Meta de vida: encontrar as pessoas que “give a shit”

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O inglês é um idioma lindo. Não tanto como o português ou o espanhol (falta musicalidade latina daquele lado da América), mas ainda assim, é digno da nossa admiração. Sua simplicidade e força fazem com que o inglês conecte todo o mundo hoje em dia . É quase como a língua oficial da Terra!

Provavelmente é por isso que algumas expressões do inglês estejam totalmente incorporadas no vocabulário de gente que, como eu, não fala esse idioma como língua materna. Independente disso, o inglês se tornou parte do nosso dia a dia e chegamos a um ponto em que algumas coisas só podem ser expressadas com ele. São algumas frases e palavras que explicam perfeitamente como nos sentimos ou vemos as coisas e que, embora possam ser traduzidas, nunca são tão efetivas em outro idioma que no inglês. Um exemplo é a expressão give a shit.

Traduzindo o intraduzível

Someone who gives a shit significa, basicamente, alguém que se importa. Alguém que liga para outra pessoa ou coisa. E, embora eu possa traduzir o significado da expressão, o quanto ela é boa em inglês é intraduzível. Ela fica muito melhor dita em seu idioma natural. É algo na maneira como a expressão soa, como resume com muita verdade, transparência e até um toque de humor, o fato de que algumas pessoas se importam. Outras não.

Li um incrível texto aqui no Medium, um entre tantos que escreve Jon Westenberg, e nele aparecia muito essa expressão. O texto falava sobre os diversos significados que ser um escritor pode ter, de acordo com cada pessoa. E como é difícil a jornada daqueles que escolheram essa vocação. Ou seria a vocação que escolhe a gente? Quando leio os textos de Jon ou de outros autores que admiro, fico na dúvida. E talvez isso seja um erro. Não podemos pensar que escrever é um dom, um presente divino, um capricho da sorte. Escrever é um ato que requer constância, persistência e honestidade, características muito humanas — pelo menos até agora, ainda que haja certa escassez aqui e ali.

E acho que a mensagem de Jon era um pouco essa. Não podemos pensar que o escritor é o cara genial, que conjura uma musa inspiradora e graças ao seu talento esplendoroso encontra a fama e a admiração de milhões. Na realidade, o que faz um escritor é a pessoa que gives a shit. Aquele alguém pra quem faz sentido escrever. Sobre quem faz sentido escrever. É a pessoa que, mesmo sem a fama, o dinheiro e o blablablá, quer ler o que você tem pra dizer.

É aquele alguém que considera o que você tem a dizer digno de ser escutado. Que opina, que comenta, que te diz quando gostou ou em que acha que você deveria melhorar. No caminho de Jon, e posso apostar que no de muitos outros escritores por aí, uma ou muitas pessoas who give a shit foram as responsáveis por eles seguirem. Um comentário, uma palavra, uma ideia. Uma expressão de apoio, por mais simples que fosse. São as pessoas que se importam que fazem com que a gente se importe também e continue tentando. Escrevendo de novo. Polindo a ideia. Juntando melhor as palavras.

Encontrando who gives a shit

Esse texto me fez entender que para todos é importante encontrar aquela pessoa que liga. E quando digo todos, quero dizer todos mesmo, até aqueles que não são/querem ser escritores e têm outros objetivos de vida. Todos precisamos de alguém que nos faça entender o sonho e correr atrás dele. De alguém que, de certa maneira, corra atrás dele com a gente. Aquela pessoa, ou duas, ou três, ou mais, que se importa o suficiente para te incentivar. No caso dos escritores wannabe (outra expressão maravilhosa), se escrevemos para essa galera who give a shit sem pensar no futuro, sem tentar escrever o livro do século, vamos chegar em algum lugar. Somente escrever para eles, traduzir em nossas palavras seus medos, dúvidas, vontades, paixões. Somente escrever, para ajudá-los a ser melhor, para tentar entender quem são, para fazê-los rir, chorar ou pensar.

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Isso foi o que aquele texto falou pra mim. E foi uma baita de uma conversa! Eu sempre sonhei com o meu nome publicado em lugares chiques. Sempre sonhei com muito, mas com uma maneira pouco eficiente de medir esse “muito”. Hoje entendo que não é sobre a quantidade de pessoas que conhecem meu nome. Hoje, eu prefiro encontrar aqueles que se importam. E escrever pra eles.

Um projeto to rule them all (essa é épica)

Foi assim que nasceu uma cruzada pessoal que batizei de “The one person who gives a shit” Project. Decidi encontrar aqueles pra quem faz mais sentido escrever. Decidi olhar ao meu redor, no meu círculo de pessoas queridas e amigos, e definir destinatários. Pra ter mais claridade sobre o que escrever, pra pensar mais neles e menos em mim. Tem sido um exercício contínuo e super difícil esse de deixar minhas expectativas e lado e me concentrar nos outros, nas pessoas com quem eu poderia falar e como poderia ajudá-las, através do que escrevo. E também tem sido sobre aprender a escrever, com elas.

