A igreja do Tottenham

fevereiro, 2016

reinert1882
Sep 3, 2018 · 7 min read

Texto original de Aaron Wolfe, traduzido e adaptado

Fazia -16ºC em Nova York na manhã de domingo, mas o Flannery’s Bar estava lotado de torcedores dos Spurs. Me espremi no meio da pequena multidão para encontrar um metro quadrado de espaço em que eu pudesse ver uma das televisões sem nada me atrapalhando na frente. Eu fui ao Billy Nic em Tottenham uns meses antes para assistir ao jogo contra o Arsenal e lá não tinha metade do número de pessoas que eu vi no Flannery’s. E, para ser sincero, eu estava um pouco incomodado.

Meu amigo Jonah e eu ficamos esmagados entre dois grupos de amigos. À direita estava uma turma de novos torcedores, acompanhados de suas namoradas — o que significa que ouvimos montes de explicações. “Aquele é o Alli, ele é novinho. Ele é, tipo, muito foda. Aquele é o Kane, ele é novinho também. Ele é, tipo, muito foda mesmo. Aquele é o Eriksen, ele é…” Já à esquerda estava um grupo de torcedores já calejados, vestindo as camisas da Champions League de 2011, e com eles estava um senhor mais velho que claramente não torcia pra ninguém, dada a forma que ele falava sobre o jogo. Quando Kane marcou aquela sapatada de pênalti, ele calmamente articulou: “Foi um bom pênalti. Essa estratégia é bem eficiente.” Se eu não tivesse engolido minhas amígdalas de tanto gritar na comemoração, eu gostaria de ter agarrado ele pelos ombros e chacoalhá-lo até tirar algum pingo de emoção dali.

Eu não falo enquanto assisto jogos. Não gosto de estar com um tagarela que quer discutir como nosso ataque está ou qual substituição o técnico deve fazer. Na hora do jogo, eu não gosto de analisar. Eu não gosto de passar pano para os jogadores. Eu não gosto de observações oportunistas. Eu não gosto de observações engenhosas.

O Tottenham é um sonho. É um estado de fuga induzido por padrões lentamente emergentes e pelo vai-e-volta do ataque e da defesa. Quando estamos perdendo, é uma meditação sobre a impermanência da vida. Quando estamos ganhando, é uma afirmação sobre a mesma. Quando o jogo está empatado depois dos 15 do segundo tempo, é uma experiência tântrica que faria qualquer diretor de filme pornô corar as bochechas de vergonha.

Falar interrompe a magia. Jean Paul Sartre (provavelmente torcedor do Arsenal) uma vez escreveu que nossa vida é uma série de momentos que oscilam entre a transcendência e o “ser em si”. Imagine — como ele escreveu — olhar através da fechadura de uma porta trancada. Do outro lado dessa porta há uma cena acontecendo. Quanto mais você vê aquilo, mais você se dissolve em inexistência enquanto seu ser (seu corpo mesmo) se torna inútil e todo o universo passa a existir apenas do outro lado daquela porta.

Isso é a transcendência. Isso é assistir o Tottenham jogar. Eu sou aniquilado. Eu sou o Tottenham e o Tottenham sou eu.

Então, imagine que você está olhando na fechadura de Sartre, esquecendo que você essencialmente existe, quando algum rapaz atrás de você limpa a garganta gritando “puta que pariu, por que ele tá colocando a porra do Tom Carroll?

De repente, o mundo do outro lado da porta evapora e você é sugado de volta ao seu corpo. De repente, você passa a ter plena noção de que você estava vidrado naquela fechadura, com a boca entreaberta, babando um pouco e com o cofrinho aparecendo. Nesse momento, você é um objeto. Você está “sendo em si”. Você é um pedaço de carne. Fedido. Cansado. Um pouco bêbado. Totalmente alerta. Carne.

É isso que eu sinto quando tenho que falar enquanto assisto o Tottenham jogar. Ou pelo menos era assim.


O Jonah não assiste futebol. Digo, não assiste quando eu não o convido para vir comigo. Ele não vê nenhum campeonato, não entende muito bem as regras, as estratégias, a estrutura dos torneios e nem sabe como a posição final do seu time tem relação com o signo do seu atacante reserve (brincadeira, atacantes reservas não existem). Mas ele ama esportes. E ele ama um bom jogo de qualquer coisa.

Pois bem, lá estava eu, no Flannery’s, explicando todo o contexto do que estava acontecendo em campo. Bem como todo o resto das pessoas que arrastaram alguns amigos junto com elas para ver o jogo. E foi aí que eu notei: tem algo acontecendo aqui.

Todo mundo à minha volta havia trazido namorados, amigos, primos e irmãos de todos os cantos da cidade. Eles acordaram cedo e atravessaram um frio de congelar a alma para ir até um bar de esquina em Manhattan para assistir o Tottenham.

Questionei em algum momento se tinha um bar do Leicester City em outra esquina recheado de torcedores casuais. Se os ‘New York Foxes’ tiveram um crescimento astronômico no seu número de membros. Se em algum lugar da cidade tinha uma versão de mim que acordou às 7h da manhã para ver o Mahrez ser substituído por um pedaço de granito ambulante. Mas aí, o Danny Rose tomou uma pancada na cara, se levantou de imediato, apavorou um dos brinquedos de 1 bilhão de libras do Sheikh Mansour e arrebentou o flanco esquerdo do gramado com uma arrancada diretamente para dentro do meu coração, se revelando como um dos meus jogadores favoritos em um time cheio de jogadores pelos quais eu sinto um nível desconfortável de amor.

