Quando a medicina que nós conhecemos irá evoluir?
Breno Frias
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Ótimo texto! Bem escrito e gostoso de ler.

Pra mim o ponto principal você toca no segundo parágrafo, sobre a compartimentalização. Ela é o mal do século XX (que ainda não superamos).

Infelizmente eu não tenho a mesma fé que você na inteligência artificial. A compartimentalização ataca também o desenvolvimento de máquinas pensantes (bem como de todas as esferas da vida humana — mas eu acho que precisaria de mais que um comentário num post pra elaborar melhor). Um bom resumo dos motivos está aqui (recomendo a leitura integral).

“for [Douglas Hofstadter, author of Gödel, Escher, Bach], it is an uncontroversial conviction that the most-exciting projects in modern artificial intelligence, the stuff the public maybe sees as stepping stones on the way to science fiction — like Watson, IBM’s Jeopardy-playing supercomputer, or Siri, Apple’s iPhone assistant — in fact have very little to do with intelligence”

O Nicolelis também tem um argumento interessante (e, na minha opinião, convincente) de por que não termos alcançado a inteligência artificial até hoje.

Especificamente sobre a singularidade eu tenho duas críticas:

  1. Ela está sendo usada como ferramenta ideológica por um grupo com interesses específicos para direcionar o desenvolvimento tecnológico (e de políticas públicas ao redor do mundo) para uma certa área. O problema é que esse lugar para onde eles estão rumando é altamente controversa e, na minha opinião, perigosa. O discurso (especialmente do Kurzweil) é envelopado por uma embalagem tecnocrática e uma inevitabilidade fatalística que escondem uma coisa muito importante: a singularidade (se ocorrer) é uma escolha. Não existe nenhuma força natural apontando para ela. Falar que ela é inevitável está criando (para o bem do Kurzweil e cia.) uma profecia auto-cumprida. Por trás da discussão “robôs virão e tomarão nossos empregos” está ofuscada a discussão “quem está desenvolvendo esses robôs? com que dinheiro? a pedido de quem? para beneficiar quem?”
  2. Mais importante: esse argumento é senão falacioso, muito fraco do ponto de vista científico. Vide Morozov e Ilkka Tuomi, por exemplo.

Eu acho que a gente deveria dar mais atenção ao problema da compartimentalização (na sociedade, não na medicina, já que a própria medicina é também um compartimento) e menos ao problema de como computadores podem resolver isso. Não acho que eles não possam resolver (apesar de achar pouco provável). Acho, sim, que isso é uma discussão que vai além da tecnologia, e focar nela abre espaço para tecnocratas (como o Howard) meterem o bedelho e produzirem por um tempo a ilusão de evolução enquanto trabalham com uma agenda que, na minha opinião, não tem nada de humanista, e visa a beneficiar uma parcela ínfima da sociedade. A saber, tecnocratas do vale do silício.

Eu desejo um mundo em que nós desenvolvemos tecnologia por que queremos, não por que podemos.

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