Sistema 4–3–1–2 no Remo: problemas, virtudes e soluções

Observando as discussões entre torcedores sobre problemas e virtudes que o Remo vem apresentando até aqui e atendendo a pedidos, resolvemos explicar um pouco mais o sistema tático que a equipe azulina vem utilizando para embasar os debates e mostrar suas vantagens e desvantagens. O texto não será individualizado, tendo o coletivo e a configuração do sistema como norteadores. Serão apresentadas ainda algumas possíveis soluções.

De acordo com as características do elenco e com suas ideias para o modelo de jogo, Josué Teixeira escolheu o 4–3–1–2 como plataforma para dispor seu time. Foi muito utilizado durante os anos 90, mas que reapareceu na última década com algumas variações. Baseia-se em um losango no meio, com um volante de contenção à frente da última linha defensiva, dois interiores dando suporte a ele e ao meia armador, este ficando atrás dos dois atacantes.

Posicionamentos iniciais do 4–3–1–2

Vendo o esquema em campo, nota-se que ele deixa espaços nos corredores laterais propícios aos avanços dos alas. Não por acaso, este é um dos problemas que vêm assolando o time remista. As áreas para coberturas nos lados são extensas, demandando mais tempo para o balanceamento. Porém, sem a participação dos três da frente (Flamel, Edgar e Val Barreto) na organização defensiva, os dois interiores e o volante central ficam responsáveis por resguardar a defesa e desarmar o adversário. Isso é falho porque estarão em inferioridade numérica e, invariavelmente, espaços no corredor oposto aparecerão.

Quando o adversário ataca por um dos corredores laterais, há a aproximação entre lateral, extremo e meia para combinarem e ganharem metros no terreno. O ajuste da marcação é feito pelo lateral e um dos interiores remistas. Isso permite superioridade numérica e a possibilidade de chegada à linha de fundo. Essa situação é permitida pela não incorporação de um dos atacantes na volta para a dobra defensiva. Assim, um enorme espaço se abre no corredor oposto e no meso-espaço para infiltrações e tiradas de pressão por parte do adversário, por falhas naturais do esquema e desapego à marcação.

Em ataques pelos corredores laterais, devido à não incorporação de um dos três da frente na marcação, o adversário fica em superioridade numérica nos flancos e no centro, comprometendo o balanço defensivo remista

Já quando o Remo é atacado pelo centro, se os dois volantes sobrepujarem a linha de marcação de Flamel, ficam em 3 x 1 com Renan Silva. Com a não recomposição pelos lados, se os interiores subirem a pressão para marcá-los, ambos têm a possibilidade de abrirem a jogada por um dos lados. Caso Marquinhos e Tsunami optem por fechar os corredores laterais, os volantes avançam, o meia armador adversário segura Renan ou atua na entrelinha, e penetrações e infiltrações ganham corpo na faixa central.

São metros ganhos pelo adversário no terreno de jogo que propiciam diversas possibilidades de jogadas. Poderão usar as paredes do centroavante, infiltrações, combinações diretas, provocar com a bola ou até mesmo a finalização de média/longa distância. O gol sofrido contra o Paysandu foi exatamente por esse problema na faixa central. Não deve-se culpar apenas o trio central, sendo este um problema conjuntural.

Ataque pela faixa central gera espaços e dúvidas no setor defensivo azulino quanto às subidas de pressão e tomadas de decisões

SOLUÇÕES:

  • Umas das soluções, entendendo as limitações físicas de Flamel e Val Barreto, seria trazê-los para a linha divisória do gramado juntamente com Edgar. Assim, eles teriam menos áreas de campo para correr e não precisariam voltar acompanhando os laterais adversários ou um dos volantes. É importante frisar que eles não marcariam ativamente, apenas ocupariam espaços e não possibilitariam as jogadas com os alas puramente por estarem próximos a eles. Isso obrigaria o armador adversário a recuar no campo para buscar a bola e aliviaria o sistema defensivo, diminuindo a profundidade do jogo. Configuraria uma espécie de 4–3–3 sem a bola.
4–3–3 sem a bola para tapar os laterais e bloquear o volante com maior saída de jogo. Forçaria também o armador a recuar para buscar a bola, facilitando o trabalho defensivo.
  • Outra solução seria trazer Edgar para a segunda linha, formando um 4–4–2 e deixando Flamel e Val Barreto na frente para combaterem os volantes. Assim, os encaixes de marcação ficariam mais individualizados do que zonais, dando maior valor ao trabalho de contenção. Edgar e Marquinhos travariam os laterais, e Renan Silva e Tsunami encarregavam-se do armador. A superioridade central estaria garantida. Ademais, o início da construção ofensiva ficaria com os zagueiros, sem qualidade para tal, forçando o lançamento longo e propiciando a recuperação da posse.
4–4–2 em linha, anulando laterais e volantes, deixando os zagueiros para a construção. Flamel e Val Barreto apenas cercariam, não se desgastando tanto.

