O amor começa onde você termina

Isso significa não saber, nunca, e nada, com certeza.

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O amor vai além do que sei, sou, penso, opino.

É a minha extensão em outro ser, alguém que é, sabe e pensa opiniões que eu não. E por isso o amor acontece, o amor é um complemento. Amar é encontrar paz na névoa, no desencontro, na incerteza. É sentir-me acompanhada ao lado de alguém que nunca conhecerei completamente. E é incrível. E é horrível. É essa mistura de coisas maravilhosas e assustadoras, isso de não saber. De não ter controle. E dá medo perguntar, porque não sabemos se queremos escutar a resposta. Se você já amou, você sabe a sensação.

A doce amarga sensação, metade frio na barriga e metade encantamento. Aquilo que você sente ao ver quem ama e saber que, de alguma maneira, algo nessa pessoa despertou sentimentos contraditórios em você. Algo nele ou nela que ninguém mais pode ver, que você nem sabe ao certo se está lá realmente, mas que na sua cabeça existe e te cativou. A doce amarga sensação de ver essa pessoa e nunca saber ao certo o que está pensando, o que quer, o que busca. O que viu em você para apaixonar-se também. Nunca ter nenhuma certeza, selo de fábrica ou um ano de garantia, se o que você sente é correspondido. E será pelo mesmo tempo que você sinta o que sente.

Há dois anos amo a mesma pessoa e ainda não sei. Não consigo ler todas as suas ações, suas expressões. Penso que entendo uma coisa, só para descobrir outras 50 que não tenho nem ideia de como encarar. E como não sei e não saber pode se tornar um veneno, às vezes sucumbo e crio cenários na minha cabeça, respostas imaginárias que são quase sempre negativas. Sou pessimista. Me machuco porque não sei e me machuco porque finjo saber sempre o pior. Às vezes me pergunto: de que tenho medo?

De perder? De ser enganada? De descobrir algo? De nunca descobrir? Será que ele também tem momentos assim e eu nem percebo? Talvez no fundo o maior medo seja de que um dia ele prefira outra mulher. Ele, que sempre me preferiu entre todas. Será que é para sempre? Será que não vai terminar em desgaste? Numa rotina nublada, sem graça, sem vida?

A ansiedade faz palpitar meu peito e em cinco minutos, somente com um pouco de imaginação masoquista, crio uma realidade paralela que me faz querer chorar. Aí normalmente eu choro, um pouco. Respiro fundo. Dou um tempo. E volto a pensar na situação de outra maneira, com um novo olhar.

Amar é difícil, se a gente permitir que seja. Se a gente olhar para o outro supondo, com medo do que possam ser seus sentimentos. Se a gente se blindar, se fechar, tentar defender-se de algo indefensável. De algo intangível. O amor pode ser corrosivo, se transformamos a alegria em estar com alguém em uma emboscada, em uma incansável busca por controlar o outro. “O que você está pensando?” é a pergunta que mais queremos fazer e que menos sentido tem. Invadir os limites do outro é ir contra a lógica sem sentido e deliciosa do amor. Porque se o que amo deixa de ser o que não sei, o que não sou, por quanto tempo posso continuar amando? Controle não é amor. É seu assassinato.

Há dois anos amo a mesma pessoa e às vezes me pego assim, incerta. Caminhando pelo fio de uma faca afiada, ciumenta, irritada, sempre pronta a apontar um dedo. A criticar, a julgar. Mas em outras vezes, quando estamos deitados lado a lado na penumbra e falamos sobre nossos dia, eu esqueço do que não sei. E vejo na escuridão do quarto compartilhado, da vida compartilhada, como nos conectamos.

As palavras que eu não sei dizer saem dele e meu toque corresponde a todas as expectativas que ele não soube falar. No fundo, nenhum dos dois sabe nada. Pobre dupla de Jon Snows somos! Não sabemos, mas sentimos que o pouco que sabemos é suficiente para encher todos os espaços em branco. Não sabemos, mas nossos braços entrelaçados, nosso riso e nosso choro trazem respostas que nenhum dos dois conheceu.

Talvez amar mais e pensar menos sejam as soluções. Talvez somente sentir, sem preconceitos, sem julgamentos. Talvez aceitar que ele é ele, eu sou eu, e nunca seremos um. Somos dois, somos completos pelo que somos, mas encontramos um no outro razões pra ser melhor. Inspiração que nos faz aceitar que é nessa incerteza, nesse desencontro, que vamos entender o valor de ser quem somos e o excitamento de descobrir no outro surpresas que vão nos desafiar a mudar.


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