Prólogo de Julián Fuks para “Jamais o fogo nunca”, de Diamela Eltit

Pode o subjugado falar? Pode o oprimido falar? Pode o desiludido falar? Pode o derrotado falar? Nas páginas deste livro não despontará nenhuma resposta precisa a essas questões fundamentais. Nas páginas deste livro, o subjugado, o oprimido, o desiludido, o derrotado, todos eles um só, uma só voz, falam. Nas páginas deste livro esse sujeito tantas vezes silenciado não pode senão falar. Falar, e tanto quanto possível, expressar o desconforto contínuo do corpo, a mesquinhez dos dias sucessivos, falar tornou-se um imperativo. Eis o último ato de liberdade num mundo que o quer calado, anestesiado, suprimido: encontrar palavras que o impeçam finalmente de inexistir.

Estamos num ano incerto, um ano de desalento como outros tantos que temos visto. Neste ano uma recordação é recorrente: a morte impune do general Franco, a morte indecorosa do ditador fascista intocado por qualquer justiça. Nada a celebrar nessa morte, ou na lembrança insistente da morte: essa talvez seja a expressão maior da derrota de tantas lutas emancipatórias, o absurdo triunfo da ditadura espanhola, ou de quase todas as ditaduras que se seguiram. Neste ano incerto, já distante desse acontecimento tão real que se faz símbolo, nenhuma esperança nos visita, nenhuma confiança de que será possível alcançar uma mínima dignidade, ou ao menos uma democracia efetiva.

Estamos de novo fechados num espaço restrito, o interior do quarto beckettiano talvez, o quarto em cujas paredes ecoa uma mesma voz incessantemente. Outro, porém, é o delírio, outra a loucura que aqui se ordena — estamos entregues às rememorações infindáveis de uma vida atravessada pela política. A experiência da militância torna-se o centro de todas as lembranças, os muitos erros cometidos durante a resistência, erros que se reencenam no presente, na fricção entre os corpos, na inviabilidade de qualquer contato real, de qualquer entendimento. Na linguagem tão íntima e tão própria desses corpos em conflito se manifesta o fracasso da ação direta, mas se manifesta um fracasso amplo também: a impossibilidade de se alcançar uma comunidade mais justa e mais humana, a evidência de uma sociedade condenada a perpetuar suas violências. Outro é o continente, outro é o tempo, outro é o trauma histórico: estamos no cerne da tragédia latino-americana.

A voz que fala para preencher o silêncio, a voz que outros quiseram silenciar, não poderia ser diferente, é a voz de uma mulher. A narradora inominável não pôde falar durante décadas — durante séculos, durante milênios, o tempo aqui se alonga sem limite discernível — ou ao menos não pôde ser ouvida, ninguém a quis ouvir. Não surpreende que seu tom esteja agora carregado, de uma só vez, paradoxalmente, de dor e de indolência. Carregada está também essa mulher, sobrecarregada por uma vastidão de tarefas. Cuida do homem que a oprimiu a vida inteira, cuida do filho que agoniza eternamente, cuida de uma infinidade de corpos decadentes. Só não pode cuidar de si e de seu próprio corpo, seu corpo em fragmentos, privado da integridade que alguma vez teve. Seu corpo foi tomado de assalto pelo conjunto da sociedade, suas células já não lhe pertencem, não lhe pertence o suor que sai de seus poros nessa labuta permanente. O próprio tempo não lhe pertence — tudo o que lhe resta é a voz, a possibilidade de indagar o passado com obstinação e de ocupar com palavras o presente.

Para que falar? Que sentido tem agora contabilizar as perdas ou reconstruir a derrota, sucessiva, inconfundível, a derrota?, pergunta o homem que divide a cama com ela, pergunta também este homem que aqui escreve, que adia as páginas dela com este prólogo prescindível. Não tem por que se explicar essa mulher, Diamela Eltit também não precisa se explicar, tendo escrito este romance de plena potência. Na voz dessa mulher, ou de Diamela Eltit, a literatura se converte num discurso visceral e íntimo, um discurso que parte do interior do corpo e em nada o excede, e que no entanto nos atinge a todos implacavelmente. Literatura de intervenção nos corpos e nos tempos, literatura a perturbar a ordem dos silêncios. Que fale enfim essa mulher.

Jamais o fogo nunca
Diamela Eltit
Tradução e prólogo de Julián Fuks
172 p.| 2017 | 14 x 21 cm
ISBN: 978–85–66786–59–0
À venda pelo site da Relicário Edições e nas melhores livrarias

>>> Jamais O Fogo Nunca é um romance foi eleito em 2016, pelo suplemento Babelia, do El País, um dos 25 melhores romances em espanhol dos últimos 25 anos.

>>> Sobre a autora
Diamela Eltit é dona de um projeto literário único — como proposta teórica, estética, social e política. A sua trajetória, iniciada na década de 1970, no Chile sob pesada ditadura, destacou-se pelo caráter experimental, combinando invenção de linguagem e novas reflexões sobre arte, literatura e política. No âmbito da contracultura e da resistência, foi pioneira e recebeu prêmios ao abordar o autoritarismo, a violência do Estado, a marginalidade urbana, a transgressão, a dor coletiva e questões de gênero sob uma perspectiva feminista.

Iniciou sua trajetória com arte performática e vídeo-arte integrando o CADA (Colectivo Acciones de Arte), entre 1979 e 1985, grupo que, como ela mesma diz, pretendeu “modificar os signos e códigos, abrir novas redes de significação e sofisticar as operações conceituais”. Participavam do CADA artistas e poetas como Raúl Zurita, Lotty Rosenfeld, Juan Castillo e Fernando Balcells. Na década de 1980, começou a publicar ficção e ensaios. Outras obras suas de destaque são Por la pátria(1986), El cuarto mundo (1988), El padre mío (1989), Vaca sagrada (1991), Los vigilantes (1994), Los trabajadores dela muerte (1998).

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A Relicário Edições é uma editora que publica livros de filosofia, arte, teoria e crítica literária, ensaios, dramaturgia e literatura. www.relicarioedicoes.com

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