Análise de Botafogo-PB 3 x 2 Remo — Série C 2017

No jogo que marcou a estreia de Oliveira Canindé no comando técnico do Remo, as expectativas eram altas em torno do que o time apresentaria em campo no que tange às novidades a serem implementadas pouco a pouco. Mas mais do que o plano tático estabelecido para a partida, era importante perceber sensações positivas nos atletas, melhorar o estado anímico, fator primordial em começo de trabalho. E independente do resultado, o time terminou de maneira diferente, buscando, brigando, disputando cada bola até o último minuto. Essa é a imagem que fica.

Em sua primeira escalação, Oliveira Canindé utilizou o 4–2–3–1 como estrutura inicial, com Léo Rosa, Leandro Silva, Igor João e Gérson compondo a linha de zaga, João Paulo e Tsunami na dupla de volantes, Mikael, Eduardo Ramos e Edgar na linha de três atrás do centroavante Nino Guerreiro. Optou por não alterar os titulares que já vinham atuando, apostando em certo entrosamento já adquirido, principalmente pelo jogo ser fora de casa.

Posicionamentos iniciais de Botafogo-PB x Remo

Como esperado, os mandantes exerceram pressão alta desde o início, com forte marcação logo que o portador recebia a bola, tirando tempo e espaço para sair jogando. Tal ação foi efetiva pela boa compactação ofensiva, graças às subidas de todas as linhas para não deixar espaços nas intermediárias. Sem nenhum jogador habilitado a verticalizar através do passe, o Remo via-se obrigado a acionar Edgar, Eduardo Ramos ou Nino Guerreiro sem as melhores condições, fator que facilitava o roubo da bola.

Ao organizar-se ofensivamente, o Botafogo-PB preenchia muito bem os espaços no campo de ataque. Dico e Marcinho trocavam constantemente de posição para confundir os encaixes remistas, com Rafael Oliveira dando boa profundidade e contando ainda com a individualidade de Cleyton. Os laterais não se incorporavam tanto, por isso Mikael e Edgar quase não fechavam a segunda linha de quatro. Com a constante rotação dos avançados paraibanos, havia certa dúvida nos volantes acerca das perseguições, o que expunha buracos que geravam boas possibilidades ao rival.

Nos penúltimo e último terços de campo, Marcinho fazia a diagonal interna para aproveitar o espaço entre Igor João e Gérson, com Dico recuando e atraindo a atenção de dois jogadores, permitindo a infiltração do companheiro. Do lado oposto, Cleyton obteve vitórias nos duelos pessoais com Léo Rosa e quase sempre aparecia em boas condições para finalizar ou dar continuidade às jogadas. Rafael Oliveira segurava um zagueiro, já que o outro saía para correr atrás de um adversário, então sempre havia superioridade numérica por parte do Belo quando a bola era cruzada na área, excetuando as bolas paradas.

Organização defensiva remista não contemplava o fechamento lateral da segunda linha, confundindo os encaixes da zaga e dos volantes; assim, era fácil confundir o setor defensivo com boas trocas de posições aliadas à infiltrações por parte de Marcinho e Cleyton

Outro detalhe interessante era como o ataque mandante tirava a referência algumas vezes da zaga azulina. Dico e Rafael Oliveira alinhavam-se para gerar dúvidas em Leandro Silva e Igor João. Tal ação ocorreu principalmente após a expulsão de Tsunami, e tinha como objetivo obter ainda mais vantagem numérica e posicional sobre João Paulo e Mikael, que recompôs o lugar do companheiro até o fim do primeiro tempo.

Com um a menos, Nino Guerreiro foi deslocado para o lado, deixando Eduardo Ramos na referência para poupá-lo e usufruir de sua qualidade no passe e retenção de bola nas possíveis transições ofensivas. Como Nino nem Edgar são os melhores para cumprir funções defensivas, a estratégia do retrasar mais Rafael Oliveira aumentava a fluidez do jogo botafoguense e ainda expunha Gérson e Léo Rosa a constantes jogadas de mano a mano, claramente em desvantagens posicionais.

Com a expulsão, Rafael Oliveira e Dico alinhavam-se para atuar às costas de João Paulo e Miakel, além de abrir os corredores laterais para jogadas de mano, expondo Léo Rosa e Gérson

Nas poucas vezes em que os ataques remistas eram feitos com a organização ofensiva montada, a circulação era claramente prejudicada pela desvantagem numérica. Com a não incorporação de João Paulo, Léo Rosa e Gérson, a contundência e a densidade eram perdidas, pois as jogadas eram todas orientadas ao lado esquerdo, onde Edgar tinha que lidar com dois adversários para fazer a equipe sair de trás e ganhar terreno.

Pelo centro, Magno e Djavan tiravam conforto de Eduardo Ramos, que não conseguia acionar Nino com qualidade, aparecendo mais quando Edgar buscava o corredor central para associar-se com o meia. Como Mikael havia sido centralizado mais atrás, o lado direito ficou despovoado, já que Léo Rosa não subia para evitar desguarnecer a zaga. Com isso, o time ficou ainda mais orientado ao lado esquerdo na tentativa de criar algo com a bola rolando.

Organização ofensiva prejudicada pela expulsão, tirando a densidade ofensiva e orientando o jogo sempre para o lado esquerdo

No segundo tempo, já com 3 x 1 no placar e vendo o cenário podendo piorar, Oliveira Canindé pôs Flamel e Gabriel Lima em campo para avançar o bloco e marcar alto, já que os zagueiros do Botafogo-PB pouco se incorporavam na construção das jogadas e ainda tinham dificuldades com a bola nos pés. Então Flamel, Eduardo Ramos e Gabriel Lima fechavam os laterais e o volante Magno, deixando a saída ser executada pelos zagueiros que, sem a qualidade necessária, erravam e cediam a posse ao Remo.

Ilaílson era o responsável pelo maior equilíbrio defensivo, ocupando o campo em largura e recuperando as bolas estouradas por Plínio e André Santos. Tendo Eduardo Ramos e Flamel mais próximos, a circulação melhorou e Edgar passou a ser melhor acionado, com Gabriel Lima fazendo desmarques para gerar desequilíbrios na última linha. Quando a bola era cruzada na área e rebatida, todos os rebotes ficavam com os azulinos, outra vantagem de povoar mais a região central à frente da área, fator que assentava o Remo em campo ofensivo e quase propicia o empate ao final da partida.

Panorama do segundo tempo, onde o time deixava a dupla de zaga botafoguense errar e recuperava com Ilaílson; as segundas jogadas também eram aproveitadas graças à maior ocupação da região central

Apesar de todo o panorama negativo que o contexto gerou, Oliveira Canindé destacou-se com boas intervenções em especificidade à beira do campo, orientando e incentivando os jogadores em todas as jogadas. Isso estabelece confiança mútua e dá um ganho anímico grande quando se está em situação de desvantagem. Suas substituições foram acertadas e melhoraram o time, havendo trocas nos setores para fazer o Remo ganhar mais terreno, mesmo com todos os riscos.

A impressão que fica é a de uma equipe ainda em fase bem inicial de construção, mas que agora já tem quem a guie na busca pelos objetivos e, fundamentalmente, com os mecanismos necessários para tirar o algo a mais de cada um. Apesar do resultado ruim, a sensação geral é boa de acordo com o que foi visto ao final, e isso é o principal num momento de instalação de novas ideias e conhecimento entre técnico e elenco.

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