ENSAIO: Sexo e autonomia contextual

“But remember when I moved in you
And the holy dove was moving too
And every breath we drew was Hallelujah”
Leonard Cohen.

No tocante à moralidade sexual, o desacordo entre o religioso conservador e o cidadão mundano está na possibilidade ou não do que chamarei de autonomia contextual, negada pelo primeiro e tateada às cegas pelo segundo, que tenta viver a vida sem muitas firulas teóricas. Neste assunto, como em muitos outros, também grande parte da esquerda não nega sua filiação à tradição do pensamento absoluto religioso. A literatura sobre isso é farta e, portanto, remeto o leitor somente à pequena pérola Marxism and Christianity, de Alasdair MacIntyre.

O religioso parece incapaz de compreender que o ato sexual pode ter uma dinâmica própria que fuja da velha ladainha da objetificação do outro. Há bem mais ali: há um certo fazer-se objeto para dar prazer ao outro, há um buscar o outro, e isso numa época de perda das grandes experiências religiosas, o que pode tornar a experiência sexual, em si, uma das últimas fagulhas de transcendência na noite fria da modernidade. No fim do dia, há poucos desses hedonistas contumazes que grassam no imaginário conservador; antes, as pessoas parecem apenas estar confusas, ansiosas e em busca de alguma alteridade neste vale de lágrimas que é o mundo — nisso podemos concordar com a leitura católica do salmista.

Essa faceta do sexo, em geral, o conservador não é sequer capaz de vislumbrar, principalmente o jovem conservador que engrossa o coro dos puritanos sem nunca ter tido experiências sexuais. Sua pregação da castidade beira à histeria. O cidadão mundano, porém, por meio de sua experiência, por mais fragmentada que seja, sabe que a atividade sexual tem regras próprias que garantem seu valor e seu prazer e que não precisam ser esticadas para fora de seu espaço de exercício. É possível dar de quatro e andar ereto — ou ereta — nos salões. Na internet, essa autonomia contextual é concentrada no slogan “Eat her right, treat her right”, que responde à crescente intransigência de setores do movimento feminista que tentam tornar homogêneas as experiências dentro e fora do quarto, exatamente como faz o religioso conservador.

Mas é verdade que o religioso mais culto poderia questionar a possibilidade mesma de haver essa separação que garantiria a autonomia contextual. Poderia insistir numa visão mais holística do ser humano, ou na articulação de alguma natureza humana, visão esta que seja cética à autonomia contextual. Como a ontologia anda meio em baixa na esfera pública, o religioso teria de construir uma visão do ser humano provavelmente pela via da psicologia ou da antropologia que insista, por exemplo, no paralelismo entre onanismo e egoísmo; sodomia e fraqueza; poligamia e dispersão psicológica. Há raízes para isso na tradição religiosa e esforços para tanto no presente.