Análise de ABC 2 X 0 Remo — Série C 2016
Já se sabia das dificuldades a serem enfrentadas ao jogar em Natal. Dificuldades essas também pelo fato do adversário saber jogar muito bem em seus domínios e executar sua proposta de jogo com clareza. Tanta clareza que era clara a necessidade de compactar as duas linhas e contar com uma boa recomposição dos lados para proteger os laterais e evitar o jogo da segunda bola tão utilizado pelo ABC.
Tendo os desfalques de Max e Wellington Saci, Waldemar Lemos não fez mudanças bruscas, optou pelo básico e escalou Ítalo e Jussandro, aproveitando-se do fato de que a postura seria mais reativa e posicional por se tratar de um jogo fora de casa. O restante da equipe foi a mesma, com Schmöller e Yuri como volantes, linha de três com Marcinho Eduardo Ramos e Fernandinho e Edno como centroavante.

De início ficou clara a postura do ABC: não teriam pressa para chegar ao gol adversário. A intenção era atrair o Remo com passes laterais entre a dupla de zagueiros e Anderson Pedra para aproveitar a projeção surpresa de Alex Ruan ou Filipi Souza. Tarefa facilitada pela debilidade física de Eduardo Ramos, que deixava apenas Edno dar o primeiro combate contra três jogadores circulando a bola tranquilamente.
Geralmente davam 5 passes entre esses três jogadores para aí sim haver o lançamento diagonal para um dos laterais em projeção no lado oposto ao da bola. Esse é um dos princípios de jogo de Geninho, que busca povoar o lado para onde a bola é alçada e ficar com a segunda bola procurando o jogo entrelinhas através de apoios e aproximações. Lúcio Flávio e Erivélton centralizam para a subida dos laterais, contam com a aproximação de Nando ou Jones Carioca e assim conquistam a superioridade numérica para só então executar o jogo apoiado.
Anderson Pedra era o executor dos lançamentos, estando sempre livre, pois apenas Edno combatia. Por isso se fazia necessária uma boa recomposição dos extremos, visando brecar essa aproximação e proteger os laterais. Marcinho e Fernandinho foram mal nesse quesito, haja vista que faziam marcação ativa na segunda bola, não impedindo as projeções iniciais dos alas adversários, e assim chegavam atrasados nos combates.
Com os laterais espetados e bem abertos dando amplitude e com dois atacantes segurando os zagueiros, a distância entre zagueiros e laterais do Remo era grande, permitindo infiltrações sem bola para triangulações por ambos os lados. Com a centralização dos meias, as entrelinhas eram completamente ocupadas por adversários em virtude da descompactação e das perseguições longas ao adversário.

A intenção de atrair o Remo era feita com passes entre os zagueiros, mas também pela movimentação de Guedes, que chamava Yuri para subir no terreno e deixar apenas Michel Schmöller mais fixo. Assim, conseguiam gerar jogo às costas dos volantes, com Lúcio Flávio, Erivélton e Jones Carioca recuando e jogando na entrelinha com 20 metros de terreno para criarem.
Essa movimentação não foi percebida por Waldemar. Era a fonte de iniciação dos ataques adversários. É fato que Eduardo Ramos, se estivesse em condições, fecharia a linha de passe de Anderson Pedra, contudo, o sincronismo entre recuo e infiltração estava sendo bem executado na tentativa de aumentar o espaço efetivo de jogo. Nossos volantes são bem posicionais e geram jogo, mas com os encaixes com perseguições longas, abrem espaço atrás e alongam a equipe, permitindo o povoamento do setor médio-defensivo.

Quando teve o rebote, a proposta do ABC era aproximar o lateral, um dos atacantes e um dos meias. Essa triangulação confundia a marcação, pois os desmarques tiravam as referências, principalmente da dupla de zaga no segundo tempo. Com a perda da referência, nossos jogadores não sabiam se acompanhavam o marcador ou se guardavam posição, e essa indecisão era abria a possibilidade da tabela e criava espaços nos flancos e na região central.

Um outro detalhe foi a demora no tempo de reação às jogadas. Os jogadores estavam muito estáticos, partindo sempre uns segundos atrasados, fazendo com que as coberturas defensivas fossem ineficazes. Ter como sub-princípio a zona pressionante requer boas tomadas de decisões e bom tempo de reação, e isso nós não tivemos no jogo, prejudicado ainda mais pela descompactação forçada pelo adversário com a estratégia de atrair para só então avançar.
Quando se marca zonalmente com perseguições curtas, é preciso haver recomposição e delimitar quadrantes de atuação. Se não há recomposição efetiva, os quadrantes são povoados pelo adversários com movimentações de desmarques de apoio e ruptura, gerando chances de finalização. Esse pequeno grande detalhe nos deixou à deriva na marcação e sem saída para os contra-ataques.

A estratégia para a partida foi a correta, mas não soubemos operacionalizá-la e tivemos algumas escolhas erradas. Eduardo Ramos não poderia ser escalado debilitado fisicamente, pois o modelo de jogo do ABC exigia que a marcação aos volantes fosse ativa e pressionante para evitar as transições diagonais para os laterais. Não marcá-las foi meio caminho andado para oferecer ao adversário a chance de ficar à vontade na partida.
O outro erro foi de execução das prerrogativas que as funções exigem. Recompor corretamente é fundamental para combater um jogo direto e que gera troca de passes apenas a partir do último terço do campo. Não soubemos fazer nossos princípios emergirem na partida e tivemos que sempre reagir ao que o adversário propôs, tendo que contar muitas vezes com erros de execução nas jogadas para poder sairmos e desafogarmos o jogo.
É importante ressaltar que não fomos dominados na partida, mas fomos muito bem controlados e, em um campeonato tão equilibrado, já é suficiente para não obtermos um resultado positivo. Jogar de maneira condicionada não está errado, mas é possível controlar sem ter o total domínio. Estávamos condicionados pela estratégia, mas fomos controlados pela má execução dos princípios que norteiam nosso jogo.