Ser mulher, ser negra

Texto e fotos: Renan Xavier

Lucimara dos Santos

“Atiraram no Christian! Atiraram no Christian!”, foram as palavras que a costureira Lucimara dos Santos ouviu ao ser acordada por familiares, na madrugada de 24 de janeiro. O rapaz baleado era seu próprio filho, de 17 anos, uma das três pessoas mortas na chacina que aterrorizou o bairro Caputera, em Mogi das Cruzes. Dois dos autores do crime seriam policiais militares, presos provisoriamente em setembro.

Os projéteis que tiraram a vida de Christian levaram Lucimara a Brasília, no dia 18, para gravar depoimento ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), da Organização das Nações Unidas (ONU). Na companhia de militantes do movimento social Mães de Maio, a mogiana falou ao mundo sobre seu filho, tal qual o descreveu, dois dias depois, durante a entrevista que gerou esta matéria. “Meu filho trabalhava, estudava, era querido por amigos e namorada, nunca teve envolvimento com drogas e tráfico. Era um bom menino”.

Como mãe, parte de Lucimara padeceu pelos revólveres dos mesmos encapuzados que alvejaram seu filho, a bordo de um Fox vermelho. Paradoxalmente, renasceu como militante, batizada nas lágrimas do próprio luto. Hoje, a costureira trabalha na mobilização de mães mogianas que vivenciam o mesmo drama para evitar que “mais Christians sejam mortos”.

Mulher, negra e moradora de bairro periférico, Lucimara problematiza a discrepância nas investigações de casos ocorridos em regiões pobres e ricas. “Se tivesse morrido o filho de alguém com dinheiro, o caso já estaria esclarecido. Como foi um jovem, negro e pobre, o juiz fala que não há provas suficientes”, critica. “Não há dúvidas de que os negros sejam as principais vítimas de mortes violentas. Mas também morrem muitos brancos na periferia. Acho que além da etnia, o que influencia muito é a classe social da pessoa. As periferias estão muito desamparadas”, avaliou Lucimara, que mora desde que nasceu no Jardim Caputera.

Dez meses após enterrar o próprio filho, a mogiana tenta retomar a rotina, sem ilusões de que as coisas voltarão a ser como eram. “Eu convivo todos os dias com o vazio. O sol já não brilha como brilhava, a comida não tem mais sabor. Eu faço as coisas porque têm que ser feitas, mas nada mais me empolga”, revela a costureira, que adotou o lema “Só por hoje”, dos narcóticos anônimos, como principal filosofia para levar seus dias. “Quem sabe um dia eu volte a viver. Por enquanto, eu apenas sobrevivo”.

Luciana de Oliveira

Luciana de Oliveira, que além de mulher negra é mãe solteira de três; que professa fé aos orixás e guias da umbanda; que declara abertamente sua militância de esquerda, constata com descontração: “Eu preencho quase todos os requisitos para um alvo de preconceito. Estou chegando lá” - e sorri.

Caminhando com desenvoltura pelos terreiros que frequenta, Luciana, que é filha da orixá Iansã, umbandista desde sempre e guerreira por vocação, destaca que sua resistência à discriminação religiosa é, antes de mais nada, uma herança cultural e étnica. “Muitas vezes, quando você se declara umbandista, e eu tenho certeza que isso não ocorre só comigo, você é automaticamente demonizada”, lamenta. “Mas tenho orgulho de ser negra e da minha religião. Meus ancestrais lutaram muito pela minha liberdade e eu vou lutar pela dos meus descendentes”, garante.

Há dois meses, a filha de santo se empenhou na criação de um fórum social para debater políticas públicas para os praticantes de candomblé e umbanda. Fundou o Coletivo de Matrizes Africanas de Mogi das Cruzes, que atua como articulador entre aproximadamente 200 terreiros do município. “O fórum foi importante para levantar bandeiras e demandas dos filhos de santo”. As primeiras ações do grupo serão a realização de um mapeamento detalhado dos terreiros e o Xirê, uma louvação a todos os orixás, que será realizada na manhã de sábado, 21 de novembro, na praça São Benedito, no Centro.

Sobre ser mãe solteira, mais uma vez Luciana não se intimida com a discriminação. “Acho que não sou menos que ninguém por ter três filhos e criá-los sozinha. Muito pelo contrário, sou mais macho que muito homem por aí”.

A aceitação de si, segundo Luciana, é o primeiro passo para a emancipação social. A militante constata que o machismo é um dos problemas mais latentes na sociedade, vitimando, sobretudo, as mulheres negras. “Se uma porta está aberta para uma mulher branca, para nós, negras, ela estará entreaberta: temos que empurrá-la”. No entanto, não há segredos para reverter esse processo que não a resistência: “O preconceito é muito forte ainda hoje, mas você tem que enfrentá-lo. Uma pessoa que sofra com algum tipo de discriminação só tem duas opções: se esconder debaixo da cama para o resto da vida ou enfrentar. Vai doer no começo, mas uma hora passa. Porque quando você se aceita, se impõe como você é, ninguém vai te olhar por cima, porque se tentar você vai olhar mais por cima ainda”, aconselha.

“Podem pagar menos pelos os mesmos serviços,
Atacar nossas religiões, acusar de feitiços;
Menosprezar a nossa contribuição para a cultura brasileira,
Mas não podem arrancar o orgulho de nossa pele negra”

Mulheres negras — Eduardo, Facção Central

Dayane Pietro

Na volta da escola, uma garota atravessava distraída a Avenida São Paulo, bairro do Socorro, em Mogi, quando a buzina de um carro a despertou de seus devaneios infantis. “Sai da frente, sua macaca”, foram as palavras cortantes que saltaram do interior do veículo. Isto em 1992, para uma criança de 11 anos. O autor da agressão seguiu caminho, sem desconfiar que o gesto marcaria para sempre Dayane Pietro, hoje uma microempresária do ramo de moda e confecção de acessórios voltados para o público negro.

“Casos de racismo nunca faltaram na minha vida, seja numa entrevista de emprego ou num concurso de beleza. Muitas vezes, nesses eventos, fui a única participante negra, mas mesmo assim minha mãe me incentivava e ganhei várias competições”, destacou Dayane. Com o tempo, a discriminação deixou de abalá-la e se converteu em motivação adicional na busca pelo sucesso. Atualmente, a mogiana está à frente da Boutique African People, marca que ela própria criou para suprir a carência de produtos voltados para o mercado de consumidores negros. O carro-chefe da marca são os brincos, confeccionados manualmente por Dayane, mas também são vendidos turbantes, faixas, bolsas personalizadas.

“O mercado ainda não despertou para o crescimento da demanda por produtos direcionados ao público afrodescendente”, avalia a empreendedora , que viu nessa carência um nicho ideal para desenvolver um trabalho. As motivações, no entanto, não foram meramente comerciais. Dayane estabeleceu como meta de vida lutar para a melhora da autoestima dos negros. “Minha mãe sempre me incentivou a me posicionar acima dos preconceitos, reconhecendo meu valor e minha beleza. Meu desejo é que todos os negros pensem assim e cultivem o mesmo orgulho que eu tenho pela minha pele e a importância histórica que nosso povo tem na sociedade”.

Dayane já não se reconhece vulnerável aos preconceitos. Da trágica recordação de quando foi agredida verbalmente na rua, só guarda o carinho pelos conselhos da mãe. “Não ligue para esses preconceituosos, você sabe do seu valor e sabe do valor do nosso povo”, recomendou, na época, Dona Neusa, mãe de Dayane. A filha atendeu ao pedido.

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