Eu sem título



Descobri com o passar do tempo que eu nunca fui falta de amor.

Era excesso.
Sou excesso.

Quem nasceu com a sensibilidade exacerbada sabe quão difícil é engolir a vida. Porque tudo, absolutamente tudo devora a gente. Descobri que todo o cuspe que escarrava sobre os sentimentos das quaisquer pessoas que insistissem em lançá-los a mim, transformaram-se em lágrimas — ultimamente incontroláveis — de quem agora, pela primeira vez experimentou todos os sentimentos do mundo.

E aí, é tudo excesso: uma mistura de alegria, tristeza, orgulho e piedade, conforto e solidão que se encaixam tão perfeitamente que tornam a pequena caixola que nosso corpo é em um emaranhado de nós. Nós que cada vez parecem enrolar-se mais. Nós que doamos tempo suficiente para tentar desatá-los.
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Descobri com o passar do tempo que para esses nós existirem, o novelo de lã sempre esteve pronto e vulnerável, como se esperando um gato travesso rolar-se nele até estar com as patas presas, de barriga para cima. Mas descobri também que se fosse gato, não seria um belo siamês de uma senhora velha e gorda, pronta para me salvar no tapete da sala; seria o gato preto, de rua que precisaria sozinho tentar se soltar enquanto ouve os primeiros pingos de chuva da vida.
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Durante toda minha pouca experiência nesses dezoito anos de vida, talvez a única coisa que posso afirmar a mim mesma é que nunca fui falta de amor. Não posso jurar amor eterno, nem uma vida infinita, mas ambos sempre acontecerão para tudo na minha mente durante os anos futuros que ainda não sei.

Saber que nunca fui falta, como sempre achei que fosse, já é o suficiente amadurecimento para não se arrepender de desfazer-se do saturamento nos melhores momentos que consigo.

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Ser saturado de amor nunca depende de qualquer pessoa entrar em tua vida com um saco de açúcar, depende do teu próprio eu que permite ou não cada colherada nova que recebe. Por muito tempo acreditava que açúcar fazia mal e cada colherada a mais tornava o agradável em imbebível. Hoje posso dizer que uso cinco colheres de açúcar nas bebidas que peço, uma para cada mês que me permiti sentir demais.
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Às vezes só precisamos parar de achar que o meio termo é o cabível.