Mais que nunca, eles só têm um ao outro

Saudosa maloca

Texto e fotos por: Renan Xavier

Eram sete horas do dia 22 de outubro, quando uma caminhonete, viaturas policiais e tratores estacionaram em frente à casa de número 3.437, na Avenida Japão, em Mogi das Cruzes. O movimento despertou do sono Maria Otília Weber, de 67 anos, e Expedito Manuel da Silva, de 80. Os aposentados acordaram, mas dentro de um pesadelo. Atônito, o casal assistiu ao trator da prefeitura mogiana transformar em escombros o que chamaram de lar durante os últimos 30 anos.

Expedito Manuel da Silv e aMaria Otília Weber

Caíram lágrimas, além de telhas, durante a execução da ordem judicial de reintegração de posse do terreno, localizado no Conjunto Santo Ângelo, um dos bairros mais carentes de investimentos públicos do município. Na ânsia de salvar o essencial, Maria cortou o pé esquerdo ao pisar sobre o entulho. A aposentada conseguiu resgatar “alguns armarinhos” e documentos do terreno, como um levantamento planimétrico e um certificado de cadastro de imóvel rural em nome de seu marido, entre outros papéis que, somados, não puderam impedir o despejo. A operação foi um sucesso.

Expedito chora enquanto contempla o que restou de sua casa

Com o olhar marejado, Manuel contemplou os escombros, como se ainda pudesse tatear com a memória as paredes recém-demolidas. Analfabeto, com deficiências auditiva e fonética, o octogenário se fez entender, ao menos, em seu desalento. “Nós moramos aqui há muito tempo, agora não temos para onde ir”, gaguejou. Exatamente uma semana antes da reintegração, o aposentado teve alta de uma internação. Com o dedo, aponta as cicatrizes abaixo do peito e no pulso esquerdo, marcas de cirurgias que fez por problemas cardíacos. Mas foi o coração de Maria que preocupou o pequeno grupo de vizinhos que acompanhava o drama dos despejados. Com dificuldades respiratórias, em meio a soluços e pranto, a aposentado teve que se sentar num banquinho improvisado. Como a falta de ar persistiu, cresceu o temor de um ataque cardíaco e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado.

Agitado, o casal aguardaria por mais de meia hora até a chegada da ambulância, abrigado na casa de um vizinho. Sem filhos biológicos, Otília e Manuel receberam os primeiros cuidados e palavras de consolo de Francisco Marcos, que se refere aos idosos como pais e os acompanha há 35 anos, quando vieram de Guarulhos construir suas vidas em Mogi das Cruzes. “Calma, minha mãe! O importante é estar vivo, o restante a gente corre atrás depois”, aconselhou.

O socorro

Eram 15h33 quando os policiais solicitaram o envio de uma ambulância para atender os idosos. O veículo chegou ao local às 16h02, meia hora depois, segundo registros fornecidos pela coordenadora da Cure 192 — Central de Urgências, Remoções e Emergências, Marly Inês dos Reis Monteiro Garcia: “O tempo de atendimento e deslocamento foi normal diante da distância do local”. Mogi dispõe de 11 ambulâncias para o atendimento de cinco municípios consorciados, número que considera suficiente para o atendimento à demanda atual.

A prefeitura

Sem filhos ou outros parentes, o casal de idosos despejado não foi assistido pela Secretaria de Assistência Social de Mogi das Cruzes. “Não houve solicitação de atendimento”, justificou a prefeitura.

Expedito passa mal e recebe o auxílio de amigos para se abrigar da chuva
Francisco Marcos, que se considera um filho do casal
Like what you read? Give Vagamundo a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.