Agora em organização ofensiva, o 4–3–1–2 permite muitas variações nas movimentações que facilmente confundem a defesa rival. Interiores infiltrando e flutuando, meia central buscando a entrelinha, atacantes prendendo os dois zagueiros e os laterais tendo ótimos poderes ofensivos em 1 x 1. Se o time tiver um meia com bom jogo associativo (o que é o caso de Flamel), poderá tirar grande vantagem com incorporações e ataques ao espaços intralinha da última linha defensiva rival.

Como citado no último parágrafo, Flamel é um meia com características associativas, precisando de apoios para fazer fluir a circulação e criar espaços na zona central para ativar as diagonais dos atacantes no espaço compreendido entre lateral e zagueiro (Edgar aproveita bem esses espaços). Sua velocidade cognitiva é maior, fazendo com que a aceleração do jogo por sua parte se dê com passes agudos, sem tantos metros para avançar em condução.

Na organização ofensiva do Remo, Flamel tem ficado sozinho no meso-espaço, tendo a oposição de dois ou até três volantes. Jaquinha tem tendência interior, mas ainda posiciona-se na linha de Marquinhos, um pouco atrás de Flamel. Consegue gerar perigo quando tem vitória pessoal sobre seu primeiro marcador, pois a capacidade associativa aumenta com um obstáculo a menos. Estar sozinho dificulta o trabalho de giro, pois Flamel recebe muitas vezes de costas sem ter a velocidade adequada para esta situação e acaba, por vezes, não conseguindo dar a fluidez e a agilidade necessária para o jogo.

Flamel sendo marcado por dois e muitas vezes recebendo de costas para a bola. Acaba tendo poucas opções de passe e tira a agilidade do ataque.

SOLUÇÃO:

  • Uma possível solução seria deixar três jogadores atrás (dois zagueiros e o volante de contenção), Tsunami à frente deles como opção de retorno e dispor uma linha de quatro com Flamel, Jaquinha, Marquinhos e Léo Rosa. Contando com a péssima recomposição defensiva pelos lados dos times do Parazão, essa linha de quatro teria superioridade numérica sobre os dois volantes na intermediária ofensiva. Também ajudaria Flamel, pois ele teria mais opções de jogo curto e não teria a marcação tão pesada sobre si. Os dois atacantes prenderiam os zagueiros e Jaquinha e Léo Rosa ficariam sempre de mano com os laterais, sabendo que ambos possuem habilidade para se desvencilhar do marcador. A configuração seria 3–1–4–2, com a transição defensiva sendo facilitada pela boa ocupação dos espaços e a pressão imediata após a perda da posse de bola.
3–1–4–2 em ação ofensiva facilitaria o jogo de Flamel e criaria mais oportunidades ainda pela superioridade e vantagem nos duelos pessoais

Para finalizar, é preciso frisar que não existe esquema certo ou errado, bom ou ruim. Existem escolhas de acordo com o elenco e ideias de jogo. Há de se levar em conta o início da temporada, o pouco tempo de preparação e o entrosamento ainda não estar 100%. Isso tudo influi, principalmente em organização defensiva e transição defensiva. A margem de evolução existe e a tendência é que cresça e alcance o equilíbrio em termos de desempenho.

O texto foi apenas para explicar melhor o funcionamento do sistema e apresentar possíveis soluções para os erros. Os treinamentos poderão corrigi-los em especificidade. Josué Teixeira sabe quais os problemas e já tem trabalhado nisso. O debate agora poderá ser mais embasado.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.