A culpa que paralisa

Isso é sobre mim ou sobre eles?

Um cachorro de rua cheira minhas pernas buscando carinho ou alimento.

Dois mendigos dormem na calçada, pele e pedaços de caixas de papelão lado a lado.

Uma garota mais é violentada e assassinada, sua vida e morte estampam todos os jornais.

No trabalho, um companheiro pede doações para uma conhecida com leucemia que não pode pagar o tratamento.

No ônibus, outro desempregado vende balas sem preço, busca trocados para alimentar a família.

Amigos e pessoas que nunca conheci relatam casos de discriminação que sofreram por serem quem são.

Mamãe me conta as necessidades e abusos que sofrem alguns dos seus alunos, são pequenos que envelhecem antes do tempo.

Nas redes e nos jornais pessoas se enfrentam sem escutar, sem perdoar.

Do outro lado do mundo, mais um atentado mata milhares de pessoas e transforma a tantos outros em refugiados.

Cada história é um sutil lembrete. Um pensamento e uma pergunta que martelam meu cérebro.

Isso não é com você. Mas o que você pode fazer para que seja?

Entre os dois extremos da culpa e da condescendência, busco equilibrar-me porque me sinto responsável.

Por alguma razão misteriosa, essas histórias não são comigo.

Não sou eu.

Nunca fui eu.

Nunca passei fome, ou tive que me preocupar com dinheiro.

Nunca me senti ameaçada, discriminada, agredida ou abusada.

Muitas pessoas cuidaram para que isso não acontecesse. Tive problemas e dores, claro. Mas nada irreparável, nada tão intrínseco que me impedisse de fazer o que quisesse, nada que controlasse minhas decisões. Mamãe sempre diz que nasci com o bumbum virado pra lua e isso não poderia ser mais verdadeiro. A sorte de nascer onde nasci, no lugar, nas condições e cercada pelas pessoas mais…corretas?

Mais vantajosas?

Mais privilegiadas?

Antes de mim, meus pais batalharam lutas que eu nem consigo imaginar. Eu somente tive a sorte de nascer semente deles dois. Não há meritocracia em um mundo regido pela sorte. Só a coragem de quem insiste mesmo com tanto azar e a de quem decide dividir sua sorte com os demais.

Mas como escolher, o que fazer, por que causa lutar? Indo mais longe, como não entrar no glamour das “causas” que se transformam em egocentrismo disfarçado de caridade?

Como realizar uma mudança verdadeira?

Como salvar mais vidas?

Como impedir o problema desde a sua raiz?

Como evitar o assistencialismo e exterminar preconceitos?

E na real, todas essas perguntas têm importância enquanto há tanta gente morrendo? De fome, de medo, de desesperança? Não estamos paralisados pelas perguntas, evitando as respostas mais simples?

Todas essas histórias me comovem. Todos os dias me deparo com elas e todos os dias desvio o olhar, envergonhada. Pelo que sou e pelo que não são. Ou pelo que são e pelo que eu nunca fui. Nunca serei. Isso não é sobre mim.

Realmente.

Nunca deveria ser sobre mim, porque é sobre eles. E ao invés de gastar tanto tempo pensando em mim, em como me sinto, na minha culpa paralisante, poderia ser mais prática e fazer. Dizer, perguntar, oferecer, ajudar. Seguir o instinto que estamos acostumados a ignorar, o instinto que nos diz que não é certo existir tanta diferença se somos tão parecidos, e tentar dar a minha contribuição naquele preciso momento. Mudar uma vírgula naquela precisa história. Agir com verdadeira atenção e zelo, julgar menos, falar menos, fazer mais. Parar de olhar pro lado, encarar a realidade e ter a valentia de ser responsável, ao invés de somente me sentir assim.


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