Divagações, sementes, brotos, borboletas. O FLUXO.

23h30min.

Hora do meu momentinho solitário, minha meditaçãozinha. Sento num pequeno cantinho da minha casa, que por hábito, já se tornou um espaço consagrado à minha solidão e silêncio.

Nenhum barulho além dos tambores que ressoam no pequeno aparelhinho de som. Todos estão recolhidos em seus quartos. A leve penumbra ainda é suficiente para que eu veja Vênus que sorrateiramente pula aqui e ali, captura uma lagarta ou uma barata e ronrona feliz.

Então o silêncio. Preparado para fechar os olhos e mergulhar no grande e profundo vácuo consciente, algo me chama atenção. Hoje não. Nada de meditação, a hora é chegada de se entregar à sabedoria da natureza e aprender a ouvir o todo.

Vejam bem, tenho nesse cantinho, algumas plantinhas: cactos, samambaias, uma planta que eu não sei o nome — muito menos minha mãe — mas que é muito linda mesmo assim, chamo-a de “Planta Misteriosa”, embora eu saiba que é uma planta comum, já a vi em várias casas. Gosto do mistério, enfim…

Divaguei. E mesmo na penumbra, são essas plantas que me chamam a atenção, de algum modo, estou com a visão mais apurada, consigo enxergá-las com detalhes. Algo começa a acontecer na minha tela mental. Vejo uma semente, tudo começa com uma semente.

No ponto zero da criação, a semente é plantada no útero da terra, onde é acolhida e regada com amor. Vira broto, vira árvore, dá flor, dá frutos e faz sombra. Esse é o trabalho da semente, o sentido da semente, a vida da semente.

Minha tela mental capta cada passo do desenvolvimento de uma frondosa árvore, que cresce em espiral até chegar ao céu. E as plantas, que me mostram tudo isso, de uma forma muito mágica e muito simples, sussurram — Sim, eu as ouço sussurrarem e quase não acredito nas doces vozes farfalhantes, que a brisa do vento me traz — o seguinte:

“Você é como nós! Por acaso se esqueceu? Esqueceu que um dia você já foi semente depositada no útero da mãe? Quando é que se esqueceu? Quando é que o sentido de sua vida se perdeu? Quando se esqueceu da sua natureza, que tem frutos muito específicos para dar, e que isso não pode ser mudado, assim como o cajueiro não pode fornecer tangerinas, assim como a mangueira não pode fornecer jatobá. Quando foi que se esqueceu de quem é? Quando foi que se esqueceu da natureza de sua semente? Quando foi que se rendeu? Quando foi que começou a rejeitar seu tronco tão belo, tão lindo? Quando foi que você deixou de produzir suas flores para admirar e copiar outras flores? Quando foi que você morreu? Quando foi sementinha, quando foi?”

Uma forte onda toma conta do meu corpo, outro momento de epifania, seguido da sensação de que tudo aquilo era óbvio. A gente sempre tem essa sensação nessas horas e depois vai percebendo que sim, era óbvio. Talvez, porque você tinha ouvido alguém dizer algo assim.

Mas na verdade quando um véu que cobre a consciência cai; quando você experimenta todo aquele misto de sentimentos que são tão típicos de uma verdade empírica; Este sim é um momento glorioso, diferente de ouvir é sentir.

Cada célula do seu corpo recebe a informação, processa e transforma sua realidade. Nunca consegui voltar ao estado que estava depois de uma forte epifania. Vou ficando cada vez mais louco talvez ao passo que cada vez menos estou aprisionado.

E divaguei outra vez.

Sim, quando foi que esqueci? Quando foi que nos esquecemos de nossa natureza, de que somos parte de um grande sistema chamado universo, do qual tentamos insistentemente escapar, moldar e domar, apesar de toda tentativa drástica de dominar e moldar a natureza trazer drásticas consequências? Não aprendemos, recusamos a aprender porque esquecemos que somos sementes.

Na floresta, na mata, cada árvore cumpre sua função. E embora todas coexistam juntas em um bioma, um ecossistema, cada uma cumpre sua jornada, passa pelas suas experiências e seu crescimento sozinha.

Já pensou em como a natureza é poderosa e nos ensina — nós, seres que devíamos ser conscientes — de forma muito simbólica?

O que o broto experimenta ao crescer? O que o broto sente ao perceber-se num mundo onde existem árvores com mais de 30 metros de altura, enquanto que tão frágil, tão novinho, o brotinho não chega a 30 centímetros?

O broto não tem expectativa nenhuma a não ser crescer, prosperar, seguir o fluxo da natureza e cumprir seu papel. Pois o broto já sabe, tudo que há de acontecer, inevitavelmente acontecerá. O broto só teme uma coisa, ser agredido desrespeitosamente pelo homem. O broto não importaria de servir como lenha, caso essa seja uma de suas funções, ou de virar uma casa. O broto só não quer ser desrespeitado.

O broto não deseja produzir frutos que não são seus, porque o broto não é estimulado a fazer isso.

