O maestro e o espião

As gelosias encostei para que a memória não me enganasse

mas nada adiantou porque quem aprisiona

ainda é um laço de sensação tão antigo

quanto o próprio sentimento de ser eu mesma.

Amo há tanto tempo que essa memória vem cifrada.

Havia o maestro e o espião.

Havia o homem que eu queria e o homem que eu amava.

Havia muita música e nudez, somente para o maestro.

O espião também regia, já que vinha do outro cômodo

a música que povoava aqueles momentos de sexo,

inaudíveis.

Os dias tinham frio e chuva e sol e noite e tarde.

Tinha eu dois homens, mas passei a vida sem perceber

que o espião também me amara.

Apenas me tocou com suas escolhas musicais para

a contemplação, para seu gozo em arco, seu regredido

sentimento morto ao nascer.

Gentileza e ternura, espera e suspense, abandono.

Toda a vida seguiu `a distancia do espião, que flutuou nesses anos todos

nas poucas lembranças dos amantes.

Lá ficou nos dias limpos, nas noites londrinas

nos vôos dos líquidos injetados nas veias,

na arrebentação das ondas, silenciando seu corpo maduro.

O espião tornou-se infértil.

Deixou sua história esculpida no fecho da gelosia

que hoje abro lentamente em busca do início

de um amor incomum.

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