Dilema do escritor wannabe

Eu quero ser escritora. Sempre quis.

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Mas quando tinha 10 anos também decidi que queria ser prática e resolvi estudar jornalismo. Porque não existia nenhuma universidade específica para formar escritores e porque, convenhamos, não somos todos os aspirantes dessa vocação que nos transformamos em bestsellers incríveis. Porque também tem isso né, quem quer ser escritor não quer escrever só pra si mesmo. Queremos ser grandes, aclamados, reconhecidos. Queremos escrever para os outros. Queremos escrever para mudar suas vidas.

Eu continuei querendo ser escritora, assim como continuei sendo prática. Me formei em jornalismo e trabalhei como jornalista, professora, assessora, analista de marketing. Sempre flutuando ao redor do tema, sempre com as letras e a comunicação, mas não exatamente da maneira que sonhava. E como esse sonho continua presente, eu fiz o que tinha que fazer pra deixar meu lado prático feliz, mas nunca deixei de dar pequeninos passos em direção ao rumo ideal. Eu li livros que queria ter escrito e todo o tipo de blog sobre como ser escritor. Eu fiquei até mais tarde no trabalho ou acordei mais cedo para rabiscar minhas ideias e escrever contos, crônicas, poesias. Eu inclusive já publiquei algumas dessas histórias por aí e me permiti sentir orgulho por estar um pouco mais perto da escritora que quero ser. Um pouco mais ela, um pouco menos eu.

Já li num desses artigos que trazem todas as respostas, “5 passos para…”, que eu não consigo evitar amar, que para ser escritor é preciso ler muito e escrever ainda mais. Ou seja, essa ideia da musa inspiradora é uma mentira e um bom livro é resultado de horas de suor e algo de talento. Não sei se é uma pretensão que ninguém mais vê, mas eu acho que tenho algo de talento e a capacidade de esforçar-me pra suar os litros que sejam necessários. Sinto que posso, sinto que um dia vou chegar lá, embora ainda não existam faculdades para escritores e ninguém sabe ao certo o caminho a trilhar. Mas existem modelos a seguir e há também a minha própria determinação que é, sim, prática, mas também de aço.

E é por isso que estou determinada a buscar as palavras certas e as ideias mais interessantes. Determinada em escrever, e falhar, e escrever, e ser recusada de novo, até acertar. Até marcar uma geração como J.K. Rowling. Ou ser amado como Antoine de Saint-Exupéry. Ou odiado como George R. R. Martin. Quero entrelaçar verbos e adjetivos como Carlos Ruiz Zafón e criar personagens que durem eternidades como Jane Austen. Quero contar as histórias que vi, como Jorge Amado, e as histórias que vivi, como Isabel Allende. Quero encontrar minha voz como eles encontraram, como eles e como todos os autores que ainda vou conhecer, que me inspiram e que chegaram lá. Que estão acenando para mim e me sorriem como quem diz “você também pode”.

E mesmo que eu não acreditasse neles, não posso deixar de acreditar em mim. No que eu sinto, no que está mim desde que eu era pequena e minha mãe me deu meu primeiro livro. Porque embora eu queira escrever para que o mundo saiba meu nome, no fundo eu sei que eu preciso escrever para me manter viva. Pra me manter sã. Porque escrever é parte de mim, sempre foi. Enquanto sonho em escrever romances que vão mudar a vida de outras pessoas, eu escrevo coisas que ninguém vai ler, mas que estão mudando a minha. E algo me diz que todos esses escritores incríveis que eu listei aqui só puderam escrever as coisas incríveis que escreveram porque antes de qualquer coisa, eles escreviam para eles mesmos.

Hoje decidi escrever pra mim. Ainda me sinto tateando no escuro, buscando minha marca, meu estilo. Ainda sem saber bem sobre que ou como escrever, que linha seguir, em que ideias vale mais a pena insistir. Mas um dia, um dia chego lá. Um dia o que escrevo pra mim também será o que escrevo para o mundo. Um dia vou colocar “Escritora” no campo “Profissão” dos formulários por aí. Um dia serei ela, ainda sendo eu.


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