¿Y a mí qué?

Uma reflexão sobre os depoimentos de Jair Ventura, a ruína do mercado nacional de treinadores e os estrangeiros com as rédeas nos clubes brasileiros

Pedro Reinert
Aug 23, 2017 · 7 min read

A palavra de Jair Ventura sobre a vinda de treinadores estrangeiros para o Brasil abriu um debate que há tempos estava jogado para escanteio. Trazer gringos para comandar os times de um país tão tradicional no futebol seria um movimento depreciativo para o produto nacional, um preciosismo desnecessário dos clubes mais endinheirados ou uma estratégia simplesmente correta diante da oferta ruim do mercado nacional?

Jair acabou pedindo desculpas posteriormente pelos dizeres acerca da chegada de Reinaldo Rueda, que não transmitiram muito bem aquilo que ele queria expressar, mas de qualquer forma — pela interpretação errada ou argumentação falha — criou-se a discussão (Foto: André Durão/SporTV)

“As pessoas tem que olhar primeiro para cá, pra depois olhar para fora”. (Jair Ventura)

Um clube como o Flamengo, que investiu pesado nos últimos dois anos para montar um dos melhores elencos do país e não vê frutos saindo de um grupo atletas de qualidade, decide colocar Zé Ricardo na rua e dá inicio à busca por um bom substituto.

A diretoria olhou (deve ter olhado, não?) para cá. Joel Santana, Celso Roth, Leão, Jorginho, Eduardo Baptista, Paulo Autuori, Ricardo Gomes, Carpegianni, Oswaldo de Oliveira, Zago, Falcão, Ney Franco, Dunga… Alguns até tem as costas largas para aguentar a pressão de um elenco milionário, mas já não mostram bom serviço há tempos, enquanto outros falharam em vencer ou ao menos convencer em outras equipes. Entre os nomes disponíveis, Roger Machado e Fernando Diniz talvez fossem os mais interessantes, mas nenhum possui credenciais consistentes o suficiente para segurar o rojão.

Cuca? Impossível cobrir os milhões da Crefisa, de certo. Luxemburgo? Não deve querer sair de Recife. Portaluppi? Nem pensar. Marcelo Oliveira? Levir? Ventura? Mano? Quanto deve custar para tirar um treinador de um time concorrente que nem faz um trabalho tão bom assim? Quanto tempo deve levar para formar um treinador que consiga fazer um trabalho tão bom assim?

Fábio Carille e Jair Ventura, pratas da casa que fazem trabalhos excepcionais com suas equipes, são pontos fora da curva. Receberam a confiança de seus superiores num momento em que ambos os clubes não sofriam pressão por terem feito grandes investimentos nem precisavam estar à altura de uma última campanha vitoriosa. Compensando a falta de currículo, os dois eram figuras muito presentes no dia-a-dia de seus respectivos clubes e conheceram intimamente a equipe que um dia poderiam (ou não) tomar as rédeas. Se relacionando bem com os jogadores e os bastidores, os interinos foram efetivados e se tornaram as grandes sensações da área técnica no campeonato.

O mesmo não aconteceu com Alberto Valentim, por exemplo, assistente técnico do Palmeiras, que, na teoria, tinha tudo para comandar o alviverde depois da saída de Cuca no fim de 2016, mas foi julgado incapaz pela diretoria de manter o alto nível da equipe que acabara de levantar o caneco do Brasileirão. E Valentim não deve ser o único exemplo deste caso.

Voltando ao Flamengo, caso encerrado. Olharam para fora e não demoraram a achar uma solução à altura de suas necessidades. O técnico campeão da última Libertadores chegou para salvar a temporada inconsistente do Flamengo — e, ok, é possível que o colombiano nem venha a salvá-la, mas a aposta em Rueda foi mil vezes mais certeira do que qualquer escolha entre os nomes supracitados e outros que ainda estão no limbo das promessas.

Só nestes oito meses de 2017, Palmeiras, São Paulo, Atlético-MG (duas vezes, considerando que Micale já está na corda bamba), Sport, Vitória, Ponte Preta, Vasco (duas vezes) e Atlético-PR e o próprio Flamengo já tentaram apostar na renovação do mercado nacional. Optaram por caras novas, profissionais promissores, ou pratas da casa, ajudando a valorizar a imagem do profissional brasileiro — mesmo que boa parte dos escolhidos tenham se especializado fora do país — , e dando espaço e confiança a talentos brutos e tentando criar novas identidades dentro de um contexto engessado há anos.

Com o projeto inicial indo de mau a pior, a maioria destes clubes mudou de ideia, imprimiu a rescisão e foi atrás dos (não tão) bons veteranos. Dorival, Luxemburgo, Cuca, Mancini, Kleina e afins voltam à ação para sua segunda, terceira, quarta passagem na mesma equipe (na qual já se espera o mesmo final da anterior). Não há grandes expectativas nem grandes promessas. A última geração de técnicos brasileiros é fundamentalmente material para tapar buraco.

