Copo de Cólera

Ouvi pela primeira vez “Era Só Começo Nosso Fim” num mesmo dia em que ganhei “Copo de Cólera”.

Caminhávamos pela garoa de Sampa na madrugada, depois.

Hoje ao juntar a música, o velho amor que ficou no ar sem deixar nenhum traço material, renasce em cada acorde, a cada trecho das páginas surradas e suadas do livro vermelho.

Viver um amor platônico na juventude, quando seu corpo pede que seus poros se abram definitivamente ao outro ao amor confiante, é um alento aos 60.

Soma-se o que deixou de ser ao que viria a ser, o que se soltou sem âncora ao ter sido.

Sem se consumar, no peito fica o amor maior, juvenil como os cabelos de cortina, as mãos francas, abraços jurados, milhares de símbolos, contravenções, pecados pequeninos.

Papéis com recados escondidos, cifrados.

Dorme aqui num lugar contínuo essa paixão que foi só nossa, embriagada de passado, sem nunca pertencer a qualquer presente, mas conseguindo penetrar neste quarto ungido de sombras na forma de futuro.