ENSAIO: “The Leftovers” — Em busca da anagogia possível

No final inusitado de Um homem bom é difícil de encontrar, Flannery O´Connor alcança a perfeição narrativa por meio de uma ambiguidade construtiva. Estaria a avó delirando, ao confundir o Desajustado com seu próprio filho, depois de este ser assassinado pelo malfeitor que toma suas roupas? Ou será que a velha, em tudo o mais mesquinha, estaria plena de uma epifania derradeira, de uma loucura tal que lhe enche de amor pelo algoz de seu filho?

Em tempos outros, quando o fogo do espírito era forte nos bárbaros recém-conversos que eram os cristãos, os padres da igreja lançavam mão da anagogia como expediente interpretativo que visava superar o sentido literal do texto em direção ao seu sentido pleno no esquema da bem-aventurança e da economia da salvação. Para alguém religioso, esse ato era mesmo inseparável do êxtase místico. Em tempos mornos como os nossos, dispensamos a anagogia e ficamos com a alegoria; abrimos mão da tralha metafísica, mas mantemos a busca pelo sentido. Não precisamos alcançar a perspectiva divina da Jerusalém celeste para apreciar a história bem contada pela Flannery: em terra de deflação metafísica, o autor converte-se em Deus de seu mundo e isso nos basta.

“Você é um homem bom?” S01E09

Méritos semelhantes engrandecem The Leftovers, a série magistral de Damon Lindelof, cuja primeira temporada foi inspirada pelo romance homônimo de Tom Perrota. A segunda temporada já é fruto do talento narrativo de Lindelof. Se o nome sonoro remete o leitor a algo, provavelmente é a Lost, seu grande trabalho anterior, que pairava como um espectro sobre The Leftovers antes de sua estreia: Lindelof repetiria o virtuosismo quase lúdico dos mistérios, enterrando a série sob os escombros de seu sucesso? A primeira virtude de The Leftovers é justamente não abrir o flanco para as críticas que despencaram sobre Lost. Mistérios há, e aos montes, menos como exibição e como jogo, e mais como alegoria. Tendo em vista os arredores temáticos da série e o cabedal de Lindelof, não seria exagero ou afronta à sensibilidade do leitor afirmar que The Leftovers oferece material para a anagogia e não necessariamente cristã. Parte da graça é a liberdade que o criador preserva para o expectador-criatura.

The Leftovers começa com um escândalo. Num dia 14 de outubro em todo o resto como os demais da História, 2% da população mundial desaparecem instantaneamente. Um evento dessa magnitude evoca o fim do mundo, ou sua antessala, para aqueles que interpretam a partida como o arrebatamento dos eleitos que precede os eventos antevistos por São João no Apocalipse. Para os que restam, entretanto, a vida tem de seguir seu curso e aqui reside o segundo mérito da série, que se importa pouco em explicar a partida; antes, o cataclismo está lá como o vazio, o silêncio e a solidão primordiais que marcam a existência humana, incontornáveis em face do escândalo que torna difícil escamotear sua presença pelos artifícios fáceis do verniz civilizatório.

Os eventos retratados pela série começam apenas três anos depois da partida, quando as feridas ainda sangram e sobre elas tripudiam os Remanescentes Culpados, uma espécie de seita (religiosa?) que surge depois do 14 de outubro, cercada de mistérios e de liturgias vazias para os não membros e cujo objetivo parece ser apenas impedir que o mundo esqueça o que houve. O mundo da pequena cidade de Mapleton, na primeira temporada, e de Jarden/Miracle, na segunda, é o mundo da Roma que desmorona sob o rigor moral do cristianismo nascente; é o da velha Europa que sucumbe ao ímpeto do islamismo militante. Diante do fim do mundo, ou de um recomeço áspero, embora necessário, o mesmo vazio absurdo que atormenta os personagens carrega consigo a possibilidade de alguma redenção, de alguma nesga de sentido. Essa tensão, que até agora organiza o eixo dramático da série, ganha corpo na cena de abertura da segunda temporada, uma das mais corajosas já vistas na televisão.

“Porque você é um homem bom, Kevin” S01E10

Economia da salvação, drama cósmico e vazio existencial podem dar panos de fundo elaborados, mas nem por isso uma boa história. O terceiro mérito da série é não descuidar dos personagens e da narrativa que, de diálogo em diálogo, de olhar em olhar, de música em música, vão dando uma urdidura sutil à trama densa. Nenhuma fala é desperdiçada; nenhum olhar, sorriso ou lágrima é desprovido de sentido narrativo; nada se esbanja e, quase paradoxalmente, nada deixa de carregar um sentido literal, um sentido alegórico e, perdoe-me o leitor, um sentido anagógico. Aos poucos, Kevin Garvey — por falta de denominação melhor, o personagem principal — vai-se tornando o elo entre a história bem contada, a narrativa bem talhada, e as divindades filosóficas que habitam o mundo de Damon Lindelof.

A terceira temporada da série, a estrear em 2017, será a última, o que só confirma a consistência do projeto, que pretende evitar a dissipação de Lost. Cada uma das temporadas é uma lição de contar história, de narrar no sentido pleno, sem indulgências ou subterfúgios; juntas, desconfio que formem um arco maior cujo sentido, assim como para quem lê apenas parte das Escrituras, ainda só se pode entrever. Quem ainda não assistiu a esta obra-prima da televisão pode juntar-se a nós na expectativa de que em 2017, quando o quadro estiver completo, sua visão seja salvífica.