A cliente perfeita

Uma história quase real sobre o vendedor de seguro de vida


https://www.youtube.com/watch?v=QzhbGaCwBzs

The night we met I knew I needed you so And if I had the chance I’d never let you go

- Be my baby, The Ronettes.


Eu tinha acabado de enganá-los. Estava morrendo de medo que não fosse conseguir, mas deu tudo certo. O problema agora era manter meu emprego.

Veja bem, eu acabara de manipular e iludir os agentes avaliadores de uma empresa de seguro de vida existente há quase dois séculos. Desde mil oitocentos e qualquer coisa as pessoas eram compelidas a comprar os seguros dessa companhia que era quase uma sociedade secreta. Uma sociedade secreta na qual eu acabava de entrar traiçoeiramente. Não porque fosse meu sonho, não. Me impus o risco de ser pega em minha trapaça porque estava desempregada, e aquele cargo ao que me candidatava prometia boa remuneração e relativamente pouco trabalho.

Mas é exatamente por causa dessas duas características que ele é difícil de se conquistar. Tão difícil, tão desejado, que eles fazem uma visita avaliadora à sua casa.

Na minha casa? Em busca de que?

Amigos, leitor, amigos.

O primeiro requisito para poder ser um vendedor de seguros de vida é ter um grande círculo de amizades. É através dele que fará suas primeiras vendas.

Aí começa minha trapaça. Eu não tenho um grande círculo de amigos. E a decoração da minha casa não é lá muito a de uma pessoa extrovertida. Pequenos empecilhos que resolvi facilmente desalojando minha amiga Mari. Não pra sempre, claro, eu não sou louca. Só liguei me passando por policial, falando que tinha acontecido um troço qualquer com a mãe dela, e que deveria ir imediatamente à delegacia do quinto dos infernos na rua quarenta e sete para fazer sei lá o que.

E foi muito bem feito pra Mari. Eu podia ser um sequestrador. Ela não deveria confiar tanto em ligações trágicas.

Aliás, deveria ter tentado falar com a mãe.

Mas vamos voltar para o apartamento dela. O apartamento vazio dela, onde me instalei para receber os meus possíveis futuros chefes. Fiz questão de deixar todos os porta-retratos bem à mostra — junto com a câmera super potente da Mari; iria dizer que era a fotógrafa do grupo, e, portanto, nunca aparecia nas fotos — e esperei tranquilamente sobre o sofá multicolorido da minha amiga desesperada.

O interfone tocou. Eles subiram.

Foi bem rápido. Estavam todos de preto, chapéus enterrados até os olhos, e poucas palavras. Observaram aqui, ali, fizeram três perguntas que respondi em meu teatro alegre e tagarela. Antes de saírem sacaram um contrato e me deram uma caneta que parecia funcionar desde o nascimento da empresa. Assinei em tinta vermelha e me empreguei.

Isso!

Saí do apartamento da Mari antes que ela voltasse, guardando tudo no lugar.

Mas e agora? Eu não tinha tantos amigos, e não queria me tornar uma chata do seguro de vida às custas dos convites pra festinhas e jantares. Não, trabalho é trabalho, amizade é amizade. Teria que dar meu jeito. Teria que ir à caça. Comecei-a naquela mesma noite.

Com o pretexto de comemorar, fui ao bar mais badaladinho do bairro, à espreita da alma mais auto-destrutiva que pudesse estar se embebedando por ali. Como deve imaginar, havia algumas. Algumas muitas. Era só escolher. Mirei, então, a mais cabisbaixa delas: uma mulher mais jovem do que eu, sentada de frente pro barman, bem vestida, bonita, e visivelmente insatisfeita.

— Parece que não fui só eu a ter um dia ruim.

Ela me olhou de baixo, e disse:

- E o que é que foi que te aconteceu?

Sentei-me ao seu lado:

- Minha mãe morreu — obviamente, sem um seguro de vida — e a família está brigando pra ver quem vai pagar enterro. Todo mundo já com olho no testamento também. Não sei por que, ela nem tinha muita coisa…

- Nossa, meus pêsames.

- Obrigada. Nunca se sabe quando esse tipo de coisa pode acontecer.

- É verdade. Desgraça cresce em qualquer lugar.

- Qual foi a sua?

- A minha?

