Crie suas próprias oportunidades | Pode faltar emprego, trabalho não

Currículo é mesmo o mais importante?

Poderia colocar a receita para elaborar um bom currículo e cartas de recomendação, mas há várias receitas assim na internet. Na minha experiência o currículo (no sentido do documento formal no qual você expõe suas experiências e formação) é um suporte, todavia não é o ponto de apoio na busca por emprego e muito menos o que fará você ser contratado, por incrível que pareça. Atualmente, com as mudanças sofridas no mundo do trabalho, novas estratégias e abordagens devem ser adotadas na busca por emprego. Entretanto, é possível tornar seu currículo mais atrativo ao adicionar um quantificador em lugar de apenas descrever quais eram suas atividades na posição em que atuou, ou seja, evidenciar os resultados do seu trabalho. É interessante salientar quais mudanças foram geradas a partir do seu trabalho e atuação. Exemplos na área de marketing são mais fáceis de entender: quantificar tanto quanto possível (por exemplo, campanha de marketing criada que melhorou as vendas em 20%). No entanto, se você não pode quantificar os resultados em números, procure explicá-los qualitativamente: processo “X, Y, Z” melhorado que resultou numa experiência aprimorada para o cliente (Yale, 2016).

O desenvolvimento de uma busca criativa por oportunidades profissionais pode ser divertido e, nessa jornada, o foco desse texto está naquilo que realmente faça diferença no desenho da sua jornada profissional e busca por emprego. Há muitas ferramentas na internet, que ensinam a elaborar bons currículos, inclusive o LinkedIn é uma rede social que auxilia nesse processo. Todavia, os currículos e cartas de recomendação funcionam sim como cartões de visita e materiais de suporte na busca por emprego, e não como os documentos que farão você ser contratado. E por quê?

Por que enviar currículos não se converte em entrevistas de emprego?

As pessoas se movimentam diariamente nas organizações, algumas mudam de internamente de uma equipe para outra dependendo do tamanho da empresa, mudam de organização para organização, enfim uma série de circunstâncias. Pensando como o gestor de uma equipe, o que você faz quando isso acontece? Se for na área de finanças por exemplo, o gestor se pergunta: quem eu conheço que trabalha com finanças? Se ele não souber de ninguém irá perguntar aos colegas de trabalho se estes conhecem alguém. E ao final se ninguém indicar um nome, só então será aberto um anúncio para a vaga ou edital de contratação. Por essa razão cerca de 70% das melhores vagas de emprego nunca são anunciadas (Career Shifters, 2015). E em decorrência disso o uso de sites buscadores na internet pode não ser muito efetivo como, por exemplo, o Catho Online e o Agrobase.

Todavia essas informações que hoje compartilho nem sempre foram tão claras para mim, especialmente ao concluir a universidade. Faço uso da expressão “oportunidades profissionais”, pois tenho a intenção de discorrer e esclarecer que oportunidades profissionais estão para além de um emprego, uma vez que é possível trabalhar como free-lance, realizar projetos independentes, criar o próprio negócio, realizar parcerias, atuar como voluntário numa organização, dentre outras. Como saber qual a melhor opção de trabalho se você não sabe quais são os seus anseios? Como usar seus valores, interesses e habilidades a seu favor? A chance de frustração num trabalho pode aumentar se ele estiver em desacordo com valores que para você são caros.

Há pessoas para as quais a transição universidade-mercado de trabalho se dá de uma forma mais tranquila, muitas vezes a pessoa já possui uma posição dentro de alguma organização. Como diz Sofia Esteves que é uma especialista em carreira, podemos sair muito bem formados da universidade, mas muito mal informados acerca das nossas opções de carreira. Nós saímos formados, mas ainda não sabemos como agir profissionalmente na carreira que escolhemos. Entretanto, mesmo sem emprego é possível utilizar o tempo a mais que lhe é ofertado como oportunidade para trabalhar em ideias e seus próprios projetos. Por isso ainda que você considere difícil abrir um negocio próprio, é possível iniciar algum projeto que entregue valor e estabelecer parcerias para a realização do mesmo. Muitas vezes em lugar de tentar convencer as pessoas de que você será um bom funcionário, e do quanto vale a pena contratá-lo, pode ser interessante aplicar parte dessa energia em realizar trabalho, em produzir algo de valor para o mundo.

Em lugar de pedir uma oportunidade para mostrar o seu trabalho, faça o seu trabalho. Comece de algum lugar, por alguma ideia e desenvolva um caminho, crie o seu próprio mapa. Você pode ter certeza que isso aumentará sua autoconfiança e o resultado de um bom trabalho, fará com que tenha mais do que apenas um bom currículo para mostrar. Isso abrirá espaço para que as pessoas queiram trabalhar com você, com gente que faz e não apenas espera por pessoas que lhe digam o que fazer. Permita-se criar suas próprias oportunidades.