O broto não precisa também de ninguém ali do seu lado, segurando seus galhos, cuidando de tudo, ele cresce sozinho, gloriosamente sozinho, ama sua solidão, ama sua completude, ama sua autossuficiência. A natureza lhe fornece tudo que precisa, pois o broto apenas se entregou ao fluxo universal desde o início da vida. E apesar da chuva, dos raios, do vento, das pegadas, apesar de tudo o broto cresce; se torna árvore, floresce, colore e perfuma. Até que se torna árvore, e enfim é um agente da criação.

Sinto vontade de ser broto, sinto vontade de ter crescido com o broto entregue à natureza.

As plantas me dizem: Você não é um broto, mas imagine-se como um e terá respostas.

Imagino então, que sou uma árvore, eu gostaria de ser um ipê. Colorido, ia querer ser ipê roxo, soltando flores no vento, colorindo todo o espaço que pudesse colorir.

Imagino toda a minha vida, como se eu fosse um ipê, o que vejo me entristece um pouco: Quantas vezes, eu ipê, não quis ser jacarandá? E pior ainda, quantas vezes eu ipê ouvir dizer que minhas flores fazem sujeira, que só dão trabalho, que não sou capaz de dar frutos, frutos são mais importantes que flores, que eu devia aprender a ser outra coisa, um abacateiro talvez, ou até um pé de mandioca, mas qualquer coisa que não fosse ipê?

Quantas vezes tive vergonha dos meus galhos tortos? Quantas vezes eu arranquei minhas flores? Quantas vezes quis ser cortado pra ser lenha consumida pelo fogo? Pelo simples fato de não poder mais suportar as expectativas que me eram colocadas desde que fui semente.

UM SUSTO. Na minha família não existem outros ipês, tem todo tipo de coisa, tem pimenteira, tem jabuticabeira, tem cajueiro, tem pé de alecrim… Mas nenhum ipê.

Conheço poucos ipês. Mas conheço muita gente que aprecia ipês.

Assim como conheço poucas pessoas chamadas de loucas. E conheço muita gente que aprecia os loucos.

Choro, as lágrimas escorrem pelo meu rosto, caem no peito, algumas caem na terra, algumas nas folhas da samambaia. No fundo me sinto um pouco mais leve, sinto que só quero ser e representar a semente que eu originalmente fui.

O broto, aquele broto do qual nem a natureza espera nada, o broto que não precisa atender expectativa alguma, só se entregar e se expressar e ser. Ser o que é! Ser o que sabe ser, pois é um conhecimento gravado no mais profundo canto da existência imortal e eterna do espírito.

Entendo então que o segredo é me entregar ao fluxo da vida, me entregar até mesmo à natureza selvagem que reside no meu DNA, criar coragem pra tirar as tentativas de enxerto que me foram colocadas, que não servem a outro propósito, senão para criar frutos, ou flores mutantes, que não são meus, que eu nem gosto. Criar coragem para apenas ser.

Percebo então, a teia da natureza. Volto então a observar a minha vida, como sou e não como o ipê. Aprendi muito sendo em poucos minutos uma árvore.

Percebo que como árvore, posso criar raízes e posso cumprir meu papel dando flores do jeitinho que estou.

Percebo que posso escolher não ser árvore.

Percebo que sou uma folha em branco, sou o vácuo, sou o vazio, e posso ser tudo, ou posso ser nada. Porque a única coisa que eu devo ser, é o que já sou. A única coisa a se fazer é expressar minha essência, abrir as flores e exalar meu perfume. Posso escolher ser toda a natureza, cada arquétipo no momento que eu precisar.

Porque sou parte do todo.

Percebo então aprendendo com as plantas, observando a solidão de cada uma no meio de uma floresta de outras plantas. Que a realidade pessoal é um espaço sagrado. E que a realidade de cada um, nunca deve ser invadida pelas expectativas e perspectivas da realidade do outro. Afinal uma mangueira não pode saber como vive a samambaia. E a samambaia não pode esperar da mangueira mais do que mangas e sombras.

A natureza é simbólica. E o segredo do universo está realmente na consciência. Consciência que escolhe e cria a partir das escolhas, a partir do que na sua realidade e verdade vivencia.

Sou tomado por algo poderoso. A certeza de que posso ser tudo que existe na natureza e posso ser tudo que existe no universo.

Vejo então que inconscientemente já não consigo ser ipê, mas estou no galho de um. Dentro de um casulo, lutando com todas as minhas forças para romper a película que me guarda e revelar minhas asas. Decido ser borboleta, transmutador, símbolo da metamorfose. Dotado das asas da liberdade.

E entre sementes, flores e frutos, decido carregar o pólen, carregar o amor, de galho em galho de flor em flor.

Porque a borboleta também não atende expectativas, a borboleta se permitiu ser lagarta, ser casulo e ter apenas fé no fluxo. Fé que um dia iria voar.

Sorrio, sinto o gosto das lágrimas que começam, a secar.

Gargalho.

A música parou de tocar.

00h25min

O tempo passou lentamente, e tudo ficou gravado na minha tela mental. Um filme que posso assistir e repetir, sempre que eu quiser.

Olho para o céu, respiro a brisa, e me entrego. Sinto as asas na minha consciência. Sinto os músculos do corpo, vejo as plantinhas professoras balançando no vento, dizendo: Segue o fluxo. Voa! Vai.

Tá tudo certo, tá tudo bem!

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