A organização ofensiva e a influência em Nino Guerreiro

Centroavante contratado após o estadual, Nino chegou com a missão de solucionar os problemas de referência ofensiva que tanto fizeram falta neste primeiro semestre. Entretanto, com apenas quatro jogos já disputados, a torcida anda pegando no seu pé. Por quê o atacante não tem rendido o que se esperava? Ele tem cumprido suas funções? A torcida tem 100% de razão quando o cobra sem enxergar falhas coletivas? A seguir, uma análise a partir da organização ofensiva do Remo e o quanto ela tem influenciado no rendimento de Nino Guerreiro.

Como tudo na atuação de uma equipe é integrado, desde a saída de bola já nota-se um problema que também atinge o centroavante remista. O time de Josué Teixeira não tem bem clara a alternância entre ataques diretos e futebol combinativo. O time opta por começar saindo com a bola nos pés, mas pouco abre o campo em largura para espaçar o time adversário, deixando a bola com os zagueiros sem qualidade para um passe vertical que quebre a primeira linha de marcação.

Em uma Série C onde muitos times marcam no 4–1–4–1, os encaixes são facilitados dessa maneira. Não há variedade de mecanismos que permitam fazer a transição ao campo de ataque de maneira limpa. Então, a opção é a bola longa para Nino tentar retê-la até a chegada dos companheiros. Mas como o time demora a percorrer a distância entre as intermediárias, rapidamente o centroavante se vê cercado por dois ou três marcadores, não conseguindo dar continuidade. Dessa maneira, o time não consegue dosar o ritmo para aproveitar seus meias e atacantes, e ainda perde profundidade ofensiva, quase não colocando em risco a última linha rival.

Sem mobilidade e variedade de mecanismos, o Remo facilita a marcação e manda bolas sem critério para que Nino faça a temporização; com o time distante, rapidamente o atacante é cercado e pouco consegue produzir

Quando consegue sair jogando com os pés, a descompactação ofensiva fica em evidência. Os volantes pouco contribuem na construção, ficando quase sempre como opções de retorno ao meia ou aos atacantes. Dessa maneira, o Remo acaba atacando com apenas 5 jogadores, ou seja, estando em inferioridade numérica. Com a distância entre setores, é difícil trocar uma quantidade razoável de passes para criar, ocupar e usufruir dos espaços no sistema defensivo adversário.

Não cumprindo conceitos básicos de aproximação, o meia armador tem de retroceder e vir buscar a bola ainda em campo defensivo e, sem maiores opções, se vê obrigado a carregar muito a posse e enfrentar três marcadores fechando espaços centrais. Ou volta a bola aos volantes ou força um jogo direto pouco qualificado. Os extremos pouco fazem a diagonal interna para superiorizar no setor, brecando também o avanço dos laterais.

Outro ponto é o pouco peso ofensivo que os laterais possuem na organização ofensiva. Sabendo da certa lentidão dos volantes em transições defensivas, Josué Teixeira não permite que os laterais subam constantemente para abrir a defesa rival e facilitar infiltrações por dentro. Além disso, a subida dos alas faria com que os dois extremos trabalhassem por dentro e mais próximos ao meia, podendo triangular e acionar Nino em profundidade ou acionar os espaços em diagonal do centroavante.

Os volantes não apoiam e sobrecarregam o meia, que tem de percorrer muitos metros com poucas opções, impedindo assim qualquer tentativa de pivô ou ataque aos espaços por parte de Nino Guerreiro

Ainda falando dos laterais e já na fase de finalização de jogadas, o Remo pouco chega à linha de fundo para cruzar. A maioria dos cruzamentos parte da intermediária e é feita pelos extremos Mikael e Edgar. Sem a incorporação dos laterais no campo rival, o time perde densidade ofensiva e não preenche racionalmente os espaços, praticando um jogo previsível e facilitador para o adversário.

Sem falar que os cruzamentos oriundos do faixa intermediária são melhores para os zagueiros, pois estes atacam a bola de frente e melhor posicionados. Tais ações quase sempre vêm ainda na primeira trave, e Nino gosta de receber os cruzamentos na zona central da área, partindo do segundo poste e antecipando o zagueiro. Com a bola chegando apenas até a primeira trave, a maior distância a percorrer para tentar a antecipação faz com que haja perda de tempo, impedindo o centroavante de chegar antes.

Última fase sem incorporação dos alas não facilita o jogo apoiado e ainda gera cruzamentos da intermediária, reconhecidamente mais fáceis para a zaga rival

Nas transições ofensivas remistas, após o roubo a ordem é tirar a bola da zona de pressão tocando-a para o companheiro mais próximo e, em seguida, acionar imediatamente Nino Guerreiro, posicionado no círculo central para a distância não ser tão grande e o passe menos arriscado. Sua função é reter, girar e passar em diagonal para algum dos extremos aprofundarem em velocidade.

Após o roubo, há a saída da pressão e a busca por Nino no círculo central para posterior acionamento dos extremos que partem em velocidade

Todo o exposto acima é para mostrar que os setores necessitam de boa integração para a conclusão. O Remo finaliza em média 5 vezes por jogo, com a grande maioria sendo de fora da área. A dificuldade de realizar a organização ofensiva pelos fatores já citados, tem “excluído” Nino Guerreiro da maior parte das ações em campo de ataque, com ele limitado basicamente ao trabalho de pivô longe da área.

Com pouca mobilidade corpórea e sem coordenação nos mecanismos, o centroavante azulino dificilmente vai render o que se espera dele, pois sua característica é de estar na área, ou seja, os companheiros precisam fazer a bola entrar na zona de finalização. É uma questão que Josué Teixeira precisa reavaliar, pois a possível simples troca de centroavante não parece ser a solução adequada. Centroavante precisa criar espaços e ter a bola para chutar. Com a construção deficitária, fica difícil exigir algo certeiro de quem não possui repertório para produzir individualmente.

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