Há redenção para a cultura LGBTQIA+? Breves anotações sobre estrutura, direção e exegese cultural

Nota: este tópico pode ser abordado de diversas maneiras. Um livro muito importante que eu não cito no corpo deste pseudo-ensaio é o Engolidos pela cultura pop, do Steve Turner. Eu abordo indiretamente o tópico sobre a inexistência de pressupostos em artefatos culturais. Recomendo a leitura desse livro para uma visão mais acurada do tema. Uma outra coisa, um dos críticos deste texto expressou sua preocupação sobre a possibilidade de ele endossar as políticas de identidade. Sugeriu que meu texto poderia soar como se a produção cultural de uma pessoa LGBTQIA+fosse totalmente distinta da produção cultural de uma pessoa heterossexual. Meu texto não reivindica isso, mas é, antes de tudo, um convite para celebrar o que há de bom e denunciar o que não é.
Pergunta 26
O que mais a morte de Cristo redime?
A morte de Cristo é o começo da redenção e da renovação de toda parte da criação caída, conforme ele poderosamente dirige todas as coisas para sua própria glória.
Catecismo Nova Cidade
O pecado não pode ser redimido, mas a vida e o amor dos pecadores certamente podem ser.
Wesley Hill
Em 2017, quando foi lançado o filme Power Rangers, eu perguntei a um amigo seminarista que havia assistido, o que ele tinha achado. Ele me respondeu que o filme era muito bom, não tinha nada de mais, só a ranger amarela que era lésbica. Quando ele disse isso, eu logo imaginei que o filme era marcado por cenas de sexo incômodas. Mas quando eu assisti ao filme, fiquei até comovido com a confissão tímida dela, de que era lésbica, em um momento super fraternal. Penso que o destaque que esse amigo deu ao fato de haver uma personagem lésbica evidencia um pouco do tratamento que damos à cultura LGBTQIA+ [1]. Há sempre uma vigilância, como se a aparição de um personagem LGBTQIA+ fosse exponencialmente nos corromper, nos fazer mudar nossas convicções tradicionais. Enfim, eu pretendo explorar um pouco disso. Com o termo cultura LGBTQIA+ me refiro a todos os artefatos que são produzido por este grupo de pessoas, ou que vise sua promoção.
No ano passado, a conferência Revoice [2], que tem como objetivo oferecer suporte para o desenvolvimento de pessoas cristãs não heterossexuais sob a ortodoxia, teve uma oficina que gerou muita polêmica. O título era Redeeming queer culture: an adventure [Redimindo a cultura queer: uma aventura]. Antes mesmo da execução dessa oficina, choveram críticas à iniciativa. Um dos críticos argumentou que não podemos santificar o que a Escritura chamou como ímpio, que não podemos casar o cristianismo com o paganismo, ou ainda que não podemos louvar nossa condição depravada. Wesley Hill respondeu adequadamente a isso. Em poucas palavras, ele falou que a história de pessoas LGBTQIA + não pode ser resumida a sexo e luxúria desenfreada. Tendo sido expulsas de casa, essas pessoas criaram comunidades alternativas e se cuidaram mutuamente. Há muita solidariedade envolvida[3].
Se aqui no Brasil tivéssemos uma conferência semelhante, com uma oficina com a mesma proposta, penso que a reação não seria tão diferente, eu até prevejo algumas reações a este escrito. Mas prossigamos.
Estrutura e direção
Com muita frequência a igreja rejeita toda cultura LGBTQIA+ como se ela fosse intrinsecamente perversa, como se nada nela pudesse ser aproveitado. Quero aproveitar a circulação do livro Identidade e Sexualidade: reformando nossa visão de conceitos fundamentais, do pastor e filósofo Pedro Dulci, para promover algumas reflexões.
