Por que o Remo tem tido dificuldades em criar suas chances?

As atuações do Clube do Remo ao longo de 2017 têm sofrido oscilações, como de praxe, mas há certa dificuldade organizacional ao se construir os ataques. Torcedores em geral reclamam da falta de repertório que permita a criação de chances, porém, olhando apenas a conclusão das jogadas (ou a falta delas). Tudo no futebol é interligado e integrado, portanto, se o final é ruim coletivamente, é porque o início tem sido prejudicado, fato que dificulta qualquer processo de avanço.

E neste sentido, talvez o maior problema e que desemboca na estagnação criativa esteja no momento de iniciação das ações. A saída não tem sido fluente, impedindo a equipe de se assentar em campo rival. A estrutura 4–2–3–1 vem sendo utilizada, com alguns mecanismos do modelo sendo mal executados e, com pouca mobilidade à frente, faz com que zagueiros e volantes optem por bolas longas para ultrapassar as primeiras linhas de marcação.

Plataforma inicial adotada pelo Remo

Tal dilema ofensivo começa logo na primeira fase de construção. Os zagueiros são responsáveis por receber a bola do goleiro, sendo orientados a buscar o passe ao volante que recua (João Paulo, Zé Antônio, etc). Nessa movimentação, ambos laterais se projetam um pouco e ficam bem abertos. O outro volante (Lucas Victor, Labarthe, etc) fica na linha divisória, em altura diferente e na diagonal do seu companheiro para ser opção, teoricamente.

Prioritariamente o lado direito é o mais buscado neste instante, com o recuo do extremo (Mikael ou Gabriel Lima) visando garantir a fluidez. Entretanto, nossos volantes não têm a qualificação do passe vertical que quebra linhas, deixando o jogo horizontal e lento demais. O losango formado na faixa central deveria ser a disposição que gerasse superioridade e permitisse ao time realizar a transição em bloco. Com a pouca oferta aguda de passes, o bloco adversário encaixa a marcação, sobe a pressão e o único recurso passa a ser a bola longa ao centroavante.

Formação para a saída de bola. Losango ao meio não é adequadamente utilizado por conta do excesso de lateralização do jogo; consequentemente, os espaços destacados pelos quadrados ficam desocupados, facilitando a marcação adversária

A saída geralmente começa pelo zagueiro da direita. Este recebe e aguarda a movimentação inicial do volante, que deve se mover de acordo com o posicionamento do centroavante rival, que tentará cortar esta opção de jogo. Ao retrasar sua posição, o volante naturalmente deixa a intermediária desocupada, e esta faixa do campo acaba não sendo ocupada por ninguém mais. Os laterais não centralizam, o segundo volante não recua e o extremo desce somente até a linha divisória.

O sistema de marcação adversário aqui não importa. Seja por zona ou por encaixes, a marcação é facilitada pela não coordenação dos mecanismos de movimentação nesta fase de instalação em campo contrário. Além disso, não há compactação nem aproximação adequada entre os setores, sendo um problema a mais na tentativa de passes mais verticais para ganhar terreno.

Movimentação do primeiro volante não é acompanhada pelo restante dos jogadores, desocupando a faixa indicada e gerando descompactação; assim, não há boas opções de passe à frente para imposição de jogo através da posse

Pela disposição dos atletas em campo, vê-se a formação de um trapézio ainda em campo defensivo a partir da estrutura de passes. Este trapézio é adequado para sair da marcação de um, dois ou até mesmo três atacantes rivais. A questão que atrapalha é a velocidade nas trocas de bolas e a pouca participação de quem se posiciona mais acima. Com a perda relativa de tempo, os jogadores adversários vão subindo as linhas e pressionando o portador da bola, limitando a eficácia e o aproveitamento dos passes.

Trapézio formado pela disposição de zagueiros, laterais e volante; a horizontalidade tira tempo e espaço do Remo

A principal ênfase de jogo está entre a dupla de zaga e o volante que recua. Independentemente do jogador, a orientação é para que haja este recuo e “facilite” a limpeza da saída. O triângulo de passes recebe cerca de 5 ou 6 passes, variando os lados e receptores na tentativa de encontrar um espaço mais livre ou à espera do recuo de outro atleta que auxilie e crie outra opção nesta região.

Com uma linha de quatro em arco, os encaixes individuais tão vistos no Parazão e certamente presentes também na Série C, fazem com que quem recua seja acompanhado e receba de costas para o marcador, movimento chave para a pressão intensa com vistas ao roubo. A orientação corporal de quem a recebe não é a ideal, talvez explicando a pouca efetividade de tais recuos.

Triângulo de passes na frente da área e o detalhamento dos encaixes setorizados que dificultam o perfil corporal e prejudica o retorno

Agora que os aspectos já foram explicados detalhadamente e, para não dizer que apenas criticamos ou apontamos os erros, aqui vão algumas possíveis movimentações e trocas de posições que facilitariam a saída, tendo como consequência uma melhor instalação em campo ofensivo:

  1. Uma alternativa seria posicionar os zagueiros a partir do tiro de meta bem ao lado da grande área. Isso aumentaria o campo que o adversário teria que cobrir, além de facilitar o deslocamento do primeiro volante, sem falar que este ganharia espaço e tempo para pensar e agir. Tal disposição também aumentaria o número de opções de passe ao zagueiro responsável pela iniciação. Contando com maior mobilidade dos homens de frente e a realização de mais desmarques de apoio, haveria maior número de recuos, aumentando a compactação e povoando melhor a entrelinha rival, já que mesmo com as perseguições, o centroavante e o extremo do lado oposto já se colocariam às costas do primeiro volante rival.
Maior mobilidade e ganho de terreno em campo defensivo e ofensivo; haveria melhoria na troca de passes, maior compactação, a fluidez aumentaria e o time ainda ocuparia a entrelinha rival

2. Com os mecanismos assimilados e já posicionados no campo de ataque, a disposição anterior resultaria numa superioridade numérica no setor de meio-campo. O segundo volante e o meia do 4–2–3–1 se alinhariam, contando com a movimentação centralizando dos dois extremos e o recuo do centroavante ou mesmo utilizando as paredes como referência. Uma espécie de pentágono se formaria, com 5 x 3 na faixa central e garantindo a abertura dos corredores laterais visando a exploração destes por parte dos laterais e posterior cruzamento. Toda a estrutura amparada pelos zagueiros e o outro volante como opção de retorno e equilíbrio defensivo em caso de perda da posse. Claro que tudo isso havendo também uma pressão imediatamente após a perda para atrasar o contra-ataque rival.

Nova disposição instalada em campo ofensivo; a ocupação racional dos espaços geraria passes e chances, seja pelo centro ou pelos flancos

A intenção do texto não é criticar jogadores individualmente. A questão central vai além disso. É para explicar os motivos de o time não estar criando maiores chances, muito também prejudicado pelas lesões. As ideias e princípios existem, mas não vêm sendo corretamente executados pelas questões expostas acima. A tendência é de melhora com o entrosamento.

Que os debates acerca dos problemas do time agora abranjam todo o contexto, respeitando a natureza sistêmica do jogo. Que as dúvidas sejam sanadas e a interpretação do que acontece em campo evolua. O Remo tem margem de evolução e todos aguardamos para vê-la nas partidas, de preferência acompanhada de bons resultados.

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