Sobre o que preciso que deixem de precisar de mim

Você precisa mesmo encontrar alguém.

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Você precisa.

É fundamental que você encontre alguém, que você não esteja sozinha.

Mas é importante também que você aprenda a virar-se sozinha, a ser independente, a ser autossuficiente.

Para poder mostrar todas as suas vantagens como um pavão e capturar a atenção de um possível candidato.

Você precisa, diziam. Era um pacto.

Eu cresci sobre essa premissa.

Isso era o que me transmitiam, indiretamente, os livros e filmes de romances açucarados.

Isso era o que quase todas as garotas da escola repetiam insconscientemente em sua maneira de falar, opinar, sorrir.

Isso era o que eu escutava das pessoas mais próximas, no formato de piadas, comentários, julgamentos.

Ou no seu silêncio.

Isso era o que eu via no semblante cansado de todas as mulheres com quem cresci.

Você precisa encontrar alguém.

Já somos modernas e não precisamos do casamento com toda a pompa e circunstância.

Já podemos tomar anticoncepcionais e não ter (tantos) filhos.

Já podemos votar, trabalhar fora e encher a cara de vez em quando.

Mas não podemos estar sozinhas.

Porque estar só é como um atestado de fracasso.

Já podemos ouvir os cochichos.

Pobrezinha, ficou pra titia.

Ela, que estudou tanto, trabalhou tanto, e se tornou muito exigente para escolher um companheiro.

Ela, que deveria fechar os olhos para o que lhe desagrada somente para não terminar sem ninguém.

Porque é isso que acontece quando você não encontra alguém.

Sozinha.

Infeliz. Infértil. Incapaz.

Quando eu tinha 13 anos, eu escutava isso e me sentia ansiosa para dar meu primeiro beijo.

Me sentia menos que as outras meninas do colégio. Feia e indesejada.

Quando eu tinha 16 anos, eu escutava isso e me sentia sortuda por ter um namorado.

Mesmo que também me sentisse presa por privar-me de muitas escolhas por ele.

Ainda infeliz.

Quando eu tinha 20 anos, eu escutava isso e achava que havia algo errado comigo.

Só gostava de caras que não estavam nem aí pra mim. Eu gostava de repetir naquela época que nós, mulheres, gostamos dos difíceis.

Quando eu tinha 23 anos, uma amiga disse que a causa pela qual queria lutar era a igualdade de gênero.

Entre todas as malezas que sofremos no mundo, eu estranhei a sua atitude.

Como isso, igualdade de gênero?

Isso é mais importante que a miséria, a fome, a guerra?

Não sei.

Mas a dúvida foi o combustível que me fez começar a pesquisar.

A ler. A investigar. A conversar com pessoas que sabiam mais do que eu sobre tudo isso.

A trocar ideias com pessoas que lutavam por isso.

Que lutavam por mim.

Que já não queriam que eu pensasse que estar sozinha era um problema.

Que já não queriam que eu dependesse de alguém mais para ser feliz.

Que já não queriam que eu colocasse a opinião de outros acima da minha.

Que já não pensavam que meus gostos, sonhos e escolhas deveriam condizer com o que se espera de uma “boa moça”.

E fui deixando pedaços de todas essas crenças com as que me revesti enquanto crescia.

Comecei a me sentir mais feliz por ser como sou.

A ir aos lugares onde queria estar.

A compartilhar um pouco mais a minha opinião.

A sentir menos culpa, menos pressão, menos medo.

A não moldar minhas ações em benefício de outros.

A perceber que não estou sozinha. Nunca vou estar sozinha.

Porque sou muitas, e cada pedaço meu é uma multidão.

E cada pedaço meu me faz completa.

Talvez me sinta sozinha, mas somente quando me permito mutilar.

Se descarto partes minhas para encaixar no rígido molde que querem imponer.

Somente aí vou estar só, mesmo cercada de gente.

Decidi que não quero mais me machucar.

O Amor existe sim, em muitos formatos, e sou grata por poder amar de distintas formas.

Mas o Amor nasce dentro de mim, no reconhecimento de quem sou.

Feliz, serena, completa.

No fim das contas, aos 25, penso que ainda tenho um grande caminho a percorrer.

Muitas coisas para desaprender.

Mas já entendi algo fundamental.

Precisar, precisar mesmo, a gente precisa de muito menos do que pensamos.

Talvez o mais importante seja encontrar a liberdade que somente nós mesmas podemos dar-nos.

A liberdade para ser, sentir e pensar sem amarras.

A liberdade para decidir o que querer.

A liberdade para sorrir e abraçar minhas escolhas.

Não estamos sozinhas.