HOUSE OF CARDS 5x01 — Capítulo 53

Direção: Daniel Minahan.
Roteiro: Frank Pugliese.
Elenco: Kevin Spacey, Robin Wright, Michael Kelly, Paul Sparks, Derek Cecil, Nave Campbell, Joel Kinnaman, Dominique McElliot, Boris McGiver, Korey Jackson, Colm Feore, Damian Young, Andrew Polk, Jayne Atkinson, James Martinez, Jefferson White, Jennifer Leigh Mann, Alie Urquhart.
Duração: 55 minutos.
I’ve been meaning to talk with you. It’s terrifying, isn’t it? The president and I have a simple request. Tell us what you see. If anything in your environment strikes you as a bit odd, a bit off, pick up the phone. Whether it’s a package or a person that seems out of place, we’d love you to let us know. Because there’s a lot of noise out there these days. A noisy press that’s choosing to dwell on the past instead of what’s happening right now. My husband and I want to protect you. Claire Underhood
Em 2016, nos Estados Unidos da América, ocorreu a campanha presidencial norte-americana — disputada entre Donald Trump e Hillary Clinton, candidatos dos partidos republicano e democrata respectivamente, cujo resultado todos já saborearam (doce ou amargamente, dependendo do seu apoio ou de sua ojeriza). Em Chapter 53 continuamos acompanhando os momentos da disputa pelo poder presidencial entre o cínico e sedutor democrata Frank Underhood (e sua maravilhosa esposa, Claire)e o republicano e herói de guerra Will Conway.
As cenas que antecedem os créditos iniciais dessa season premiere são extremamente significativas. De um lado temos a Claire Underhood fitando-nos, conversando calmamente conosco, dando a impressão de que ela pode interagir com o expectador da mesma maneira que seu marido — um recurso que é denominado de breaking the 4th Wall (“quebra da quarta parede”), a marca principal da série — mas somos enganados, ela não fala diretamente conosco e sim para nós, dizendo para confiarmos nela e em seu marido, porque eles podem protegê-los do terror que sobre eles já está. Sua fala é suave, calma, onde cada palavra dita, cada mentira sinceramente enunciada, parece fazer nos crer realmente que sua intenção seja a nossa proteção. Do outro lado, Frank, com a sua presença não requisitada, alvoroça a sessão e exacerba os ânimos dos republicanos ao tomar a palavra no podium da House Chamber e performar seu discurso patriótico que enfatiza o assassinato de Jim Miller por um membro da ICO, versão da série para o ISIS. Sua intenção é tumultuar, atrasar a instauração de um comitê que julgará suas ações insidiosas da época que era vice-presidente (ações estas denunciadas por Tom Hammerschmidt) para poder ganhar a eleição presidencial. Sua última fala, dirigida a nós, já era conhecida antes mesmo de ser pronunciada aqui, pois compactuamos suas manipulações e ações imorais.

De certo modo esperava que esse primeiro episódio da quinta temporada iniciasse com o protagonismo narrativo da personagem vivida pela Robin Wright — no final da temporada passada, no último momento do décimo terceiro capítulo, ela olha para nós juntamente com Frank, revelando que ela sabe da nossa existência. Esse capítulo tem dois momentos que considero importantes para o crescimento da personagem, positiva e negativamente. Seu choro, que até agora não afirmo ser fingido nem sincero, no funeral do sr. Miller (cuja morte se deve indiretamente às suas mãos), é a demonstração pública de empatia, de sensibilidade, de aproximação com o eleitor, de importar-se com o povo norte-americano. Francis vê o significado político da demonstração de sensibilidade, mas estranhamente Claire considera o ato como sendo uma fragilidade para sua figura. Digo estranhamente pois ela é uma personagem inteligente (relembre de quem foi a ideia de usar o terror), perspicaz, poderia ter entendido que não era um ato de fraqueza. O outro momento está relacionado com o primeiro, porque Francis explica para um conceito importante — a necessidade que as pessoas, no caso os norte-americanos, precisam ter em relação a quem está no comando, a necessidade do Estado em trazer a proteção, um estado de dependência dos eleitores e não-eleitores de que o governo existe para trazer e promover a sensação de segurança. Mas Claire, em um arroubo emocional, afirma querer ter protegido Francis quando do atentado à vida dele ocorreu (promovendo a morte do segurança dele). Se puder reassista e observe a feição de Kevin Spacey no personagem. No final do episódio ela compreende a conversa no telhado quando conduz o presidente até o portão da Casa Branca para que ele pudesse falar com as pessoas.
Deve-se dizer que se pode notar o declínio de Frank em contraste com a ascensão de Claire. Sua esposa chora no funeral do homem assassinado ao vivo, enquanto ele se mostra impassível, suas palavras tendo pouco ou nenhum efeito sobre as pessoas. O Underhood que acompanhamos nesses 52 capítulos sofreu humilhação, um atentado, ficou preso à cama de um hospital. Ele deveria ser inquebrantável, sólido, firme, forte, um castelo que se mantém firme ante qualquer intempérie que lhe sobrevenha. Mas uma simples palavra dita aos seus ouvidos por um filha enlutada por seu pai e irada pela presença do homem que o assassinou (o responsável indireto) desestabiliza o (monstro) Frank Underhood. A era de Frank está chegando ao seu final? O seu castelo de cartas parece estar a ruir? Nos próximos capítulos saberemos.
GLOSSÁRIO:
- Breaking the fourth wall (literalmente “quebrando a quarta parede”): técnica utilizada no teatro e no cinema. Ela consiste na quebra da barreira imaginária, espécie de parede, de muro, existente entre o público expectador e a narrativa que está sendo contada. De maneira geral, essa técnica, quando bem executada, ajuda o expectador a imergir na história, fazendo com que ele se sinta parte da história.
- Chapter: é a maneira pela qual os episódios da série são chamados.
- Impassível: que não demonstra emoção. Indiferente à dor, insensível.
- Insidiosas: algo ou alguém traiçoeiro, sorrateiro, enganador, falso. Que é ardiloso, desleal, enganoso. (É uma palavra que diz muito pouco de Frank Underhood, não acha?)
- Inquebrantável: algo ou alguém que não se quebra, inabalável, resistente, inquebrável.
- Intempérie: mau tempo ou tempestade. Figurativamente indica dificuldades, momentos infelizes, contratempos.
- Ojeriza: nojo, aversão ou repugnância por qualquer coisa que provoque, incite, esta perturbação. Antipatia, raiva, até mesmo ódio de alguém ou de algo relacionado a essa pessoa.
- Ruir: cair com estrondo, desmoronar, desabar. Arruinar-se completamente.
- Season Premiere: é o primeiro episódio de nova temporada de uma série de TV renovada. Para o primeiro episódio de alguma série usa-se a denominação de piloto. Quando essa série estreante é renovada para mais um ano (temporada), todos os primeiros episódios de cada novo são chamados de season premiere.
Discurso Inicial de Claire Underhood (Tradução):
Estava querendo falar com vocês. É aterrorizante, não é? O presidente e eu temos um pedido simples. Diga-nos o que veem. Se algo ao seu redor parecer esquisito, peguem o telefone. Quer seja um pacote ou uma pessoa em atitude suspeita, adoraríamos que vocês nos avisassem. Porque existe muito falatório nos últimos dias. Uma imprensa barulhenta que prefere viver no passado e não se atém ao presente. Meu marido e eu queremos protegê-los. Claire Underhood
