Análise de Santos-AP 3 x 0 Remo — Copa Verde

Tendo uma vantagem mínima conquistada no jogo de ida, bastava ao Remo um empate para garantir seu lugar nas semifinais da Copa Verde. Porém, em uma noite desastrosa, sem a menor inspiração, com inúmeros erros técnicos e táticos, além de uma apatia assombrosa dos jogadores, a equipe paraense sucumbiu de maneira vergonhosa. Não soube encarar a partida com o espírito que a ocasião requeria e agora terá que amargar a eliminação, além de lidar com a fúria da torcida.

Contando com os desfalques de Jayme, Elizeu, Nano Krieger, Rodrigo e Flamel, a comissão técnica decidiu por um inédito 4–3–3 como plataforma inicial. Na trinca de meio-campo, Renan Silva, Marquinhos e Tsunami, com Edgar, Gabriel Lima e Eduardo Ramos compondo o trio de frente. O meia atuou centralizado como “referência”, voltando em determinados momentos para auxiliar a armação de jogadas.

Posicionamentos iniciais de Santos-AP x Remo

Sendo obrigado a reverter a desvantagem, o time mandante entrou com vontade, procurando acionar os extremos Rafinha e Fabinho na tentativa de acelerar o ritmo do jogo e desordenar a última linha defensiva remista. Para isso, contavam com a aproximação de Bruno e Balão Marabá na saída de bola sempre que Lessandro era o portador, facilitando os passes e obtendo espaço para escolher as opções através de desmarques de apoio e ruptura, ganhando terreno e duelos pessoais para chegar em campo ofensivo.

Com uma formação inadequada e sem tempo de treinamento, o Remo não soube brecar as investidas. A marcação no início da construção ofensiva do Santos-AP era nula, fator que possibilitava transpor a primeira linha facilmente e já chegar em superioridade contra os volantes. Outro ponto preponderante foi a falta de ritmo e pouca precisão nos confrontos individuais, sempre recorrendo à faltas e ocupando mal os espaços. Aliada à péssima recomposição, o sistema defensivo ficava vulnerável, não fechando os espaços, não havendo coberturas e perdendo as segundas bolas todas as vezes.

Má ocupação dos espaços, péssima recomposição e atletas sem ritmo permitiam ao adversário chegar facilmente na intermediária ofensiva e em superioridade numérica no corredor central; todos buscavam os espaços gerados pelas descompensações em busca de suprir a carência de entrosamento com a formação

Quando os azulinos tinham que realizar a saída limpa desde o primeiro terço de campo, a fragilidade ficava evidente. Não havia linhas de passe, Renan Silva não contribuía para tirar a bola do campo defensivo, ficando apenas Marquinhos e os dois zagueiros como responsáveis pela construção das jogadas. Tsunami foi outro que se escondeu e não abria campo para se tornar opção de passe, obrigando a equipe a lançamentos longos em diagonais para jogadores sem a característica de retenção, dando a posse praticamente de graça para os amapaenses.

Logicamente, também houve méritos do adversário em fechar os espaços. Uma linha de quatro jogadores era montada em bloco médio, com Luciano mais acima. Isso bloqueava Léo Rosa e Jaquinha de serem receptores e obrigava Marquinhos a recuar demais. Ninguém do trio ofensivo baixava para auxiliar e aproveitar os encaixes individuais para desequilibrar o sistema defensivo do Santos-AP. Sem passe, criatividade e com muita afobação, a construção não saía e, consequentemente, não havia a menor organização.

Com um bloqueio em bloco médio, os amapaenses limitaram a saída de bola remista, que não soube solucionar os problemas e livrava-se da bola rapidamente, não sendo capaz de se organizar em campo ofensivo

Após o intervalo, e já com o meia Fininho no lugar de Tsunami, a pressa e o nervosismo tomaram conta. A pouca estruturação existente logo ruiu, com os jogadores atacando a esmo, sem qualquer execução do plano estratégico. Os recuos de Eduardo Ramos não eram acompanhados por alguma infiltração dos extremos, o passe era impreciso, as decisões eram equivocadas e as chances desperdiçadas. O time foi estéril e ninguém sabia exatamente o que fazer para mudar a situação, nem mesmo Josué Teixeira.

A pouca profundidade, quando se está correndo atrás do resultado, é um erro vital para qualquer equipe. Como a bola não chegava em associações, havia desordem nas movimentações e os espaços à frente da zaga amapaense em nenhum momento foram ocupados. O distanciamento horizontal entre laterais e zagueiros era enorme, bem como para o primeiro volante, ponto que, com um mínimo de sabedoria para entender o que se passava, ficava fácil de ser explorado. Todas as chances foram cedidas através de erros gritantes do Santos-AP ou em bolas paradas.

Caos ofensivo não permitiu a correta leitura dos espaços a serem explorados e provocava uma movimentação errada na abordagem à bola e na formação de linhas de passe

Sem a menor inspiração, todos avançavam, naturalmente deixando enormes espaços às costas da dupla de zaga. Com a expulsão de Igor João, tudo ficou mais exposto e ofereceu ao Santos-AP as oportunidades necessárias para matar o confronto. Os extremos, juntamente com Denílson, era bem acionados e faziam o que quisessem, pois sempre havia companheiros dispostos a receber um passe ou atacar os espaços.

Com um jogador a menos, Renan Silva foi compor a dupla de zaga com Henrique, escancarando a descompactação remista e sucumbindo à pressão externa. Val Barreto e Felipe ainda entraram na tentativa desesperada de acharem algo (pois criar era impossível). A inércia já estava instalada, bem como o plano estratégico fora jogado no lixo. Um coletivo pobre que não potenciou nenhum dos atletas em campo.

Com o Remo descompacto, exposto e sem poder de reação, o Santos-AP aproveitou para matar o jogo e o confronto

O plano tático foi errado para a partida. Utilizar uma formação sem a devida quantidade de treinos, na casa do adversário e sendo um jogo decisivo, é pedir para ser desclassificado. Três volantes sem entrosamento e com atitudes passivas numa zona do campo em que tirar espaço e tempo do atleta é fundamental para proteger o sistema defensivo. Jogadores apáticos, instáveis e nervosos… Tudo foi executado equivocadamente.

Todos têm sua parcela de culpa. O time foi um desastre. Individualizar danos, com uma tragédia coletiva, é desconhecer o devido funcionamento do jogo. A equipe precisa ser cobrada como um todo, juntamente com a comissão técnica. Cometer erros infantis não é facilmente justificável. Errar faz parte, mas não encarar com o devido espírito é inaceitável. No jogo mais importante até aqui, faltou tudo. Dúvidas, desconfianças e questionamentos virão, e com razão. Caberá a todos retomarem o trilho e colocar o clube nos eixos novamente.

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