O Jonah riu. Ele sentiu aquilo também. Era impossível não sentir. Eu me inclinei até ele e sussurrei: “Esse é o Tottenham resumido. Esse rapaz aí. Feroz. Incansável. Brilhante.” Mas como explicar para ele que nem sempre foi assim? Que algo realmente mudou? Que algo especial está acontecendo? Que nós somos o time mais importante do campeonato?

Não há nada para se aprender com a campanha do Leicester City. Eles são uma aberração. Um delírio da natureza. Se eles ganharem o título, não será uma revolução. Se eles ganharem o título, eles estarão tão propensos ao rebaixamento na próxima temporada no ano que vem quanto estavam no começo dessa. Não há nada para ser replicado a partir do Leicester City. É impossível reeditar um grupo de jogadores vivendo um auge inesperado de suas carreiras exatamente ao mesmo tempo.

Mas o Tottenham é uma revolução.

Você já sabe o refrão: time mais novo, mas sólido, mais ativo; melhor defesa, melhor banco, melhor rotação, melhor técnico. Todos os times na Premier League estão e deveriam estar nos assistindo. Eu não ficaria surpreso se, dentro de alguns anos, os times se parecessem com este Tottenham. No ano que vem, nenhum time vai se parecer com o Leicester, a não ser que outro treinador ganhe na mesma loteria genética que Ranieri ganhou.

Mas qual é o ponto aqui? Por que falar sobre filosofia francesa, sobre o clima e sobre se as pessoas deveriam ou não ligar para o Leicester?

Bem, porque nós ganhamos do Manchester City no Etihad. E porque nós vamos ser campeões. E porque todos nós sabemos disso mas estamos com medo de dizer.

Não! Um jogo de cada vez! Muita pressão! Vamos perder! Eles já nos decepcionaram antes! Spursy! O mundo vai acabar! O apocalipse vai acontecer no último dia da temporada e o Andros Townsend vai revelar que é um deus mitológico e nos punir com um gol em Newcastle porque achamos que podemos controlar nosso próprio destino!

Todos nós vamos morrer um dia, mas ninguém (exceto Sartre, que torcia pro Arsenal) disse que nós devemos nos esconder debaixo das cobertas até que isso aconteça. Coisas ruins vão acontecer na sua vida, com certeza. Então aproveite cada segundo do que está acontecendo agora. Grite do alto de uma montanha que a gente vai ganhar o título. Ande por aí sentindo os ares voláteis da sorte. Mergulhe na sensação gloriosa de que nós somos o melhor time do campeonato e que, se nós não ganharmos, vai ser basicamente a mesma coisa de quando o Rocky Balboa perde no primeiro filme.

Isso não é sobre vencer, é sobre lutar a luta. É exceder expectativas, percorrer distâncias. É o processo. (E também é sobre vencer. É totalmente sobre vencer. Que é o que vamos fazer.)

Quando eu e minha esposa estávamos planejando nosso casamento, cheguei à conclusão de que o casamento em si é um teatro. É para a família. É uma festa. É um momento arbitrário no qual dizemos “ei, todo mundo, olha só, nós conseguimos!” Mas o processo de planejar um casamento, a negociação de toda aquela burocracia familiar, a escolha dos doces da saída e a compreensão do que aquilo significa para cada um é que representam o verdadeiro casamento entre duas pessoas. É um processo. Vocês começam como duas pessoas e alguns meses depois são casados em uma só.

Ganhar a liga é a mesma coisa. Nós estamos no processo, neste exato momento. Estamos ganhando a liga. O último dia vai ser o teatro. Será um grande teatro, mas será só teatro.

Sabe isso que você está sentindo agora? Ou o que você sentiu quando o passe perfeito do Lamela atravessou as pernas do Otamendi e encontrou o Eriksen? Isso é o processo de vencer.

Sabe o momento em que o Eriksen delicadamente dominou a bola e você tinha absoluta certeza que o próximo toque dele colocaria a bola no fundo da rede? Esse é o melhor sentimento do mundo. O momento que antecede. O momento do potencial. O momento em que o grito está se armando na sua garganta. É o sentimento da aniquilação. O olhar pela fechadura.

A bola flutua por cima da perna de Hart e acalenta a rede. O grito emerge. O teatro da comemoração começa. Eu grito, pulo, abraço desconhecidos, abraço o Jonah, o Jonah sorri de orelha a orelha, eu canto. Eu canto. Eu canto.

Aquele sentimento é o sentimento de ganhar o campeonato. No último dia da temporada, quando já tivermos ganho a Premier League, esse sentimento estará no passado. Estará atrás de nós. Estaremos felizes, mas *este* sentimento terá acabado. Mas o agora está acontecendo. O agora é para ser comemorado.

Depois do apito final, Jonah e eu vestimos nossas jaquetas e nos enfiamos novamente no frio. Cansados, esfomeados e eufóricos.

Eu entendi”, disse o Jonah. “Eu realmente entendi porque importa tanto assistir os jogos com outras pessoas assim.

Eu sorri e disse: “É. Apareça num outro fim de semana. Cante, grite, dance, pule, esteja com os outros. É como a igreja, cara.

Ele consentiu. Comemos um pedaço de pizza e fomos para casa. Minha voz ainda está falhando. Minhas orelhas ainda estão zumbindo. É terça-feira. Esse sentimento nunca vai acabar. Eu tenho fé.

    reinert1882

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