- É, tá aí toda triste. Pensei que tivesse acontecido alguma coisa.

- Ah, não foi nada específico não. Ninguém morreu. Só o acúmulo dessas chatices diárias, sabe?

Ih, sei. Sei muito bem, querida, e se não soubesse, inventaria, porque você era uma cliente em um milhão. Nos nossos primeiros cinco minutos de conversa já me deixou sabendo que era uma bela carente, com leves e falsos impulsos suicidas, frustrada profissionalmente, mas acima de tudo, acima de tudo, preocupada com segurança financeira. Ah, sim, e tinha uma filhinha pequena que estava na guarda do ex-marido. Não vou mentir, você era muito mais; só que essas poucas coisas já continham oportunidade suficiente para a concretização de minha primeira venda.

Ficamos amigas.

Adicionei-a no facebook.

E começamos a sair.

Ela me apresentou ao seu círculo de conhecidos, e nos víamos semanalmente de modo tão religioso que decidi destinar meu domingo apenas à sua presença. Cinemas, restaurantes, bares, parques, e até festinhas das amigas da filha dela nos uniram em nossos encontros. E eu sempre encontrava um modo de passar minha subliminar mensagem sobre a brevidade da vida. Assistíamos sempre um filme trágico, comíamos em lugares potencialmente diabéticos, e fazia questão de mostrar as ferrugens transmissoras de tétano das casas de festa. O mundo é um lugar muito perigoso, e eu deveria alertá-la quanto às consequências do descuido.

E ela sempre caía na minha rede.

Nunca passava mais de uma hora comigo sem ficar ligeiramente apreensiva.

Vi-a passar de frequentadora de bares, adepta de remédios convencionais, sedentária, para usuária de florais, careta, obcecada por limpeza. Daquelas que leva um potinho de álcool gel e o aperta a cada minuto nas mãos pra livrar-se de potenciais doenças. Seus nervos estavam no ponto certo. Eu só teria que maquinar a situação perfeita para finalmente revelar minha profissão de modo sutil e solidário.

Mas minha cliente perfeita agiu como tal, presenteando-me com a solução. Me convidou para ver um filme em sua casa, enquanto poderíamos matar uma garrafa de vinho falando mal de seu último caso frustrado por mim.

Cheguei, abrimos a garrafa, vimos meio filme — tá, um quarto — e começamos a falar mal. E falamos. E falamos. E mudamos o assunto. E prosseguimos a falar enquanto um temporal apocalíptico de verão se formava lá fora. Quando nossa noite se dava por encerrada, ele decidiu cair sobre a cidade, transformando as ruas em rios e os bueiros em armadilhas.

E foi nesse ponto que culminou a perfeição da emboscada: não contente em me ter lá, disse-me para passar a noite em seu apartamento. Recusei educadamente dizendo oh não, não posso, que coisa terrível, vou te dar tanto trabalho, ao que fui respondida com um deixa disso, pelo amor de deus, eu te empresto um pijama — mas eu tenho carro, querida, posso voltar tranquilamente pra casa — não, nunca se sabe como a cidade vai ficar com essas chuvas. Fica aqui hoje. Tá bom, posso tomar um banho então? Claro que sim, vou te pegar uma toalha.

Não sou de cantar no chuveiro, mas nessa noite foi inevitável. Aquela mulher tão apreensiva acordaria com um belo de um seguro de vida na manhã seguinte. Sim.

Ou não.

Muito provavelmente não, a julgar pela cara vermelha, chorosa, e irada com que me recebeu quando reencontrei-a na sala. Estava sentada à mesa de jantar, com um cartãozinho na mão e minha bolsa jogada à sua frente, quinquilharias espalhadas.

O medo que não me afligia há anos injetou-se violentamente em minhas veias. Perguntei na maior calma possível:

- O que houv

- O que é isso?

- Oi?

- Isso — agitou o cartãozinho no ar — o que é isso? Há quanto tempo você tem escondido isso de mim?

- Eu ia te contar, juro que ia te contar, hoje. Por favor, vamos enxugar essas lágrimas, nos acalmar, que eu posso te explicar tudo direitinho.

- O que é que tem pra explicar? Eu enxergo tudo agora.

- Você não enxerga nada. Não tem nada pra enxergar.

- Chega de mentiras!

- Eu não menti!