Dois conceitos muito importantes apresentados por Dulci são os de estrutura e direção. Conceitos retirados do livro A Criação Restaurada [4], do teólogo Albert Wolters. De acordo com ele:
Devemos argumentar que em todos os casos a tarefa do cristão é discernir estrutura e direção. Como já observamos, a estrutura denota a “essência” de algo criado, o tipo de criatura que é pela virtude da lei criacional de Deus. A direção, em contraste, refere-se a um desvio pecaminoso dessa ordenança estrutural e à conformidade a ela renovada em Cristo. Uma análise reformada de cada área da vida aplicará essa distinção bíblica de modo consistente e colocará uma ênfase igual na criação (estrutura) e na antítese espiritual (direção) que penetra toda a criação. [5]
O que estou querendo argumentar com a citação acima é o seguinte: devemos parar de questionar se a cultura LGBTQIA+ é boa ou má, mas passarmos a questionar o que há de estrutural nessa cultura e o que há de direcional. Dessa maneira, poderemos aceitar elementos virtuosos que fazem parte da nossa estrutura e ao mesmo tempo rejeitarmos elementos viciosos que são direcionais.
Um convite à exegese cultural
No ano passado, o Enem despertou uma polêmica ao ter uma questão sobre o dialeto de gays e travestis [6]. Com muita frequência gírias da comunidade LGBTQIA+ se popularizam entre pessoas que não fazem parte dela, seja por vídeos, redes sociais, ou outros ambientes de interação. A cultura LGBTQIA+ se tornou um fato incontornável da contemporaneidade. Ela está nas premiações, nos entretenimentos, nas universidades, em toda parte.
Há duas maneiras equivocadas de interagir com a cultura [7] em geral e isso pode ser aplicado à cultura LGBTQIA+. A primeira é por meio do escapismo, no qual se tenta ignorar a cultura geral, criando uma espécie de bolha, ou gueto. Eu adotei essa postura por um longo período quando eu morria de medo que as pessoas pensassem que eu era gay e tinha dúvidas sobre a minha sexualidade. A outra maneira é o conformismo, agir como se não houvesse nada de errado com essa cultura. Eu também já tive essa fase, quando eu já tinha certeza que era gay [8], vivi um momento #pride em celibato, em que meus relacionamentos com a comunidade LGBTQIA+ eram mais próximos do que os meus relacionamentos com pessoas da igreja e eu consumia e incorporava elementos da cultura LGBTQIA+ levianamente.
No entanto, ambas as posturas estão equivocadas. A ordem das Escrituras é para que examinemos tudo e retenhamos o bem (Tessalonicenses 5.21). Em outras palavras, como escreveu o designer Kaiky Fernandez, na esteira de John Stott, precisamos estudar a cultura e ouvir o que ela tem a nos dizer, isso é exegese cultural. Mas ao mesmo tempo, precisamos ouvir de maneira reverente as Escrituras. Precisamos atentar para a cultura e seus questionamentos, a fim de respondê-los adequadamente.
A igreja tem, com frequência, visto a cultura LGBTQIA+ como abjeta. Por isso, não me assusta o péssimo relacionamento entre pessoas cristãs e a comunidade LGBTQIA+. Enquanto eu me mantinha distante dessa cultura, ou quando eu a aceitava irrestritamente, eu sentia que algo não estava certo com essa relação. Foi quando eu passei a ver essa cultura sob o paradigma de estrutura e direção, por meio da exegese cultural e o crivo da cosmovisão cristã, que eu me senti em paz para consumir essa cultura e me relacionar melhor com essa comunidade. Eu conheço suas inquietações, não apenas porque algumas são e foram também minhas, mas porque estou próximo o suficiente para saber disso.
Para não dizer que eu conclui o texto sem responder à questão do título, a resposta é um alto e claro SIM. Atente mais para artefatos culturais da comunidade LGBTQIA+; se olhar de maneira sensível você verá que há beleza, que há virtude, que existe também graça comum sendo derramada sobre essa comunidade. Só pra citar alguns temas recorrentes, atente para a hospitalidade, a amizade, para a disposição em amar e acolher e ser uma família escolhida.
Dois exemplos para encerrar
No início dos anos 2000, uma série que fez bastante sucesso foi Queer as folk, que tem sido considerada um clássico que tentou mostrar o cotidiano de pessoas homossexuais, a luta contra homofobia, pelo casamento igualitário entre tantos outros temas. Aparecem temas recorrentes como medo e aceitação. O personagem Michael faz de tudo para esconder no trabalho que é gay e sofre muita ansiedade por isso, no entanto, é na comunidade LGBTQIA+ que ele não precisa ter esse medo, pois está ciente do amor que essas pessoas têm por ele e que não precisa se ocultar.
