Obstrução

substantivo masculino / 1.ação ou efeito de obstruir(-se);

via

Aquele vento seco já incomodava há alguns dias. Fora a angustiante imensidão do horizonte que parecia nunca ter fim. A viagem era longa, há 5 dias o senhor Farlane rumava em direcção a fronteira de encontro com seu irmão, que trazia ouro do México. Pretendia mudar de vida, não aguentava mais ser ferreiro, suas mãos já não tinham movimento algum, as dores nas costas aumentavam a cada dia e ainda tinha a árdua tarefa de cuidar das suas duas amadas filhas. Sua esposa os deixou em um confronto com um índio que invadiu a fazenda enquanto Farlane e as meninas fora pescar. Uma flecha foi encontrada no meio do coração da moça, foi um golpe fatal na vida de todos. O velho senhor não tinha forças, só pensava em deixar algo para suas meninas. E cá estamos nós, dentro dessa velha diligência emprestada de um amigo.

Há 5 horas a filha mais velha guiava os cavalos enquanto seu pai tentava descansar um pouco, sua hérnia estava aumentada, isso o preocupava um pouco. Só pensava em encontrar seu irmão, e todo aquele ouro que ninguém sabe de onde veio. E ninguém se preocupava com isso.

O pai conseguiu pegar no sono junto a irmã mais nova, que desde a morte da sua mãe não falava uma palavra se quer. Já exausta, o olhar cansado da irmã mais velha alcança um homem no horizonte daquele vasta pradaria, ele parece estar sozinho e seu cavalo está caído. A garota se aproxima do homem com a velha diligência, pensou em acordar seu pai, mas não quis atrapalhar o velho em seu raro sono. Encostou ao lado do cavalo caído e desceu para ver a situação de tudo aquilo.

- Ei, o que aconteceu? — disse a irmã mais velha com a voz trêmula.

O homem permaneceu sentado de costas para a mulher e não a respondeu. Ela insistiu:

- O senhor está bem?!

Em um rápido movimento o homem ficou de pé com um pistola apontada para a jovem irmã mais velha. Sua aparência era de dar nojo, sua cara era inchada de tanta espinha e seu olho amarelado condenava seus muitos anos de whiskey barato. Vestia um trapo velho e tinha um cicatriz enorme no pescoço.

- Ei, gostosinha, se você se mexer ou gritar eu atiro no meio do seu coração e mato todos dentro dessa merda de carroça!

A garota ficou imóvel. Suas pernas pareciam enraizadas no chão e só pensava em seu pai, sua irmã e sua falecida mãe. O homem completou:

- Você é bonitinha, prometo que vou devagarinho…

O homem se aproximou da garota que chorava por dentro de asco e medo. O velho asqueroso sacou seu pau pra fora, ele era gigante e vermelho e expelia uma baba nojenta por todo chão. Agarrou a menina pelo pescoço, sufocando-a até ela perder força e se agachar diante daquele monstro.

Em um golpe único no meio do estômago do infeliz a irmã mais velha enfia uma faca dourada que guardava em suas botas, presente da sua falecida mãe. O homem sente o golpe e antes mesmo do sangue quente escorrer pelo seu corpo ele atira no coração da jovem. Ela cai pra trás, sua visão turva e seu pensamento confuso fez ela confundir o azul do céu com o azul do mar que ela lembrou de quando viajou com sua família quando era criança.

O pai acorda assustado com o barulho, um calafrio estranho toma seus ossos. Ele ainda não sabe, mas em poucos segundos ele morrerá por dentro.

renan monteiro