Intervenção humana nos processos de Acessibilidade na Web

Não dá para delegar somente para as máquinas a garantia de um sistema acessível. A intervenção humana ainda será fundamental enquanto nos preocuparmos com o usuário.

Nuvem de palavras relacionadas a acessibilidade na Web. Autor Jil Wright.

Antes de começar, gostaria de fazer uma pergunta: Você acha que um dia teremos robôs que farão quaisquer cirurgias sem a necessidade de acompanhamento médico?

Pense na sua primeira resposta. Agora leia o texto.

Quando falamos de uma cirurgia, qualquer que seja, ela envolve diversos procedimentos: consulta prévia para verificar a necessidade da cirurgia, acompanhamento médico, checar eventuais alergias, dentre muitos outros. Durante a cirurgia existem diversas variáveis que precisam ser consideradas, que na maioria das vezes as máquinas podem considerar, mas que talvez dependam da intervenção humana para decidir se deve executar o procedimento. Resumindo: uma máquina não pode fazer uma cirurgia sem acompanhamento de um médico.

O mesmo acontece com a acessibilidade em conteúdo na Web: Não existe e nem existirá um botão ou componente que torne qualquer aplicação acessível sem intervenção humana.

O que existe hoje são ferramentas para ajudar a verificar de forma mais simples as barreiras mais comuns de acessibilidade, como uma estrutura adequada, contraste entre cores e até mesmo texto alternativo em imagens. Cada dia que passa novos recursos são criados para deixar mais acessível o conteúdo na Web, em alguns casos de forma manual, como o que fez o Twitter, ou de forma automática, como vem fazendo o Facebook. O fato é que cada vez mais estão surgindo ferramentas para tornar mais fácil a publicação de conteúdo na Web acessível para pessoas com deficiência. E isso é ótimo!

Essas ferramentas ainda são limitadas, mas acho que no futuro elas evoluirão, podendo até verificar se vídeos tem legendas ou até intérprete de LIBRAS.

Mas a discussão da acessibilidade vai além. Existe uma gama enorme de deficiências e limitações que as pessoas têm com relação ao acesso a Web. Considerando apenas deficiência visual podemos citar a cegueira, baixa visão moderada e baixa visão severa [Fonte: Organização Mundial da Saúde]. Suas variações, especialmente a baixa visão, são diversas. Podem ir desde o daltonismo (que é a dificuldade em enxergar um espectro de cor) até o glaucoma (que diminui o campo de visão da pessoa).

Uma ferramenta de verificação automática pode facilmente identificar as principais barreiras para uma pessoa com deficiência visual, até verificar se o aumento das fontes pode quebrar o design de uma página. Mas isso não basta. Não estamos falando somente de deficiência visual. Estamos falando de pessoas com mobilidade reduzida, pessoas surdas e com baixa audição e de pessoas com deficiências neuronais e cognitivas. Isso sem falar de pessoas com múltiplas deficiências (pessoas com duas ou mais deficiências).

Sem a verificação humana podemos deixar passar questões importantes para a acessibilidade, como se os elementos interativos de uma aplicação podem ser acessados sem uso do mouse, ou se os textos são compreensíveis para o usuário quando lidos fora de contexto por exemplo.

O grande problema é que muitas vezes não olhamos o resultado de uma aplicação ou página de forma adequada. Não nos colocamos no papel do usuário com deficiência para entender se aquela quantidade de links vai ser fácil para a navegação ou se os botões pequenos em tons de cinza são bons para a leitura de alguém com baixa visão.


A responsabilidade e os riscos são de todos

O time que não se preocupa com acessibilidade está trazendo para a empresa e seus clientes sérios riscos. Considerar a acessibilidade na Web é pensar no usuário final, em quem vai consumir o produto ou serviço oferecido no site ou aplicação. Não levar isso em conta é limitar o acesso de parte do público alvo da empresa.

Além disso, quando a equipe não se preocupa com acessibilidade ela pode colocar a empresa em risco, já que acessibilidade em páginas Web é lei e isso implica em processos judiciais que podem dar mais dor de cabeça para a empresa do que tornar os sites e sistemas acessíveis.

A responsabilidade pela acessibilidade não é só do desenvolvedor. Ela passa por todos os responsáveis pelo projeto, para garantir que seja contemplada em cada etapa do projeto.

Acessibilidade é um processo contínuo. Cada vez mais teremos ferramentas para nos ajudar a tornar páginas Web acessíveis, mas a intervenção humana ainda é fundamental. Deixar a acessibilidade a cargo somente de máquinas pode impedir o acesso de pessoas com determinados tipos de deficiência.

Pensar na Web sem acessibilidade é desconsiderar o usuário, e a Web sem o usuário não existe. Precisamos desenvolver com foco no ser humano e respeitar as diferenças de cada um.

Da mesma forma que não vai existir um botão para “fazer site acessível” nos mais modernos frameworks, não acredito que teremos robôs que façam grandes cirurgias sozinhos sem a supervisão ou operação de um especialista. Quando a atividade envolve o ser humano, existem fatores muito mais complexos para a automação de um determinado requisito.

Não acredito que robôs substituirão 100% a presença humana na medicina. Da mesma forma que não acredito que a automação de todos os processos vai garantir a acessibilidade em uma página Web.

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