A colaboração e a banda de jazz.

Tecnologias pós Ford e um mindset global pendendo ao altruísmo, tornaram os sistemas, as relações e principalmente as pessoas em forças colaborativas exponenciais. Todo mundo querendo colaborar com tudo e com todos.

Dentro das empresas não é diferente. O princípio da colaboração nunca foi tão difundido. A descentralização das decisões nunca foi tão celebrada. O CEO que estava em cima foi para o meio e o trainee que estava embaixo agora está ao lado. Todo mundo junto colaborando com todo mundo junto colaborando.

Podemos olhar para esse movimento como um experimento humano que aquece a alma de qualquer líder perante seus pares e subordinados, porém ao mesmo tempo, é um processo operacional que dá calafrios na espinha de qualquer um que tenha que trabalhar a espera da mágica da colaboração. Quando olhamos para o modelo organizacional de muita startup de sucesso e sua receita, tendemos a crer que o modelo colaborativo veio pra ficar e vencer. E veio. Mas a um preço ainda desconhecido.

Trabalhar em uma empresa que pertence a economia criativa com princípios colaborativos desorganizados é muito parecido com um simples ser humano médio ouvindo uma banda de jazz experimental pela primeira vez: ele nunca terá muita certeza se todos estão tocando a mesma música ou se cada um está tocando uma diferente ao mesmo tempo. Todos dentro de uma organização com processos colaborativos desorganizados não sabem muito bem se estão tocando a mesma música ou não.

O poder concebido à colaboração faz com que ideias brotem aleatoriamente por todos os departamentos da empresa como notas do virtuoso músico da banda de jazz. Porém, de forma desorganizada, o colaborador acredita seriamente que está tocando Take Five como o resto da banda mas na verdade está solando Cantaloupe Island sozinho.

Um dos clichês clássicos da colaboração é aquela tecnologia que alguém descobriu em primeira mão chamada vamosusarantesquealguémuse. O problema dessa nova tecnologia que alguém trouxe para colaborar com o projeto serve para um propósito que, muitas vezes, não é o mesmo do objetivo final planejado. Ou seja: cada músico tocando sua música preferida. Ela é tão incrível e inovadora que já foi até colocada no Basecamp pra todos verem e amá-la. E amam. O problema é que essa nova tecnologia só serve para quem a descobriu fazer um selfie com a modernidade.

O trabalho colaborativo ainda vai mudar muito as organizações e seus processos. Mas uma coisa ele não vai mudar: o foco no objetivo final. Foco exige sacrifício. E o maior deles é ter clareza para pegar aquele arrobo de colaboração tecnológica travestida de ideia e descartá-la com um simples delete. É conseguir liderar o processo colaborativo como uma banda de jazz, conduzindo todos no mesmo ritmo e na mesma melodia para que no final o público possa ouvir uma única música só.