Ainda mais um exemplo dessa série ocorre com o jovem Justin, que tem problemas com os pais e acaba tendo que deixar sua família. Isso ocorre concomitantemente ao período que ele conhece a comunidade LGBTQIA+. A saída de casa não é como se ele estivesse deixando de receber amor e carinho, mas uma abertura para que ele recebesse mais amor, carinho e uma família mais sólida que o apoia integralmente. O tema da hospitalidade na comunidade LGBTQIA+ já foi mencionado por Rosaria Butterfield e provar da hospitalidade cristã foi algo muito importante para sua conversão [8].
Para mencionar mais um exemplo, dessa vez para uma denúncia/crítica cultural, há o filme Alex Strangelove. Conta a história de um rapaz que acha que tem certeza da sua heterossexualidade e vê suas certezas abaladas depois de algumas experiências. O filme gira em torno do conflito dele encontrar sua verdadeira identidade sexual, o que é algo importante. Mas realmente é a coisa mais importante na vida de uma pessoa?
Eu já realmente vivenciei esse conflito diversas vezes, mas ainda assim essa não é a questão mais importante da vida. O filme soa cute, mas ao mesmo tempo tão ingênuo, algo como “descubra sua verdadeira identidade sexual e você realmente será feliz”.
A categoria identidade sexual tem sido questionada pela própria cultura queer, a ideia de encontrar uma identidade sexual fixa e verdadeira soa cada vez mais fictícia para a nossa sociedade que celebra a fluidez. O tomista Michael Hannon escreveu sobre os riscos de basear nossa identidade na sexualidade, seja ela homossexual e principalmente heterossexual. Ele argumenta que o conceito de orientação sexual é impreciso, instável, confuso e que pode não fazer sentido daqui a alguns anos e que precisamos nos ancorar mais na antropologia cristã do que na tendência cultural [10]. Tendo isso em mente, não seria tolo fazer com que nossa vida orbite em torno da nossa identidade sexual? Embora esse fato não possa ser negligenciado, há coisas mais importantes para se preocupar.
Para realmente encerrar, eu propositalmente não quis fazer uma lista sobre peças culturais que podem ser exploradas, pelo menos não no momento. Eu quero apenas chamar atenção para essa cultura. Para isso, ofereci dois temas recorrentes: um virtuoso, outro vicioso. Eu fiz essas escolhas porque não quero ser demasiadamente otimista, ao mesmo tempo não quero incorporar o pessimismo com que a igreja tem tratado essa cultura. Eu espero honestamente que este seja um começo, para que mais pessoas participem dessa aventura que é explorar a cultura LGBTQIA+, discernindo e filtrando tudo que ela pode oferecer.
Referências
1.Para entender mais como as siglas têm sido usadas, o vídeo abaixo se mostra muito eficaz:
https://www.youtube.com/watch?v=bKl2LQUuD5s Acesso em 05 de agosto de 2019
2. https://revoice.us/ Acesso em 05 de agosto de 2019
3.https://spiritualfriendship.org/2019/02/19/about-revoices-queer-treasure/ Acesso em 05 de agosto de 2019
4. Além de recomendar fortemente o livro do Dulci, recomendo que você faça todo esforço possível para a leitura do livro do Wolters, ele tem insights preciosíssimos.
5. DULCI, Pedro. Identidade e Sexualidade: reformando nossa visão de conceitos fundamentais. p. 22
7.https://medium.com/coletivotangente/uma-introdu%C3%A7%C3%A3o-%C3%A0-exegese-cultural-be3ec19af41 Acesso em 05 de agosto de 2019
8. Sobre minha relação com fé e atração homossexual eu escrevi mais aqui:
e aqui :
9. https://www.youtube.com/watch?v=TcUuqWTPhEg Acesso em 13 de agosto. Rosaria narra sua história no fascinante livro Pensamentos secretos de uma convertida improvável.
10. https://www.firstthings.com/article/2014/03/against-heterosexuality Acesso em 13 de agosto de 2019. Este texto conta com uma tradução incompleta, mas que contém as ideias principais do texto aqui:
https://medium.com/@dellereric276/contra-a-heterossexualidade-tradu%C3%A7%C3%A3o-5ae492377acf
