O saci e o infortúnio

Um homem varria a calçada de sua casa para dar fim às folhas secas que, pela ação do tempo e do vento numa árvore de rua, espalhavam-se por toda parte e pediam para ser reunidas com uma vassoura e fechadas em sacos plásticos, morrendo, finalmente, como compostagem.

Passou por ali um saci, assoviando e sedento por diversão. Vendo naquela figura vulnerável uma oportunidade para traquinagens, o peste se arranjou num arbusto para observar. Após uns momentos, reparou que o morador já havia terminado de acumular um bom monte de folhas, passando então para o lado de dentro do muro de sua casa, afim de juntar, agora com um rastelo, as folhas que vazaram ao gramado do jardim. O negrinho, todo animado, assumiu sua forma invisível e saltou para o monte de folhas, criando um vento que desmanchou todo o trabalho do pobre homem. O morador, voltando à calçada para ensacar as folhas, ficou triste de ver todas espalhadas como antes, sem desconfiar do saci que, no arbusto, abafava um riso maldoso.

Pôs-se a reunir açodadamente as folhas, sem perceber que o capeta já agia em sua nova maldade. Atacou dessa vez o monte de folhas de dentro do muro, sujando todo o jardim recém varrido. Resolvido o primeiro problema, a vítima passou pelo portão, tão ingênuo!, para juntar aquele monte do jardim. Quando viu que tudo havia sido desfeito, estancou de frustração, custando alguns segundos para que decidisse juntar o que havia feito na calçada, sem arriscar perder outro trabalho.

Foi então que o saci, essa criatura atrevida que goza no sofrimento alheio, começou a atrapalhar sua vítima na ação mesma de varrer, agora com muito mais astúcia, sem fazer-se invisível — ainda que com máxima habilidade para ser discreto. Com as folhas desviando do caminho da vassoura, o miserável morador gemia de frustração e sussurrava para si — ou para Deus: “porque?… Porque?… Por que?…”.

Aquela casa de árvore na calçada ficava de frente a uma praça, onde um velho, sentado num dos bancos, já havia deixado o jornal como pretexto, pois a cena que se desenrolava (ou, mais adequadamente, se enrolava, mesmo) lhe chamara a inteira atenção. Desconfiou da presença do diabinho pelos rodamoinhos e pela fumaça que ele soltava de seu cachimbo de barro por trás da moita. Tudo se confirmou quando da cena do saci habilmente desviando as folhas enquanto se ocultava, pois mesmo usando da velocidade acima do comum que tinha para não ser percebido — o que fazia do morador que varria ainda mais ingênuo do que podia ser se lidasse com um ser invisível - o pretinho não pode deixar de criar vultos de seu corpo negro. Mesmo que poucos — era mesmo muito rápido e hábil -, os vultos foram suficientes para dar certeza àquele velho senhor do banco do largo. Este preferiu guardar a certeza para uma ajuda em momento mais propício, e continuou atento.

Vendo-se impossibilitado de domar as folhas de sua calçada, o morador bufou, virou-se e entrou pelo portão até a casa. Tudo para o prazer do saci, que entrou em seu arbusto para gargalhar fumando, maldoso como ninguém.

Vendo-se com tempo livre e precisando de pão, o homem decidiu sair para a padaria. Saindo, passou pelo portão e, pelo abrir e fechar do ferrolho, chamou novamente a atenção do negrinho. O peste se apressou para executar uma traquinagem derradeira: logo que começou a passear pela rua, aquele homem tropeçou numa pedra colocada pelo mesmo saci com o propósito de que caísse em uma enorme poça de lama da rua. E assim foi: caiu sobre o braço direito e deitou inteiro na água.

O velho do banco se levantou estabanado para acudir o pobre homem. Ajudou-o a surgir e ofereceu um lenço para que limpasse o rosto. Quando conveio, introduziu sua observação:
- Amigo, me desculpe a intromissão, mas andei observando o que acontecia enquanto você varria a calçada e… Não sei se vai acreditar em mim, mas tenho certeza de que isso e o que se passou são obras de um saci!

Aquele morador acreditou imediatamente. Não era naturalmente avesso à idéia da existência desse tipo de criatura, e tudo aquilo que ocorrera parecia seguir o ritmo de uma intenção. Como poderia ser o acaso? Mas, em contrapartida, a idéia do tormento pelas mãos de um ser maléfico, de ser joguete de um demônio, isso lhe causou uma sensação esquisita que congestionava o seu esôfago. Aquela possibilidade era demais. “Que não seja!”, pensou consigo, abrindo muito os olhos. O velho viu nesse susto um indício de crença e continuou:
- A solução para isso é água benta e peneira de cruzeta. Lá em casa eu…

O morador fez um gesto com as mãos para que parasse. Havia nascido nele uma conveniente sugestão cética, como pedindo permissão para tomar conta de seus sentimentos. Se tão facilmente podia descrer, para que temer? Assumiu e foi dizendo:
- Não me diga bobagens. Saci… Não brinque comigo!

Parou para pensar. Ficou com os olhos raivosos procurando as palavras que iriam compor uma idéia. No ouvido, as palavras sussurradas do saci: “São os infortúnios da vida…”. Retomou:
- São os infortúnios da vida! É assim mesmo: às vezes temos sorte, às vezes azar. Ora! Sejamos racionais! Sempre se foge para as explicações supersticiosas. Pra que tanto medo? Por que não encarar a realidade da situação? São os problemas da vida.
 
O velho ficou muito triste e deixou o lugar. O morador foi se lavar e se trocar. Ainda podia ir para padaria, e a isso se determinou. Nos primeiros passos, na rua, um vento respingou daquela lama em sua camisa. Desanimou. Não precisava tanto de pão, e por isso voltou por vontade própria para casa.

Afinal, são os infortúnios da vida.

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