Sobre o Sagrado e Suas Cores

Era uma noite quente de agosto quando atravessei o jardim da casa de número 627, numa rua com nome de santo, na Zona Norte de São Paulo. Carregava uma câmera na mão e, na cabeça, uma ideia vaga do que poderia registrar ao atravessar o portal do barracão, ricamente ornado com fios de pipoca confeccionados a mão.

Era noite de festa! No interior do amplo cômodo, mulheres, homens e crianças dançavam ao ritmo de atabaques, orquestrando cânticos yorubá. Eu senti que estava pisando em chão sagrado, templo e morada dos orixás, guardiões da Terra e da natureza, segundo professam as pessoas de branco destas fotos, herdeiros de uma fé do além-Atlântico.

Por algumas horas, tentei acompanhar, com olhos e lentes, as expressões de devoção, respeito e adoração; os tributos, os movimentos, a intensa profusão de cores, numa tentativa frustrada de reproduzir todo o fascínio de uma festa a Omulú-Obaluaiê.

No entanto, tive ao menos a felicidade de apresentar a um público diverso parte da beleza que compõe o universo do candomblé por meio do ensaio “Sobre o Sagrado e Suas Cores”, que, em setembro passado, ficou exposto no saguão do Teatro Adamastor, em Guarulhos, e no Centro Cultural Casarão da Mariquinha, em Mogi das Cruzes, entre outubro e novembro.

A prática de religiões de matriz africana no Brasil fortalece a própria identidade cultural do país, como um grito de resistência que ecoa num mundo que, cada vez mais, reage com estranheza às assombrosas dimensões de sua diversidade. Diversidade representada pela referência às cores, no título do trabalho.

Todas as fotografias que compõem este ensaio foram feitas na noite de 22 de agosto, no terreiro Roça Candomblé Tateto Nkosi Mavambo Boiadeiro Zeferino Viva Deus Tataraneta, rua Santa Teresa de Jesus, Tucuruvi, São Paulo.