Você não precisa de permissão par realizar um bom trabalho, se dedicar a um projeto e conseguir parceiros que lhe auxiliem e façam boas trocas durante o processo. Busque envolver-se nos projetos de outras pessoas, encontre e cave suas oportunidades. Participar de projetos ainda que voluntariamente é uma excelente chance de mostrar sua capacidade em entregar um bom trabalho, o que fará com que seu nome fique cada vez mais conhecido. E com esse movimento é que as pessoas lhe indicarão para outras oportunidades. Mude a chavinha do modo “estou pedindo uma oportunidade” (passivo) para o modo “tenho um trabalho para mostrar” (ativo). O voluntariado é especialmente importante na área ambiental. Pode ser uma experiência interessante realizar trabalho voluntário, por uma ou duas semanas, na área sobre a qual deseja aprender mais. Mesmo que as pessoas torçam o nariz, essa é uma forma de mostrar seu trabalho, e saber o cotidiano de tarefas que determinada atividade requer. O ambiente do voluntariado lhe permite treinar suas habilidades, e desenvolver a competências necessárias para sua área de atuação profissional de maneira a direcionar e potencializar sua carreira. Além do que muitas organizações olham com bons olhos profissionais que exercem alguma atividade voluntária, por entender que as motivações dessa pessoa estão para além do aspecto financeiro como forma de retorno.

Em 2015 consegui uma oportunidade para trabalhar numa Unidade de Conservação (UC) no Estado de São Paulo, e foi bastante útil ter enviado uma planilha com um plano de trabalho para o período no qual iria prestar serviço. E consegui elaborar essa planilha por ter tido uma experiência anterior de voluntariado no Parque Estadual da Ilha Anchieta, em Ubatuba no ano de 2013. Essa oportunidade permitiu ter uma ideia a respeito dos problemas que esse tipo de organização enfrenta, e criou uma bagagem que deu suporte para mostrar meu conhecimento acerca da rotina das UCs no contexto do estado de São Paulo.

A grande arte está em criar as condições para isso aconteça, criar a plataforma, a estrutura que dará suporte às suas ideias. E isso faz toda a diferença. Em seu livro “Você é indispensável?” Seth Godin coloca que se você é notável e acumula experiências que o fazem um elemento chave, um currículo pode omitir isso. E vai além: “um currículo dá ao empregador tudo o que ele precisa para recusá-lo”. E se em lugar de um currículo você mostrar (Godin, 2011):

Três cartas de recomendação de pessoas que o empregador conheça ou respeite?

Um projeto sofisticado que um empregador possa ver ou tocar?

Uma reputação que o precede?

Godin (2011) reafirma o que já expus no meu trabalho: grandes empregos, empregos que muitas pessoas desejam não são conseguidos por pessoas que mandam currículos por email. O mercado procura por pessoas que tem trabalhos e não apenas currículos. E afirma que “projetos são os novos currículos”, uma vez que a melhor forma de mostrar para alguém que você vale a pena ser contratado é justamente “mostrando” o seu trabalho e não apenas falando, os projetos validam seu trabalho.

Atualmente há muitas organizações recebendo currículos muito bons e parecidos. Há muitas pessoas com pós-graduação se candidatando a vagas no comercio e profissões que não são compatíveis com sua formação. Como se destacar nesse cenário? Como superar um sistema de Recursos Humanos padronizado?

A resposta é: você não consegue. Godin cita o caso de Jason Zimdars designer gráfico norte-americano que trocou emails ao longo de um ano com a empresa 37 signals. Sua abordagem? Não enviou um currículo chato, ao contrário conversou sobre o que fazia e sobre as necessidades da empresa. E esse é o caso não de um empreendedor, mas de funcionário. A sua carreira é o seu empreendimento. Você pode ter medo de arriscar-se em abrir um negocio, mas tenha certeza que o seu caminho profissional, carreira ou como quiser chamar é um empreendimento importante em sua vida, que requer uma série de competências importantes para ser bem sucedido. Deixo vocês com uma frase desse autor brilhante como provocação:

Você não é seu currículo, você é seu trabalho.- Seth Godin

Referências

CAREER SHIFTERS. Why The Best Jobs Are Never Advertised And How To Find Them. Disponível em: http://www.careershifters.org/expert-advice/why-the-best-jobs-are-never-advertised-and-how-to-find-them>. Acesso em: 15 dez. 2015.

GODIN, Seth. Você é indispensável? A importância de quem inova, lidera e faz acontecer. Rio de Janeiro: Agir. 2011. 306 p.

YALE UNIVERSITY. Office of Career Strategy. Resumes. Disponível em:< http://ocs.yale.edu/content/resumes#I>. Acesso em: 15 jan. 2016.

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