“bon voyage”

Vínhamos da Paris efervescente naquele início de 71 onde tínhamos acabado de conhecer refugiados da ditadura, alguns jornalistas, estudiosos do Brasil, e não por nossa idade, mas por sermos as caçulas viajando com a dupla Netão e Wilma, intelectuais respeitados por lá.

Nossas noites eram nos restaurantes e cafés durante mais de um mês ouvindo sobre dialética, guerrilha, revolução, generais.

Amsterdam vestiu como uma luva em mim. Na praça de Dam muitos como nós, vagando sem destino, numa busca que definiu a minha geração. E a música !e o rock !e a roupa !e o que estava por nascer: um mundo que melhoraria apenas por estarmos ali. Juntos.

Tomamos nosso ultimo café da manhã na mesma bakkerij de sempre. Nos despedimos do nosso loiro amigo da mesma idade, que trabalhava nas horas vagas quando não estava no colégio. Pedimos um lanche para viagem. Veio embrulhadinho. Beijamos e abraçamos para nunca mais.

No trem mais tarde havia no pacote do lanche um guardanapo, que ainda guardo, escrito delicadamente: “bon voyage”.

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