Grêmio, Corinthians e Botafogo, no fim das contas, foram os únicos que fizeram decisões realmente felizes, mas é difícil imaginar Ventura, Carille e Renato Gaúcho fazendo o mesmo grande trabalho comandando outros clubes que eles não conhecem de cabo a rabo.

Nada de reciclagem: a última geração de treinadores brasileiros vive num tóxico ciclo vicioso (Infográfico: Sem Firulas)

No fim das contas, o rubro-negro teve uma demanda que o produto nacional simplesmente não foi capaz de suprir. Nenhum grande clube consegue se dar o luxo de arriscar seu alto investimento só para valorizar ou fortalecer o inconsistente mercado de técnicos do Brasil, e por isso a contratação de Rueda não é errada, antiética ou desvalorizadora.

Se os gringos farão bonito ou não em solo brasileiro, aí já é outra história. Muitas vezes a adaptação é difícil por si só, outras vezes o próprio elenco faz questão de complicá-la — e esses complôs não são exclusividade nacional, antes que venham falar de complexo de vira lata; basta lembrar do que fizeram com Luxemburgo em Madrid ou com Felipão no Chelsea — e em outras o profissional simplesmente não é tão bom assim, mas este último definitivamente não é o caso de Rueda nem de muitos outros que foram queimados em solo tupiniquim.

Também vale deixar claro que importar treinadores não é demérito para o campeonato ou para o esporte. A Premier League é certamente a melhor liga doméstica do mundo, disputada num dos países com mais tradição em toda a história do esporte, mas só quatro de seus vinte times são comandados por ingleses — os quatro terminaram a última campanha na metade de baixo da tabela — e a última vez que um treinador inglês venceu o campeonato inglês foi em 1992 (Howard Wilkinson, com o Leeds United). Alex Ferguson, pra quem não se lembra, é escocês. E é claro que o fenômeno pode justificar os constantes insucessos da seleção inglesa nas últimas décadas tentando colocar profissionais nativos nas rédeas, principalmente considerando que outras nações europeias que conquistaram algum sucesso a nível de seleção nos últimos anos têm em suas ligas um número majoritário de técnicos nascidos no próprio país.

Na liga espanhola, por exemplo, por mais que os próprios espanhóis dominem o mercado, os ‘sudacas’ ganharam espaço nos últimos anos e o melhor técnico do campeonato é um argelino naturalizado francês. E tem três espanhóis na liga francesa, além de um italiano, um argentino e um suíço. Na Alemanha é parecido, apesar de holandeses, húngaros e austríacos também darem as caras. Na Serie A, só Mihajlović (Torino) e Juric (Genoa) não são italianos.

Além disso, estrangeiros fizeram, fazem e seguirão fazendo parte da história do futebol brasileiro. Dori Kurschner, húngaro, deixou um legado no futebol carioca comandando Flamengo nos anos 30, com novas disciplinas e conceitos (como a marcação cerrada). O paraguaio Manuel Fleitas Solich, mais tarde, deu cara ao que é o futebol do Fla: intenso, raçudo, dominante. Nicolas Ladanyi, judeu húngaro, perseguido pela imprensa na década de 1930, implantou novas técnicas de psicologia e disciplinas — com ele, inclusive, o Bota segurou a bronca num período intenso de antissemitismo e foi bicampeão carioca. Até o famoso Bella Guttman, húngaro (que foi campeão pelo São Paulo), tem uma mão na história do esporte nacional, já que foi nada menos do que o mentor de Vicente Feola, técnico da primeiro título mundial da seleção brasileira. Isso pra não falar dos argentinos, chilenos e uruguaios que marcaram época e deixaram saudade em diversos clubes do país.

Desde sempre muito bem tratados por aqui, os gringos (Gazeta Notícias, 1938)

O que importa é que, tendo os recursos necessários, os clubes obviamente devem ir atrás da opção que tecnicamente melhor se nivela às suas ambições. Nesse contexto, um treinador brasileiro realmente capacitado e que consegue mostrar serviço não terá problemas em conquistar seu espaço, mas a desculpa de que o mercado interno logo será tomado por estrangeiros só quantifica a grande zona de conforto na qual estão boa parte dos profissionais daqui. Mas se por hora o Brasil não tem um técnico disponível/acessível à altura de Rueda (ou de qualquer outro bom estrangeiro), a culpa é do próprio Brasil, não do Flamengo (ou de qualquer outro time que foi ou ainda vai buscar treinadores além da fronteira).

Do outro lado da moeda, a CBF Academy (‘Academy’, caso você não tenha notado, é um termo… estrangeiro), em tese, é um bom começo para este processo necessário de reformulação do mercado nacional. Com o intuito de capacitar ainda mais os treinadores brasileiros, oficializar e padronizar as licenças e certificados da CBF e, em parceria com a FIFA, permitir que os profissionais nacionais tenham a oportunidade de figurar no cenário internacional, o projeto que ainda está em fase embrionária é o chute inicial para que Jair Ventura repita seus dizeres daqui a cinco ou dez anos e esteja coberto de razão.

Allá tú, Brasil.

Texto finalizado com a ajuda do querido Murillo Moret

)
Pedro Reinert

Written by

Ex-futuro jornalista.

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