Ela se levantou e jogou o cartãozinho em minha direção com extrema violência. O papel despencou desengonçada e vagarosamente ao chão.

- Então porque nunca me disse que era vendedora de seguros de vida?! Te contei meus problemas, ouvi seus conselhos, te trouxe pra minha casa — suspirou, as lágrimas caindo com mais rapidez e o rosto mais vermelho — vai embora.

- Mas a chuva

- VAI EMBORA

E fui empurrada até a porta com minha bolsa e com sua camisola. Tropecei para o corredor e ainda tive que ouvi-la dizer: e pensar que eu me apaixonei por você, antes de bater a porta na minha cara de modo descompensado.

PLÁ

Ela estava apaixonada por mim.

Podia ter vendido ar pra ela, se quisesse.

Assim, minha noite perfeita com a cliente perfeita foi afogada. Literalmente afogada pelo temporal que tomou o motor do meu carro e me deixou parada flutuando por um bom tempo. Horas que, enfim, não foram tão infrutíferas quanto poderiam. Minutos que me deixaram refletir sobre meu próximo e o último passo.

Decidi dá-lo dali uns dias. Deixei minha amiga se recuperar do baque para chamá-la para tomar um suco pela tarde de um dia de semana. Uma conversinha rápida para que eu pudesse me desculpar propriamente.

Droga nenhuma.

Já a esperava quando chegou, altiva em sua beleza, mas tão insegura quanto o dia em que a conheci no bar. Sentou à minha frente e, antes mesmo de falar comigo pediu uma coca-cola, coisa que não a via tomar em muito tempo. Hum…

- Como você vai? — Perguntei.

- Estou no meu horário de almoço. Não vamos tornar isso muito longo, tá? Você sabe como eu vou — a coca chegou e ela tomou seu primeiro gole junto com um remédio que tirou da bolsa. Hum…

- Tá bom. Eu queria, Eu precisava te encontrar pra me desculpar em primeiro lugar. Devia ter te contado o que fazia antes de começarmos nossa amizade, eu sei que

- Ok.

- Ok?

- Ok

- Como assim, ok?

- Ok, ué. Tá certo, eu reconheço suas desculpas.

Mas não perdoa. Tudo bem, esse não era o objetivo mesmo.

- Só que não é só isso. Eu acho que podemos continuar nos vendo — prossegui.

- Ah, mas não podemos.

- Porque não? Nós não nos damos tão bem?

- Nos dávamos muito bem. Não mais. Não depois que eu descobri que não passo de uma cliente pra você.

- Querida, você nunca foi uma cliente pra mim — e o golpe final: coloquei minha mão sobre a sua.

Ela olhou para onde meus dedos encostavam nos seus, e de volta para mim, já rubra e marejada. Sacudiu a mão, engoliu metade do seu copo de coca, e disse que já voltava, meio deprimida, meio irada. Foi-se e deixou a bolsa.

Isso. Isso mesmo.

Leitor, eu nunca tive a pretensão de reconquistá-la. Quando alguém descobre esse tipo de coisa e reage dessa maneira, pode esquecer. Mas precisava de um último momento com ela, para poder salvar meu navio que, ou naufragava em sua onda, ou permanecida de pé. E eu trouxera uma penca de armas para esquivá-lo da catástrofe. Essa breve ausência foi o suficiente para que sacasse meu alvo amiguinho solúvel e o deslizasse para dentro do copo meio cheio dela, sem chamar atenção.

Quando voltou, após a provável destruição do banheiro do estabelecimento em um ataque de fúria, agarrou a bolsa com um bufar e deu dois passos em direção à saída.

- Você não vai nem terminar de beber comigo?

Parou. Virou. E tomou de um gole o resto do refrigerante, lançando-me um sorriso ácido antes de ir.

Vi-a entrar no carro, liga-lo, e sair da vaga de modo desajuizadamente veloz.

Vi-a também apagar ao volante antes de virar o automóvel para o muro do estabelecimento em que acabara de sair. O carro entrou com tudo, explodindo a parede à poucos metros de mim ao som dos gritos desavisados.

Em meio à poeira e ao caos muita gente se juntou em burburinho.

Aproximei-me de um homem bem magrinho, especialmente transtornado, e disse suavemente:

- Se ao menos eu pudesse ter oferecido um seguro de vida pra ela.