Para ser gente grande tive que dar o meu All Star
Quando mais nova, o único tipo de tênis que eu usava era aquele da marca All Star.

Ou Converse, como se diz agora. Eu adorava aquele formato comprido, cheio de cordões e que vinha em todas as cores. Adorava os desenhos que improvisava com caneta Bic no tecido ou na borrachinha branca que rodeia o sapato. Tive um All Star rosa, um roxo, ao menos três azuis e provavelmente outros que eu nem lembro mais. Um dia, já na universidade, meu último All Star furou de tal maneira que era impossível continuar usando. Joguei fora e nunca mais comprei outro. Tinha mudado de gosto ou o tênis tinha mudado demais pro meu gosto, não sei bem. Logo passei a outras marcas, outros tênis, e me esqueci dos All Star.
Até que há alguns dias, conversando com uma amiga que além de psicóloga é filósofa, ela disse algo que refrescou minha memória. Enquanto falávamos sobre o processo de amadurecer e como nós, jovens de 20 e poucos anos, nos sentimos em relação ao mundo, em um momento ela disparou:
“Dei meu All Star, diziam que não era coisa de adulto”.
Esse pequeno episódio na vida da minha amiga é curioso por muitas razões. Mas talvez o que mais chame minha atenção seja o fato de que ela é uma mulher formada, maior de idade, que trabalha e se mantém, vive com o namorado, é dona do seu próprio nariz e uma grande profissional. E, ainda assim, havia gente que não a considerava o suficientemente adulta porque às vezes ela usava tênis All Star.
O que é preciso fazer ou abandonar para que nos considerem adultos?
Eu sempre pensei que ser adulto era menos uma questão de coisas e mais de atitude. Eu sabia que seria adulta quando fosse independente, tivesse um trabalho, pagasse minhas contas sozinha, pudesse comprar coisas e entrar em lugares proibidos. A ideia de crescer e ter toda essa responsabilidade sobre a minha vida sempre me atraiu, como atrai a todos nós quando pequenos.
Há um certo glamour na ideia de ser adulto, em ser forte e ter controle absoluto sobre suas decisões, que ainda adolescentes não vemos a hora de chegar lá. De ter idade suficiente para tudo aquilo que sonhamos. Será que essa vontade é só nossa ou será que é parte o mundo insistindo pra gente crescer? Insistindo que a gente se desfaça do All Star e das brincadeiras para se concentrar na vida real?
Gente grande nem sempre se sente grande
Hoje tenho tudo que pensei que teria quando fosse adulta. Um trabalho, uma relação, a possibilidade de beber e dirigir e outras coisas mais. Mas, ainda assim, não me sinto tão gente grande. Dúvidas e anseios ainda persistem, e me fazem perder o sono exatamente como quando eu era uma criança. Será que estou fazendo as coisas errado? Será que a solução é dar os bichinhos de pelúcia que tenho no quarto? Ou me desfazer das guloseimas que sempre compro no supermercado? Ou talvez precise jogar fora minha pantufa de ursinho?
Será que são esses objetos, que poderiam ser considerados infantis por muitos, que me estão privando de uma lifestyle totalmente adulta e cool?
No afã de crescer, já perdi muita coisa que gostava de usar quando pequena. Já não tenho mais um par de All Star. Já doei roupas, brinquedos, enfeites. Já joguei fora os cadernos em que escrevia ideias e histórias desde os 10 anos. Já deixei pra lá os pôsters das minhas bandas preferidas, as canetinhas gel, o patinete e tantas outras coisas queridas. Algumas delas foram saindo da minha vida como parte de um processo natural. Não sinto vontade de brincar com as Polly Pockets agora aos 25 e fico contente de pensar que minhas bonecas alegraram outras crianças depois de mim.
Mas algumas coisas foram mais difíceis de abandonar, principalmente aquilo que não é concreto ou visível como brinquedos ou roupas. Crescer significa perder (ou ao menos diminuir consideravelmente) um montão de qualidades, como a inocência, a curiosidade, a tolerância ao diferente, a imaginação. É como se precisássemos abrir espaço dentro de nós para assumir responsabilidades que vêm com ansiedade, seriedade, realismo, criticismo e outras.
É óbvio que no caminho em que passamos de crianças a gente grande também aprendemos coisas boas e nos tornamos pessoas melhores — nem tudo é dor de cabeça e sem graça! Mas eu fico imaginando como seríamos se pudéssemos manter algumas das características mais infantis e mesclar-las com aquelas que vêm com a maturidade. No meu caso, talvez eu tivesse escrito mais e me sentisse mais escritora do que me sinto agora. Talvez ainda tivesse alguns amigos que perdi pelo caminho. Talvez meu dia a dia fosse mais ameno, mais feliz, já que a Regiane de 10 anos não se permitiria ser tão ansiosa e ter olheiras tão marcadas. Eu sorriria mais, faria menos suposições, acreditaria mais no melhor do mundo.
E se todo o mundo pudesse fazer isso? Como esse mundo seria se os adultos não tivessem suas Pequenas Angústias e fossem mais parecidos com as pequenas versões deles mesmos?
Voltar atrás não dá, mas sempre dá pra comprar um novo All Star
Infelizmente, para mim, minha amiga filósofa e outros jovens da nossa geração, o que passou, passou. O tempo já avançou até aqui, o que perdemos já está perdido. Já demos nossos All Stars, com todas as suas cores e desenhos.
Mas nós lembramos.
Lembramos da sensação de usar um All Star e sentir-nos donos do mundo. Lembramos das brincadeiras da infância e das risadas, quando tudo era mais simples e mais colorido. E são essas lembranças nossas principais aliadas para hoje em dia resistir à ideia deturpada que o mundo tem do que é ser “gente grande”. Somos grandes, mas lembramos de como era ser pequeno. De como era ter sonhos e viver para realizá-los. De como era não julgar as coisas que víamos, mas sim tentar entendê-las e explorá-las. De como era ver o copo sempre meio cheio, o dia sempre mais brilhante e as horas como infinitas possibilidades de viver aventuras.
Essas lembranças são recursos que podemos usar para encontrar a aceitação que tanto buscamos em nós mesmos e valorizar o fato de que, mesmo com tantas incertezas e dúvidas, somos sim gente grande. Chegamos até aqui, aprendemos, erramos, sorrindo ou não, e está tudo bem ser gente grande do nosso jeito.
Está tudo bem ser uma adulta que no inverno usa pantuflas de ursinho. Ou ser uma adulta que sonha alto e não tem medo de tentar realizar esses sonhos. Ou ser uma adulta que chora vendo comerciais de margarina. Ou ser uma adulta que nem sempre é tão séria, ou realista, ou responsável. Ou ser uma adulta que ainda não tem todos os seus passos e planos definidos, que ainda não sabe bem que o que quer ou o seu futuro. Sou adulta do meu jeito e só quero viver minha vida em paz e com amor.
Espero que mais pessoas resistam como minha amiga resistiu, minha amiga que guardou seu All Star até não poder mais. Até a pressão por transmitir uma falsa ideia de seriedade com sapatos fechados ser grande demais. E, talvez, alguns de nós possam ir além e não sucumbir aos apelos sem sentido de pessoas que há muito perderam a criatividade ou a tolerância. Que usem seus All Stars sempre e quando quiserem! E talvez, quando cheguem aos 80 anos, seus tênis já considerados vintage não sejam mais motivo para preconceitos bobos.
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