percurso entre a cidade inca de Machu Picchu no Peru.

{ Descubra: DEPOIMENTO DE LEONARDO CIDRAL }
"Ao longo de toda a caminhada vários insights surgiam, aspectos sutis que no cotidiano passam despercebidos, lá essas coisas saltavam aos olhos como se fossem pipocas estourando em uma panela no fogo.
Eu poderia me estender descrevendo cada uma das percepções que tive durante minha caminhada, mas é mais fácil sentir uma mochila desregulada machucando seus ombros que entender o peso e a importância que cada um dá para certas coisas em sua vida, algumas delas só fazem sentido pra mim e outras ainda são difíceis de acessar novamente com facilidade. Continuo caminhando e ouvindo o chamado da montanha.
No início do segundo dia, descemos por algumas horas e diversos momentos de interação, até que paramos e montamos o que chamamos carinhosamente de — A Cafeteria da Floresta.
Foi durante esse momento, e com o coração mais leve, mas ainda espantado, me senti motivado e tomei coragem para ler o conto que copiei em meu bloco anotações. Com a voz um pouco trêmula, quase gaguejando, rompi um bloqueio interno e nas condições que pude, apenas li.
O conto fala sobre viver a vida normalmente, onde um monge passa a meditar em um galho, dentro de um ninho de água, até que seu discípulo o questiona sobre qual era o espírito do mal que teria o possuído, fazendo-o viver tão perigosamente. Assim, o mestre respondeu:
“Passar pela vida ignorando a morte, a perda, a derrota como se fosse um modo normal de se viver, é muito mais perigoso do que meditar em um galho de árvore.”
A Caminhada foi uma experiência transformadora, foi através dela que tive a oportunidade de acessar aspectos sutis do meu mundo interior e exterior, consegui perceber e ampliar minha capacidade de visão, me libertando de uma limitação emocional e condicionada que estava vivenciando."




{ Descubra: DEPOIMENTO DE ISABELA SCHREIBER}
“Esticar o tempo”
"Essa é minha frase desde o Refúgio Criativo. Foi inexplicável, mágico e me causou um verdadeiro milagre interno. Internalizei meu eu, e fui me preparar para a caminhada, que a princípio era uma caminhada com acampamento, porém mal sabíamos o que nos esperava.
Se o céu é o limite ouso em dizer que cheguei lá. Me sentia forte e frágil ao mesmo tempo, senti vontade de desistir e senti na pele o medo. Eram cumes falsos, um atrás do outro, sempre com a sensação de que estávamos chegando.
Uma mão puxava a outra e assim seguíamos fortes em direção ao destino, no limite e exaustos. Cada um que conseguia chegar, sentia a sua vibração e entrega para aquele único momento. A entrega de cada um me emociona até hoje.
Foi lindo! Tão lindo que eu escreveria um livro. Foi o encontro com o meu eu, meu limite, minhas trevas e minha escuridão. Depois dali vi a luz, a calmaria e o amor. Em resumo eu aprendi a esticar o tempo e estar presente, dia após dia. Aprendi algo muito importante também, minha mente é capaz de controlar tudo, desde que eu controle ela e saiba contemplar. Gratidão!"












{ Descubra: DEPOIMENTO DE FRANCISCO HRUSCHKA }
"Tudo se pode sentir antes que aconteça. Mas naquele dia de subida ao Camapuã algo estava diferente com o meu ritmo e movimento pessoal, provavelmente por conta da proposta lançada ao grupo de degustar os sentidos enquanto se caminhava rumo ao cume da montanha.
Tem algo que foi chocante e excitante: sair da mata fechada que marcava a primeira parte da jornada. Mas o que nos esperava era realmente algo que me fez respirar fundo e puxar força em meu interior. Ainda faltava muito a ser concluído e o clima fechou quase que completamente — uma mistura de neblina densa e um frio e vento extremos.
Olhando aquele cenário inóspito, foi então que eu realmente entendi! Era a morte que me esperava aquele dia. Uma dança. Um rito iniciático na montanha. Um rito de passagem — ultrapassagem de cada limite, interior ou exterior. Regressus ad uterum.
Torna-se capaz de lidar com questões de morte e de transformações sem temor, sem assombrar-se. E saber se relacionar com o seu interior, exercitando-o no meio externo, se desenvolvendo para suportar adversidades e crises pessoais ou o que a vida lhe impuser, é necessário.
E com esses conteúdos revirando o meu ser — dentro da minha barraca gelada na noite mais fria e “uivosa” até então vivenciada — eu pude sentir o agridoce antegosto da morte, em todas as mortes que morri, para bem me aperceber de que tinha de ultrapassar todas as formas que assumi.
Então, só assim pude descer a montanha com o espírito cheio de vida e, lá naquela noite, naquele espaço-tempo da existência, pude deixar parte de mim."




REGISTRO DA VIVÊNCIA
Esse é o registro de Cleiton Nass apresentando um recorte do que foi esse encontro:
