Por brasileiros que viajem sem falar de arroz e feijão

“É só isso?”

Uma ambição move os brasileiros de norte a sul do país. Sejamos ricos ou pobres, desde criança sabemos que devemos cumprir o ritual do arroz e feijão. Não é fácil, mas precisamos suar e tentar. Os que conseguem honram o gentílico. Ainda não se situou? Vou explicar.

O ritual exige um grande gasto de dinheiro, planejamento e tempo livre — alguns de nós trabalham como loucos para conquistar o primeiro e o segundo item — para que possamos fazer uma viagem para fora do Brasil. Longe da terra natal, o brasileiro está pronto para “aproveitar”. É a hora de comprar tudo que vê pela frente (talvez a melhor parte da viagem) e visitar todos os pontos turísticos que o pessoal sempre fala.

É essencial, para o bom cumprimento do arroz e feijão, se colocar diante de cada monumento recomendado e ficar olhando, na tentativa de entender por que caralhos aquilo é importante. Isso servirá para que, na volta, se possa falar para os amigos: “ Stonehenge? Ah! Eu vi. São só umas pedras assim, uma em cima da outra. Aqui em Itaquequara do Brejo tem um negócio parecido”. Dessa maneira ficará bem claro que você tem as altas referências para uma boa comparação, condição para que cheguemos ao ponto decisivo do ritual, que é puramente gastronômico.

“Que frio. Vamos voltar pro arroz e feijão?”

O brasileiro no exterior sempre faz uma descoberta CHOCANTE: em outros países a comida é diferente da brasileira. Agora você pode levantar e pegar um copo d’água por que a coisa fica séria. Durante dias o tupiniquim deve passar por uma batalha redentora, privando-se de seus próprios costumes e se alimentando de algo que nunca provou na vida (quem viajaria para fazer isso???). É evidente que muitos pensam em desistir, mas nós conhecemos a propaganda do governo e — “basta ser sincero e desejar profundo” — a maioria persiste até o fim.

Vencer essa batalha nos leva ao momento final do ritual, sinal de orgulho e honra. Na volta para o Brasil, ao ser questionado sobre a viagem e mostrar seu senso de proporções superior com boas referências, o brasileiro finalmente poderá repetir aquelas palavras gloriosas: “Senti falta do arroz e feijão”. É a expressão máxima, não só do orgulho nacional, mas também dos péssimos costumes dos gringos e suas velharias gigantescas, da superioridade de nossas praias, do bom gosto das nossas cervejas com gosto de refri e de nossa cultura civilizada. Além disso, podemos finalmente compensar, para o mundo ver, nossa necessidade de importar costumes e práticas como coisas “chiques”. Para que isso fique bem claro, completamos de cara feia, orgulhosos: “uma decepção!”.

“Aí gente não faz isso que noujo”

O ritual do arroz e feijão é um simbolo da profundidade e humildade de nosso povo. Precisamos, ao menos uma vez na vida, largar a terra que talvez seja a única onde a civilização humana esteja resistindo a barbárie do resto do planeta. Nós nos baixamos e vamos ao encontro daquilo que se diz “fonte das nossas tendências”, tudo para conferir de perto que se dá o contrário: uns prédios velhos, um pessoal diferentão e (!!!!) comidas cruas. Que decepção! Dá saudades do que é realmente superior na terra. Dá falta de arroz e feijão.

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