Análise de Moto Club 1 x 1 Remo — Série C 2017
Encarando a partida como uma legítima final e tentando manter o embalo positivo, o Remo não jogou para isso. Estabeleceu estratégia diferente e um plano tático um pouco mais complexo, o que acabou tirando a fluidez de circulação da bola e movimentação ofensiva. Antes de mais nada, é importante deixar claro que qualquer tática é válida, com seus prós e contras, portanto, devemos analisar o que a partida refletiu, e não pura e simplesmente a escolha feita na preparação.
Aproveitando o bom ânimo após a última vitória, Léo Goiano optou por manter a estrutura inicial, trocando algumas peças apenas por motivos de suspensão. O 4–4–2 teve apresentou a volta de Léo Rosa à lateral direita, França substituindo João Paulo e Tsunami, peça que mais evidenciou a estratégia da partida, no lugar de Jackinha. No mais, a equipe foi a mesma que vem atuando regularmente.

Desde o início tendo um pouco mais de posse de bola, a maior iniciativa foi do Remo. Logo ficou clara a saída com os três zagueiros, fazendo com que Léo Rosa avançasse e levasse Raí consigo, dando maior campo para Leandro Silva iniciar as ações ofensivas, por vezes quase chegando à linha divisória. França e Dudu alinhavam-se no meio, tirando o escalonamento e pouco sendo acionados para verticalizar o jogo, ocasionando um primeiro passe sem a qualidade necessária e fazendo com que o Remo não se assentasse em campo rival.
Flamel e Eduardo Ramos procuravam a entrelinha às costas dos volantes, enquanto Luiz Eduardo e Pimentinha davam profundidade. Entretanto, a superioridade numérica na saída não se refletiu em vantagem dinâmica, pois a equipe não apresentou os mecanismos de circulação e mobilidade exigidos por um sistema com três jogadores iniciando o jogo. Faltou aproximação, desmarques e compactação ofensiva. Sem esses componentes executados, os azulinos ficaram “presos” à marcação e pouco geraram volume e perigo ao Moto Club.

Como alternativa à incapacidade criativa, Flamel por vezes recuava até o meso-espaço defensivo para agregar maior qualidade à saída. Aproveitava-se do espaço entre primeira e segunda linhas do Moto para atuar com tranquilidade. Porém, sem apoios curtos e com a equipe mal disposta em campo, pouco conseguiu gerar algo mais elaborado. Na única vez em toda a partida em que houve movimentação, troca de posição, rapidez no passe e com Flamel recuado, o Remo conseguiu chegar ao gol, apesar de invalidado.
Para tentar confrontar os recuos de Flamel, o Moto Club fechava a zona central com Felipe Dias, Diogo Oliveira e Raí, impedindo o acionamento mais limpo de Eduardo Ramos e Pimentinha. Como a ponta esquerda era um latifúndio improdutivo e despovoado, restava unicamente o corredor direito, mas sem a agilidade habitual, fazer a bola chegar até Pimentinha foi tarefa árdua, já que o Remo tinha que fazer a bola passar pelos volantes, sem a dinâmica requerida pela situação, atrasando o jogo e facilitando o balanço defensivo motense.

Pelo Remo estar com dificuldades, naturalmente os passes eram imprecisos e/ou precipitados, permitindo ao Moto interceptar ou roubar e partir em rápidas transições ofensivas, logo buscando Danilo Bala pela direita. Como Tsunami guardava posição, estava bem postado para brecar as investidas e ganhar os duelos pessoais, atrasando os ataques e facilitando a recomposição defensiva.
Contudo, ao perceber isso, Danilo Bala começou a atuar mais pelo centro, fugindo do contato imediato com o lateral remista. Isso tirou o equilíbrio defensivo, pois Danilo Bala e Alex Henrique capitalizavam as jogadas às costas de Dudu e França. Contando ainda com recuos de Vinícius Paquetá, os mandantes começaram a crescer em agilidade e confiança, pois a lentidão da dupla de volantes expunha os três zagueiros a jogarem de mano com o trio ofensivo. Léo Rosa demorava a recompor pois avançava ao dar campo para a saída de jogo.

No segundo tempo, logo Léo Goiano trocou Luiz Eduardo por Edgar, passando ao 4–2–3–1 na tentativa de dar maior amplitude e atuação pelo setor esquerdo ofensivo. Mas o problema persistiu, pois a questão residia na saída e transição, e não no ataque. Percebendo a ineficácia, trocou França por Danilinho, um meia com passe mais vertical e de melhor qualidade. Com isso, Eduardo Ramos foi mais adiantado para realizar desmarques e permitir infiltrações.
Como o problema não era no terço final, o meia pouco produziu, sendo substituído por Jayme, visando velocidade, individualidade e vitórias pessoais. Flamel e Danilinho tentavam armar, com Dudu atrás e os laterais presos para evitar contra-ataques. Pela falta de critérios ofensivos e jogadas mais articuladas, o único caminho seria apelar à inspiração e ousadia, retratadas no lindo gol de Jayme.

Mesmo fora de casa, esperava-se mais do Remo com a bola no pé. Apesar do pouco tempo de treinamento da estrutura com três saindo de trás, princípios como aproximação, circulação rápida, amplitude, profundidade, escalonamento e coberturas precisam estar expostos em campo. Alternativas também são viáveis, com o Remo demonstrando pouco repertório para mudar a situação.
Beneficiado pelo empate do Salgueiro, a ordem agora é vencer o Sampaio Corrêa em casa. Já está claro que algo bem executado e de controle aceitável pouco será visto, tanto pelo estágio da competição quanto pelo grau de nervosismo da partida que virá. Restará voltar ao “estado natural” de saída para dar um pouco de criatividade e mobilidade ofensiva. O time tem condições de apresentar algo melhor.