O “The one person who gives a shit” Project se trata de ter conversas interessantes com pessoas. Simples assim. Formulei algumas perguntas e bati um papo com conhecidos que sempre tiveram muito pra me ensinar. Tenho muita sorte e pessoas incríveis na minha vida, que hoje colocam like nas coisas que publico e sempre tem um comentário positivo pra me dar. Sem nem perceber, já tenho uma listinha de people who give a shit.

E nem precisei sair no editorial de Cultura de algum jornal conhecido — bastou um punhado de ideias e esse espaço no Medium.

O apoio deles já é um indicador de que caminho seguir e estou explorando isso mais à fundo. Decidi ir até cada um desses likes, cada uma dessas pessoas que doou minutos ou horas de seu tempo para ler o que eu tinha escrito, e descobrir minhas próximas histórias nas ideias deles. No que eles querem saber, contar, aprender, compartilhar. Pra falar mais com eles e menos comigo mesma.

Meu respeitável público

Nesse caminho, estou aprendendo e tendo várias surpresas. Sempre podemos descobrir algo novo, mesmo sobre as pessoas que a gente pensa que conhece tão bem!

Sendo eu uma mulher de 25 anos, com todos os problemas e privilégios que vêm com minha geração, classe e interesses, tendo a escutar pessoas parecidas comigo. A maioria são jovens como eu, gente que vem da onde eu vim. Amigos de infância, colegas de faculdade, parentes. Muitas vezes dividimos contextos, ideias e estilos de vida. Mas cada experiência é única — cada um tem uma história pra contar. E nessas conversas, conheço um pouco mais a história deles e vou escrevendo um pouco mais da minha. Me reconheço em seus relatos, me identifico e logo vou chegando mais perto do que quero escrever e para quem. Sinto que escutá-los é um começo e que através deles um dia poderei ampliar o círculo e aprender de outras pessoas, novas pessoas, muito mais distantes de mim. A perspectiva é incrível!

O que já aprendi sobre a people who give a shit?

Primeiro, percebi que muito do que tenho escrito até agora são pedacinhos meus. Compartilho sentimentos, experiências e aprendizados, coisas que fui colecionando pelo caminho. Meu Medium hoje é um diário aberto, em que falo sobre sonhos, medos, ansiedades e descobertas típicas de qualquer jovem normal.

Conversando com minha people who gives a shit, começamos a perceber que, como jovens de hoje em dia, temos muito em comum. Especialmente algo que daqui pra frente vou chamar de Pequenas Angústias e Frustrações. Poucas gerações são tão ansiosas e problemáticas como a nossa. Caóticos, criativos, multitasking, exaustos. São tantas as características e tantas as reviravoltas que provamos, que é comum esquecer do lado bom para enfocar-se somente no negativo. E o drama, gerado pela incerteza e medo, nos assombra.

Para escapar desses fantasmas, uma amiga me disse uma vez que todos precisamos de Pequenas Auto Ajudas. Além de terapia, livros reveladores e outros métodos provavelmente muito mais eficazes para combater os dilemas do jovem moderno, sempre podemos encontrar aconchego na voz do outro. Num ombro amigo, alguém que vai nos dizer “você não é o único passando por isso”. E essas auto-ajudas em formato pílula podem estar em qualquer lugar: numa conversa, num abraço, num post no Medium. Talvez nós jovens precisamos das Pequenas Angústias, porque aprendemos delas. Mas também precisamos de Pequenas Auto-ajudas, mãos que nos tirem do fundo do poço para recomeçar.

E é sobre isso que quero escrever! Sobre coisas que me afligem e que afligem a vários outros jovens por aí. Sobre dicas e receitas que aprendemos a por em prática para sentir-nos melhor. Sobre o que vimos e vivimos até agora, que embora ainda pareça pouco (somos somente jovens de 20 e poucos anos!), já tem o peso e a intensidade de uma vida adulta. Sobre como nos perdemos e nos encontramos. E, principalmente, sobre como tomamos decisões e atuamos, com medo mesmo, para ser quem queremos ser. Ou, ao menos, para descobrir isso.

E você?

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Já sabe quem é a sua pessoa who gives a shit? Já sabe sobre o que você quer escrever, pra quem você quer direcionar seus esforços? Sejam eles relacionados a escrever ou não?

Espero que encontre sua gente, seus anjos da guarda, seus amigos. E que, apoiando-se neles, encontre o que precisa para devolver sua força e ajudá-los também. E se precisar de uma mão extra, deixo aqui uma checklist de como tenho trabalhado com minha people who give a shit.

1Identifique pessoas que já torcem por você e que te apoiam em seus planos. Pare pra refletir quem é essa galera e em seguida peça para trocar uma ideia (virtual ou física) com cada um deles.

2Explique o que você está fazendo, porque escolher conversar com ela e comece as perguntas. Não precisa ser uma entrevista quadrada, deixe o papo fluir que as respostas vão surgindo.

3Escute mais e fale menos — o ser humano precisa aprender a ouvir antes de responder e essa é uma boa ocasião pra praticar!

4Depois que tiver suas respostas, a conversa pode continuar. Você pode pedir uma opinião, compartilhar uma ideia ou até deixar isso de lado e sair pra tomar um sorvete. Afinal de contas, a pessoa que gives a shit é, antes de mais nada, seu amigo.

Enjoy :)


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